quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Cisco

Visão, serva incondicional da atenção!

Quem nunca se arriscou a proferir o lugar-comum do tipo "vi mas não enxerguei" ou "olhei mas não vi"? Reflexos das condições do enxergar. Aceitação da fraqueza do olhar.

Brincamos com essa característica do sentido, com os livros de imagens 3D. Ficar segundos, minutos ou horas (depende da habilidade) para visualizar uma imagem em meio a muito estímulo visual.

Com habilidade de mudar o foco do olhar nos capacitamos a encontrar as imagens escondidas em intrincados arranjos gráficos. Verdadeiro exercício para o músculo dos olhos.

Certas vezes somos motivados por nossas intenções ou pretensões. Mateus, o evangelista, utiliza a figura do olhar para destacá-las: "Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu?" [1]. Quantas não são nossas traves...

Agora, nada melhor para o olhar do que o desconhecido, a novidade. Certa vez, li que ao apresentarem o cinema, pela primeira vez, a uma tribo africana, eles não conseguiam identificar as imagens projetadas. Uma questão da posição no espaço onde punham sua atenção.

Cotidianamente tenho meu exemplo para observação. Coisas da recente paternidade ou da tenra idade do rebento... Há sempre uma surpresa, alguns a se repetir por um bom tempo, a nos mostrar o complexo e maravilhoso desenvolvimento humano.

Minha pequena agora treina a precisão em segurar objetos com a ponta dos dedinhos, o indicador e polegar. Célebre movimento de pinça, graças ao polegar opositor. Dom concedido a nós e alguns outros primatas pela mãe evolução. Habilidade a nos distinguir na natureza.

Em alguns momentos, sentados à mesa, com ela no colo, seu bracinho parece se encaminhar em direção do nada. Em meio a tantas coisas dispostas, pratos, copos, brinquedos, ela pinça um pouco do nada! Vira o "algo" em sua direção e observa-o.

Ela pega pequenos ciscos ou grãozinhos, praticamente invisíveis aos olhos adultos à sua volta. Fica a apreciá-los curiosamente, esfrega as pequenas falanges para sentir sua textura. Descoberta do mundo nos pequenos e infinitos detalhes. Quanto para aprender!

Por familiaridade deixamos passar tantas coisas desapercebidas... Crescemos e perdemos a atenção. Desatentos terminamos um pouco cegos às "cotidianidades". Inúmeros tesouros esquecidos, recuperáveis apenas pelo olhar atento.

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