quinta-feira, 27 de junho de 2013

Atlas


Algumas vezes, em um livro, canção ou poesia, na obra de algum autor, em determinado trecho nos encontramos tão plenamente traduzidos que se faz quase impossível não reproduzir, publicar, homenagear, mesmo com o risco de trair seu sentido quando removido de seu contexto.

Ou mesmo o risco de sermos mal compreendidos, mal interpretados, principalmente para quem não nos conhece plenamente, ou julga conhecer, e acaba por tentar contextualizar pessoa e palavras.

Nos últimos dias tenho lido "A Revolta de Atlas", de Ayn Rand, já tendo passado ao segundo volume, com algumas gratas surpresas e outras tantas críticas e considerações referentes ao seu estilo e filosofia.

Apartes à parte, lá vai esta pérola cultivada com excelência e certeira nas ânsias de tantos Atlas espremidos por aí...

"- Srta. Taggart, sabe o que caracteriza o medíocre? É o ressentimento dirigido às realizações dos outros. Essas mediocridades sensíveis que vivem tremendo de medo de que o trabalho de alguém se revele mais importante que o delas - não imaginam a solidão que se sente quando se atinge o cume. A solidão por não se conhecer um igual - uma inteligência que se possa respeitar, uma realização que se possa admirar. Os medíocres, escondidos em suas tocas, rangem os dentes para a senhorita, crentes de que a senhorita sente prazer em ofuscá-los com o seu brilho, e, no entanto, a senhorita daria um ano de sua vida para ver um simples lampejo de talento entre eles. Eles invejam a capacidade, e seu sonho de grandeza é um mundo em que todos os homens sejam reconhecidamente inferiores a eles. Eles não sabem que esse sonho é a prova cabal de sua mediocridade, porque esse mundo seria insuportável para o homem capaz. Eles não sabem o que o homem capaz sente quando está cercado de seres inferiores. Ódio? Não, não é ódio, mas tédio - um tédio terrível, sem esperanças, paralisante. De que adianta receber elogios e adulações de homens por quem não se sente respeito? Já sentiu vontade de ter alguém para admirar? Algo que a obrigasse a levantar a vista?"

sábado, 26 de maio de 2012

Desajuste

Como conciliar um cotidiano atribulado e sacrificante com realização e motivação para seguir? A rotina diária de transporte público, com muito aperto e longo tempo, consome paulatinamente um pouquinho da alma por vez.

Nem adianta esperarmos o espírito colaborativo, do tipo “unidos na desgraça”, porque me parece utópico quando nos confrontamos com o comportamento da grande maioria. No meu caso, o desafio inexpugnável de todas as manhãs e finais de tarde atende pelo nome de Metrô de São Paulo.

Num arranjo desafiador, de corpos mais do que intimamente aglutinados, temos nossa paciência e educação rotineiramente desafiada. Permanece a impressão de inexistência da contrapartida, de que apenas nós a possuímos e nos dedicamos a usá-la. Surpreende a normalidade na qual a maioria entre no barco, nesse caso no trem, se engaja e adequa às atitudes do status quo.

Minha reflexão termina por concluir no meu desajuste: em meio a tanto fluxo contrário, a tanto esforço para o outro lado, o problema deve ser comigo, eu devo ser o desajustado, com alguma utopia inocente e irrelevante a corromper meu senso de realidade.



Hoje, logo cedo, dia frio e nublado, para combinar com via crucis do caminho até o trabalho, os ares matinais insinuavam não ser um bom dia para sair da cama. Enfrentar o vento cortante e gelado, mesmo que por algumas poucas quadras, testa nossa resistência e força de vontade.

Se ao entrar na estação do Metrô tudo ficasse para trás, estaria muito bom, mas essa não era a cereja do bolo... Depois de inúmeras composições passarem, consegui entrar num pequenino espaço disponível em uma, feliz por alguns centímetros quadrados de conforto.

Sina das sinas, ao toque da campanhia, um intrépido e grosseiro apressadinho se enfiou porta adentro, espremendo todos e todas, fazendo minha cabeça pender de um jeito inimaginável para comportar a entrada do indivíduo no vagão.

Fiquei lá, torto, contorcionista, e meu companheiro de viagem, braço estendido por sobre o povo, como se procedesse da forma mais humana e natural possível. Uma, duas, outra estação e a empáfia do passageiro me causava tamanha revolta que comecei a temer pelos meus atos.



Chegada a estação Sé, estava eu chegando aos meus limites. Nunca fiz, nem faria, confusão alguma, como bom paulistano prefiro seguir meu caminho, desviar dos acidentes e chegar o quanto antes aos meus compromissos.

Naquele dia tudo seria diferente... Mal as portas abriram, o sujeito olhou em minha direção, mudou a expressão e esbravejou:

- Qual o problema?

Respondi, aos berros, sem medir muito as consequências:

- O problema é sua empáfia, sua falta de qualquer indício de altruísmo!

- Empáfia? Altruísmo? ‘Cê é lôco, mano?

Tomado por instantânea sanidade, resolvi deixar passar, mas não sem antes encerrar com alguma máxima:

- A loucura é dádiva para poucos escolhidos! Ignorar é uma...

- Benção? Empá... Empá... Emmn-n… A-a-alt.. Altrrrrruuuuu... A... a... a...



Inesperadamente o cara começou a engasgar, como uma gravação com problemas, num tom estranhíssimo, metálico, meio mecânico. Assustado, me preocupei com a situação do meu interlocutor. O estresse urbano pode causar sérios danos em qualquer um e eu não desejava ser o motivo de uma crise.

Estiquei o braço para acudi-lo e toquei-o no ombro, perguntando se tudo estava bem. Inesperadamente ele estava catatônico, imóvel em sua postura agressiva, com meia palavra a caminho. Ao encostar nele algo se moveu, como uma peça a se desencaixar, e caiu pelo chão com um estridente barulho.

Aturdido, burburinho em volta de nós, mal percebi quando diversos seguranças do Metrô surgiram e acudiram o homem. Uma maca foi providenciada e, antes que pudesse me pronunciar, ele era removido apressadamente, enquanto o tumulto era dispersado, tudo em nome do bom funcionamento do sistema metroviário.

O mais estranho foi eu ter sido completamente esquecido, nem inquirido sobre a ocorrência. Com em qualquer confusão do tipo, num piscar de olhos todos andavam no seu ritmo frenético novamente, acabou a atração e somente eu continuava pensativo, atônito com a repentina disrupção da minha realidade.

Aquela imagem, a tal peça deslocada, os sons vindos da garganta daquele homem, martelavam meus pensamentos, persistiam e incomodavam, apesar da volta à normalidade de todo entorno.



Cheguei à empresa e não pude deixar de relatar o ocorrido. Melhor seria se tivesse ficado calado... Aparentados aos meus companheiros de viagem matutina, meus companheiros de trabalho atendiam ao perfil de incompreensão padrão das pessoas.

Virei piada com minhas afirmações incontestáveis da minha visão. De suspeitas a insinuações, ouvi um pouco de tudo, levando-me a suspeitar seriamente da minha sanidade. Não fosse a palpável realidade experimentada, eu concordaria que aquela pessoa era um ser humano comum, mas algo pairava de muito estranho no ar.

Revisei os fatos, avaliei meus sentimentos, porém meu incômodo só aumentava. Nada de notícias na Internet, ou no site da companhia de trens, nenhum indício de que eu vivenciara a bizarra situação. Também pudera, quem sou eu para virar notícia por algo corriqueiro e banal no tumulto diário de uma grande cidade?

Encanado como sou, a pressão mental foi enorme e insistente o suficiente para me incapacitar ao trabalho naquele instante. Duas horas depois não aguentava mais, decidi voltar para casa, descansar, tentar esquecer. O estresse urbano acabara de produzir nova vítima indefesa.



Retornei para minha casa, meu porto seguro, mas passar o dia sozinho pode enlouquecer alguém. Remoí cada detalhe do evento, recordava o som da peça batendo no chão. Mas que peça? Como alguém tem uma peça? Qual a origem da voz estranha, da disfluência verbal? Acaso ele seria alguém com implante, com alguma deficiência?

Cheguei a considerar alguma brincadeira de deuses, no estilo grego mesmo, apesar de nunca julgá-los muito verossímeis. De repente é assim, recebemos a revelação de nossa condição e encaremos nossas não crenças serem derrubadas, todas de uma vez.

Preocupei-me com minhas reações e com meus instintos. E se a loucura me abatesse e eu fosse levado a tentar contra mim mesmo? Acreditava piamente no sentido de auto-preservação, mas meus dogmas estavam me servindo pouco até aquele momento.

Procurei dormir, esperar nos braços de Orfeu pela chegada da minha esposa. Talvez uma conversa com ela, pessoa centrada, pudesse colocar novamente meus pés no chão, ajudar-me num rumo para o entendimento, ou ao menos para o apaziguamento da minha inconstância.



Horas longas se passaram, um sono inquieto, até eu poder ouvir o barulho das chaves na porta. Alívio e anseio pelo final da espera, afinal chegava a hora de encontrar alguma compreensão, no mínimo um afago consolador.

Cumprimentos rápidos, um olhar de espanto pela minha presença antecipada, e comecei a desaguar um relato quase alucinado dos eventos. Estática, ela me ouviu atentamente, com algumas poucas expressões de interlocução.

- Você não deveria se preocupar tanto com as coisas, encanar menos.

- Se fosse tão fácil, eu ainda estaria trabalhando.

- Fico realmente preocupada com suas menções e questionamentos relativos à sua auto-preservação... Onde já se viu isso? Seus desajustes com o cotidiano, seu descontentamento com a realidade, acho que poderia procurar ajuda.

- Sinceramente, pela primeira vez considero seriamente sua sugestão de terapia. A psicóloga, sua conhecida, será que pode me atender emergencialmente?

- Não custa procurá-la, tenho liberdade para ligar e marcar alguma coisa...

- O quanto antes, não sei o quanto aguento da minha ansiedade!



No dia seguinte, consulta marcada na noite anterior, fui ao endereço da tal profissional. Poderia ser bom, poderia valer para tantas outras angústias diárias... Tanta gente faz...

Cheguei ao local, dirigi-me a recepção e estranhei a reação da secretária quando me identifiquei. Um misto de prontidão e espanto com a minha presença. Tínhamos marcado com a psicóloga diretamente, mas parecia que a auxiliar conhecia todo o histórico, todo o ocorrido, além do meu perfil. Eu devia estar meio abalado mesmo...

Esperar na sala, mesmo por alguns rapidíssimos instantes, trouxe um pouco do bolo na garganta do dia anterior. Silêncio forçado, TV muda em algum programa de variedades matinal, expectativa alta além de padrões suportáveis.

A porta do consultório se abriu e presenciei a cena de certo encerramento forçado. Sugeria que minha visita havia forçado seu término prematuro. Fui convidado a entrar e me sentar.



Decoração aconchegante, ambiente calmo e envolvente, já me senti melhor somente de entrar e sentar.

- Bom dia! Sou a Marisa, psicóloga amiga de sua esposa. Dias tensos, não?

- Pois é, já adiantamos algo por telefone, só que a bastante por relatar ainda...

E fui destilando os detalhes daquelas pouco mais de 24 horas anteriores, com todos as nuances e reflexões anteriores. Não pude deixar de mencionar meus temores com a loucura, sentimentos de preservação, ou não, relações pessoais com a massa, etc.

Ela ouviu atentamente e solenemente se pronunciou:

- Bem, acho que não há muitas alternativas. Chegamos a um limite de condições.

- Como? Você pretende piorar minha situação?

- Calma, você logo entenderá. Acompanhe-me, por favor.



Ao toque de um botão na sua mesa, uma porta oculta se abriu, estava dissimulada pela estante de livros. Uma luz branca, bem fria, vazava lá de dentro. A psicóloga se encaminhou para tal passagem, me convidando a segui-la.

Não imaginava o mundo oculto atrás daquela porta. Laboratórios dignos de filmes, com pessoas e mais pessoas trabalhando, todos com ares científicos. Fiquei a pensar como não percebi as dimensões do lugar quando cheguei. Na verdade, acho que era imperceptível, feito para não aparentar seu interior.

Tal complexo de salas se estendia por um bom espaço. Por onde passávamos percebia o olhar de curiosidade sobre mim, um tanto similares ao da secretária lá na recepção. Alguns cochichos também podiam ser percebidos, quando o som de nossos passos permitia.

Paramos em um recinto ao fundo, com ares de sala de reunião. Minha anfitriã posicionou alguns aparelhos, projetores à primeira vista, e pediu que eu acompanhasse atentamente.



Imagem no painel, sozinho na sala, permanecia ali, pois sentia ser a única alternativa. Surge um rosto de um senhor grisalho, roupas alvíssimas, como das pessoas naquele lugar. E o mundo deu sua guinada:

- Olá SH327! Bem-vindo ao Complexo Recriação!

(SH327? Eu? Será isso mesmo?)

- Certamente você está se perguntando dos motivos, da sua identidade, dentre outras tantas questões...

- Seremos breves, com o máximo de informação necessária e você terá posteriormente todo o atendimento que desejar. Há muito a humanidade sofreu o ataque de uma pandemia inexplicável. Não sabemos se consequência da ação do homem, ou ira divina, mas poucos restaram.

- Aqueles poucos tentaram resgatar a espécie humana, mas também foram se extinguindo, um a um. Num último esforço, este projeto foi recriado para tentar manter a existência do ser humano.

- Com toda tecnologia existente em seu tempo, criaram e programaram autômatos responsáveis por dar continuidade à suas pesquisas, na busca de um DNA imune. Sou parte destes autômatos e posso lhe garantir que tivemos sucesso nessa empreitada.

- Porém, os indivíduos criados desse modo apresentaram problemas de adaptação à realidade solitária existente. Acabavam extintos ou se auto-extinguindo, fazendo-nos procurar uma alternativa.

- Decidimos construir um ambiente aprazível que permitisse sua continuidade, simulado com outros tantos autômatos na mais perfeita reprodução da civilização humana. Você é o primeiro, e único, a chegar até aos 30 anos ileso neste novo ambiente, mas alguma evento deve tê-lo trazido aqui.

- Havíamos preparado este último subterfúgio para tentar acudi-lo e garantir a continuidade do nosso projeto. Tentar contornar e reprojetar, se necessário...



Decidi não esperar o fim das explicações. Ninguém também tentou me impedir de deixar o local. As revelações até o momento foram suficientes para aplacar minhas angústias, por incrível que pareça. Em poucos instantes, reviravoltas mil, mas reinou uma paz repentina com a consciência da verdade.

Caminhei para casa sem muito pensar, até satisfeito e cheio de planos. O mundo parecia bem igual, apesar de eu conhecer seus meandros, um pouco mais de seus segredos. Deus definitivamente não estava apenas brincando.

Estranhamente sentia-me agraciado com tanto destinado exclusivamente para mim. É bem certo que poderia ter alguns pedidos atendidos, porém resolvi não arriscar... Vai que alguém ficasse desagradado e resolvesse encerrar alguma outra coisa.

Cumprimentei balconistas, atendentes, porteiros e nada havia mudado. Nem tinha a sensação de algum olhar estranho ou oculto. O céu ganhará um azul inesquecível e dormi como nunca naquela noite.



Outra manhã começara, os desafios estavam lá, os apertos os mesmos, a labuta a me esperar. No entanto, o inverno já nem incomodava. A curiosidade de como tudo aquilo era possível se mostrava mais incômoda, mas eu podia conviver com ela, sem precisar resolvê-la.

Cheguei à estação para encontrá-la daquele jeito, abarrotada, como toda dia da semana, em pleno pico. Ao menos poderia receber um bônus, uma folguinha de vez em quando, para facilitar as coisas. Fazer o quê, né? Deve ter que ser assim, para minha continuidade.

Malditos robôs!

sábado, 6 de agosto de 2011

Professor

Se
Prof. Hermógenes
(http://www.profhermogenes.com.br)


Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia...

Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas...

Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser...

Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo...
Se algum ressentimento,

Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,

E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou...

Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio...

Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu...

Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia...

Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende...

Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim...

Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito...

Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz...

Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou...

Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos,
Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.

Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido a Meta.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Vagas

Há vagas sobrando no mercado de TI!

A maioria dos profissionais da área já deve estar cansada de ouvir esta frase. Periga até ela já ter caído no inconsciente coletivo, ter virado mito, tal qual piada que ninguém sabe o autor.

Situação já há durar alguns bons anos, tenho a oportunidade de poder observá-la por dois ângulos: do contratante e do contratado (afinal ainda sou proletário ...). Devo ressaltar o foco na área de engenharia de software e projetos, onde atuo.

Recrutar bons profissionais está bem difícil. Tarefa árdua e extenuante, demorada além da medida. O mar realmente deve estar pra peixe, mas neste caso não para o pescador.

Devem existir inúmeras boas colocações, ao menos ofertas melhores daquelas de quem procura contratar, pois a fila de candidatos é longa, mas poucos preenchem os requisitos.

Grande parte faria melhor procurando emprego de paraquedista. Até psicólogo pretenso a codificador já surgiu. Quem sabe ao menos conseguiríamos compreender a psique binário-computacional de nossas máquinas. Ou então, de repente, elucidaremos as motivações de tantos POGs pelas linhas afora.

Como profissional posso dizer que certamente não há uma miríade de oportunidades maravilhosas. Muitos são os convites, mas nenhum exorbitante, irrecusável, ao menos para alguém experiente e capacitado, colocado em boa empresa. É comum desejarem pagar menos para obter muito mais.

Muitas vezes me parece um bom momento para os iniciantes, começo de carreira e dispostos a mais esforço por menos retorno. Têm mais a ganhar em experiência e muita história pela frente, para apostar num futuro consolidado e polpudo.

Preocupante mesmo é a indicação da falta de preparo dos mais jovens, das levas de profissionais atuando, sem tanto conhecimento ou profundidade. Nem é preciso mencionar a falácia do conhecimento em inglês, usado muitas vezes apenas como critério de filtro da qualificação, ainda que não seja usado na função ou realmente dominado pelo candidato.

Fiquei mais pessimista com a notícia na INFO, a corroborar essa falta de perspectiva. Se um dos grandes motivos é o desinteresse pela carreira técnica, caminhamos para o precipício, um ciclo vicioso de pouca motivação retroalimentada pela desvalorização do conhecimento especializado.

Começamos por comoditizar o trabalho em TI, perdemos os horizontes profissionais e terminamos fadados a importar tecnologia e reproduzir padrões estabelecidos. Dificilmente produziremos diferencial e competitividade como nação. Devemos mesmo nos conformar apenas com a sina de celeiro do mundo?

Enquanto não aprendermos a instigar a busca pelo conhecimento, aquela chamazinha da inventividade, continuaremos essa brincadeira improdutiva de gato e rato, uma cansativa corrida atrás do próprio rabo. E o baleiro continuará a rodar...

sábado, 9 de abril de 2011

Corrida

"Incomodada ficava sua avó".

Mal sabia o antigo slogan publicitário o quanto ficaria inadequado em nossa realidade contemporânea. Se há uma certeza atualmente é a necessidade de estar permanentemente incomodado.

Sossego só pra quem já se foi ou está desatento, alheio às constantes mudanças em nosso cotidiano. Nem a obtenção de algum sucesso concede descanso num belo regato.

Não havia muito tempo que tínhamos conversado com o Jonny Ken, do Migre.me, e eu soube do anúncio do encurtador de urls do Google, o goo.gl.

Quem poderia imaginar que alguém tão bem estabelecido, vivendo sua vidinha confortável em terras tupiniquins, iria encarar o confronto com um gigante internacional? Embate moderno, quase releitura, de Davi e Golias.

Que interesse poderia ter o pessoal de Mountain View, em um mercado pequeno, sem grandes reflexos? Tolinho, não? Seus tentáculos, ainda que "do bem", procuram indexar todo o conhecimento virtual e transformar isso em serviços utilíssimos. Nada pode escapar...

Aliás, realmente ninguém pode ficar sossegado com esse pessoal frenético em inventar boas soluções. Com a onda das compras em grupo, já estão encaminhando seu serviço de compras coletivas, batizado de Google Offers, tentando usar a forçar da comunidade.

Até em questões menos tecnológicas eles acabam se envolvendo, amenidades mesmo, ao menos para muitos de nós. Vai casar? Seu tempo está escasso para dar conta de todas as questões envolvidas? Procure ajuda no Google Weddings e aproveita todo o seu poder de indexação.

Mundo fashion? Num piscar de olhos você consegue acesso a tendências, acompanha celebridades, escolhe looks no Boutiques.com. Apesar do nome um tanto desconectado dos produtos da empresa, certamente está lá toda a tecnologia já bem conhecida por seus usuários.

Nem só de pequenos vive essa corrida de caçador... Para tentar fazer frente no mundo das redes sociais, eles inauguraram o botão Google +1. Atacaram na veia desse nicho, as indicações entre pessoas relacionadas. Resta agora essa nova onda pegar...

Porém, mesmo eles precisam estar atentos e se sacudir. No seu filão mais próspero, o mercado de buscas, já ocorreram boatos do lançamento de um sistema de buscas pelo Facebook. Assunto desmentido pelo próprio pessoal da rede social, bem que poderia ser verdade e esquentar os noticiários digitais.

A disputa nessa cadeia alimentar é intensa. Às vezes me parece que poucos têm condição de sobreviver, principalmente os menores. Ainda que achemos uma seara inexplorada, o jeito é correr e marcar território, fazer sua marca presente e permanente nas cabeças dos usuários.

Ideia consolidada, a ameaça dos gigantes será facilmente debelada. Quem dera fosse tão fácil...

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Self-service

Quanta falta faz a atenção...

Todo mundo se acostumou ao ritmo self-service das lojas de departamentos e afins. Basta entrar, escolher e levar, desde que em troca de pagamento, é claro.

Ninguém sente saudades do vendedor que colava no seu cangote e mantinha a perseguição incessante enquanto estávamos presentes na loja.

É bem verdade que ainda existem muitos exemplos das pragas grudentas em algumas localidades, mas já não é tão comum, nem bem visto. Pega mal e afasta muitas pessoas.

Às vezes vejo o spam como esse tipo de vendedor, tentando empurrar aquilo que não queremos e sendo insistente sem pedir licença.

Classifico dessa forma até as polidas mensagens ditas "autorizadas", oriundas de alguma pesquisa ou cadastrado preenchidos, mencionadas em alguma minúscula linha.

Resolvi entrar numa cruzada e descadastrar-me de toda e qualquer lista promocional, sanear minha caixa postal e para de perder mais tempo apagando a enxurrada mensagens com aquelas supostas vantagens temporárias e possivelmente imperdíveis.

Vale a conta... São poucos segundos de visualização, multiplicados por uma infinidade de ofertas diárias! Certamente preciosos minutos do meu dia eram desperdiçados em inúteis cliques no botão apagar, sem aproveitar nenhuma daquelas "tentadoras" vantagens. Afinal de contas, nem existe dinheiro disponível em volume proporcional para suportar tamanho consumo.

Levei pouco mais de um mês para dar cabo da empreitada e convencer alguns insistentes serviços de que eu realmente não queria mais ser informado por eles. Conheci truques marotos, como o da editora Abril, colocando um botão imenso com o texto "NÃO gostaria de excluir meu endereço", frente a um minúsculo componente para confirmação da exclusão.

Dá para imaginar o que acontecia na reação automática...

Empreitada terminada, sucesso total, ou quase, pois a Dell não cansa de continuar com seus envios, apesar de nas minhas solicitações insistir igualmente que meu endereço já foi excluído. Se já ocorreu a remoção, por que continuo recebendo? Dã!

Agora minha caixa postal paira por lá, enxuta, tranquila, receptiva aos conhecidos e às mensagens de interesse real. Foi significativa a redução do tempo despendido! Porém, ficou uma sensaçãozinha de abandono, de certo vazio...

A sinalização de novas mensagens acontece de vez em quando, não mais a toda hora. Rola certa crise de abstinência, um desejo por aqueles antigos cliques rápidos. Parece até que estou perdendo a prática. Quanta necessidade de atenção!

Deixarei o tempo passar, afinal ele é o remédio para todos os males. Prefiro assim, mais sensato, menos insano, com muito mais tempo, com menos dependência... e sem ninguém no cangote. A atenção a gente resolve de outro jeito.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Embate

Sempre desejamos ver o Brasil no rol dos principais países do mundo, mas provavelmente procurávamos o bônus, sem nunca pensar no ônus. E que ônus...

Desde do começo do século XXI as guerras religiosas vêm imperando, periodicamente eclodindo, pequenos eventos de grandes proporções. Nunca mais vimos uma guerra mundial, deflagrada em todos os cantos, mas em todos os cantos o conflito ideológico é constante.

Ao Brasil coube contribuir com a manutenção da paz mundial, seja lá o que isso significasse aos poderosos do mundo. Passamos a intervir e participar ativamente nestes conflitos, aliados que somos do grande conselho humano.

Da minha parte eu vivia sossegado, já me considerava longe da idade de convocação. Quase cinco décadas deste século, eu já com a minha quarta década completada, estava muito distante do perfil de um cadete. Ledo engano...

A evolução tecnológica transformou nossos combates e, sendo assim, minha senioridade em engenharia de software era de grande valia. Pior para mim, já que a melhor alternativa é levar a campo os cientistas computacionais para manter ativa a gigantesca máquina tecnológica de batalha.

Tudo é software e rede, executado por máquinas combatentes, com mais ou menos inteligência, a subjugar exércitos de carne e osso, sem os recursos necessários para fazer frente ao dinheiro das Nações Unidas, a não ser por sua coragem e desprendimento ou, na opinião de alguns, loucura mítica.

Meu consolo é estar voltando, após longos quatro anos no front. Normalmente somos levados por não mais que dois anos, mas sabemos como são persistentes esses ideólogos terroristas. Entre uma dificuldade e outra, entre um novo desafio a solucionar e outro, minha dispensa foi sendo adiada. Agora definitivamente acabou, ao menos para mim.



É estranho chegar em casa depois de tanto tempo. Sem contato com minha família, por questões de segurança. Tanta tecnologia maravilhosa e a única garantia de segurança total é a ausência dessa mesma maravilha.

Vivi nos últimos anos um mundo com acesso aos mais recentes recursos computacionais existentes, mas não podia sequer envia um e-mail à minha mãe. Mesmo a minha volta é desconhecida por ela, afinal nada é comunicado ao mundo civil.

Não reconheço o porteiro do prédio, deve ter sido trocado neste tempo... Por sorte algumas coisas nunca mudam, caminho como íntimo do local, avanço para o portão e ele se abre. A velha maneira de distinguir os moradores dos estranhos através do comportamento.

Chegando à porta a expectativa é grande, mal consigo acertar a chave. Para piorar, ela não vira, parece ter tido o segredo trocado. Toco a campanhia. Que remédio, não? Antes não tivesse tocado, ou nem tivesse chegado até aqui. Quem abre é uma pessoa totalmente estranha, assim como eu também o sou para ela.

Confiro o andar, a porta, penso até na cidade, o país, mas tudo confere. É daqueles momentos que nos fazem questionar a própria sanidade... Conferências feitas, tudo confirmado, resta-nos apenas o questionamento.



- Desculpe-me, mas não mora aqui a Sra. Maria Moreira?

- Caro rapaz, sou a moradora e não conheço essa senhora.

- Há quanto tempo a senhora reside neste apartamento?

- Já vivo aqui há dois anos, desde que meu marido faleceu.

- A senhora comprou ou alugou de quem?

- Comprei-o do governo, meu filho, num programa de moradia para a terceira idade. Por sinal, quando cheguei havia uma misteriosa correspondência na portaria, endereçada a Eduardo Moreira. Seria você?



Desci à portaria, depois de me despedir e desculpar a tal senhora. Sentia-me como um personagem de tragédia grega, com os deuses a brincar com essa pequenina formiguinha. Quem sabe o desconhecido porteiro conhecia algo para me alentar...

Identidades apresentadas, ele me entregou a tal carta, por sinal com marcas do tempo que já se passara. Quem diria, num mundo de mensagens digitais, instantâneas ou não, totalmente conectado, eu ainda recebo mensagens em papel e envelope.

O fatídico objeto tinha logo do governo e era endereçado a mim. Se foram eles mesmos que me mandaram para outro canto do mundo, por que não me localizaram lá? Falta de controle, organização ou excesso de segurança?

A carta dizia que minha mãe sofrera distúrbios mentais, não tinha mais condições de ficar sozinha. O serviço social tomou conta dela, liquidou seus bens e a instalou em uma clínica para tratamento de idosos senis. Endereço informado, imediatamente me dirigi para lá.



Ficava a tal clínica em São Paulo mesmo, na região de Higienópolis. Espero que o governo tenha gerido muito bem os recursos da minha mãe, afinal os custos de um internação para aqueles lados devem ser bem altos.

Cheguei ao local angustiado, ansioso por saber o que exatamente se passava. Não bastasse o peso dos acontecimentos da guerra, eu começava a perceber que suas consequências não ficariam apenas por aquelas terras distantes.

Encontrei o local, reluzente, um prédio suntuoso, destes das propagandas para aposentados endinheirados. Caminhei até a recepção e fui direcionado à seção de visitas de familiares.

Aguardei alguns minutos, sentidos como a eternidade, até ser chamado por uma simpática atendente. Fui informado que eu havia sido considerado morto em guerra e minha mãe acolhida ali sob os cuidados do governo.

Se fui considerado morto, por que diabos havia sido deixada uma correspondência endereçada a mim? Ás vezes são tantas as trapalhadas governamentais que me questiono como conseguimos chegar ao estado atual.

Felizmente meu chip de identificação e a rápida assinatura genética não deixaram dúvidas sobre minha identidade. Só lhes restavam permitir que eu encontrasse minha progenitora. Assim foi feito. Fui levado para as áreas internas da instituição.



Era um jardim como dos filmes, muito bonito e aconchegante, um tanto bucólico, mas um com uma paz incontestável. Senhores e senhoras aqui e ali, em conversas calmas e felizes, um verdadeiro éden da idade avançada.

Em meio a tantas cabecinhas brancas, pude reconhecer seus traços envelhecidos. O olhar um tanto aéreo, mas o mesmo sorriso inesquecivelmente gentil. Ao seu lado, alguém mais jovem com quem conversava. Certamente não era um paciente, mas uma visita também.

Ao me aproximar mais, notei certa familiaridade com os traços daquele acompanhante. Essas coisas de traços da família, desenho da cabeça, contornos dos cabelos. Era comum, ao encontrarmos alguém assim, dizermos: deve ser um Moreira. Seria algum primo?

Saudei-os ao longe e, no momento que aquele homem se virou, fiquei atônito! Era eu! Alguns poucos anos mais jovem, eu podia reconhecer, mas era como vivenciar a fábula de Scrooge, ou algo parecido. Ele me parecia um tanto surpreso também e minha falta de ação fez com que ele se dirigisse até mim.



- Quem, quem é você? - primeiro ato meu, como se eu tivesse algum controle.

- Unidade de cuidados e acompanhamento EM01, senhor.

- O que você é ou faz aqui?

- Fui encarregado pelo governo para tomar conta de sua mãe. Posso reconhecê-lo, afinal sua pessoa foi a matriz para minha geração.

- Como assim?

- Quando a demência atingiu sua mãe, ela apenas parecia se referir a você. Perceberam que você seria a única pessoa capaz de conduzi-la e cuidá-la. A opção mais humana era mantê-la em contato com seu filho.

- Mas você não sou eu, não é o filho dela. É um autômato feito minha imagem e semelhança para enganá-la.

- Senhor, desculpe, mas no estado mental dela eu sou tudo que precisou nestes últimos anos. Posso garantir que vive feliz e atendida, como qualquer pessoa poderia desejar.

- Você não entendeu. Eu não quero minha mãe pajeada por um monte de porcas e parafusos, sem ofensas. Minha ausência foi certamente um grande prejuízo para ela, mas tenho condições e quero recuperar tudo que puder.

- O senhor não me ofende, mas posso garantir que fui programado e poderei garantir toda a atenção necessária até seus últimos dias.

- Isso é um absurdo!

- Meu filho, quem é esse rapaz com você? - era ela inquieta por nos ver em acalorada conversa.

Sai, deixando-a com ele, mas seria por pouco tempo. A administração daria conta de resolver essa questão absurda. No caminho pelo jardim, tive a estranha sensação que ele me seguia com o olhar.



- Gostaria de falar com o médico responsável.

- Pois não, senhor, chamarei o Dr. Cardoso agora mesmo.

Não tinha dúvidas de que eu tinha meus direitos e eles eram irrevogáveis. Seja lá qual for a confusão, com essa história de morte minha, ou qualquer outra que possa surgir. É muita desinformação numa sociedade há tantas décadas dita “da informação”.

- Pois não, o senhor é Eduardo Moreira, certo?

- Sim, gostaria de resolver um problema, uma verdadeira confusão, que considero inadmissível.

- Claro, entendo perfeitamente e já tenho o assunto adiantado. Fui informado da sua chegada e pretendia minimizar o transtorno, mas o senhor foi rapidamente levado ao encontro de sua mãe.

- Esqueça os rodeios. Quero levar minha mãe para casa e quero ela distante daquela aberração.

- Ah! A unidade de cuidados. Mas o senhor deveria ficar com ela. Essas unidades, tecnologia recentemente desenvolvida, são criadas para nunca mais serem dissociadas de seus humanos.

- Não me interessa quando foram desenvolvidas, nem suas diretrizes, simplesmente não quero aquele fantasma a nossa volta.

- Infelizmente a única solução é desativá-la totalmente.

- Então o faça!

- O senhor é quem manda, apenas será um desperdício de dinheiro e tempo. Muito do senhor foi colocado naquela unidade, de características físicas a memórias. Um desperdício...



Fomos em um grupo: o diretor-médico, um enfermeiro e eu. Na verdade, o enfermeiro era mais um técnico de hardware do que um profissional da saúde. Ele controlava os códigos de manutenção daqueles robôs.

Ao nos aproximarmos dos dois, subitamente minha versão robótica se levantou de maneira tempestuosa. Olhou-nos espantado, correu em disparada pelo jardim e, num salto mais que olímpico, sobrepujou o muro da instituição.

Corri em direção a minha mãe, para acudi-la, enquanto ouvia o diretor demandar uma série de ordens e alertas. Parecia que eles também foram surpreendidos por aquela reação, tanto quanto eu.

O ocorrido sugeria que ele havia pressentido nosso intuito. Eu não imaginava que estes cuidados básicos, de controles e reação destas máquinas, não haviam sido tomados por seus criadores. Imagina se nossas máquinas guerreiras pudessem também se descontrolar assim. Isso estava me cheirando a mais descuidos do nosso governo...



- Mãe?

- Meu filho? Que estranho, parece que você foi numa direção e voltou noutra.

- Está tudo bem, não sai daqui.

- Curioso, há algo diferente em você.

- Impressão sua, deve ser a luz de hoje.

- Com certeza. Já não tenho mais a mesma cabeça de antes. Se não fosse você comigo...

- Em breve, vou levá-la para casa, para cuidar melhor da senhora.

- Casa? Outra? Você sempre me cuidou tão bem aqui. Se não fosse você...

- Iremos para um lugar melhor ainda, então.

- Ah, meu filho, só você mesmo para estar sempre ao meu lado, cuidando de mim durante todos esses meus anos de invalidez. É por isso que te amo.