segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Ordem

"Ordem e Progresso": o lema positivista é passível de questionamento, afinal a ordem será o único caminho para o progresso?

Independentemente da opinião, algum ordem deve existir. Deve?

Recentemente a Ordem dos Advogados do Brasil é questionada a respeito de seu exame de admissão. Bacharéis em direito não aprovados no exame e, portanto, não aceitos na ordem, são impedidos de exercer o Direito.

Uma legião de bacharéis não aceitos faz parte da Associação Nacional dos Bacharéis de Direito e reclamam da inconstitucionalidade do exame aplicado pela Ordem.

Na discussão entram questões referente à autonomia das instituições de ensino, habilitadas pelo poder público, representado pelo Ministério da Educação, em tornar aptos os cidadãos, uma vez que formados e acompanhados por elas.

Do ponto de vista da Ordem, ela deve cumprir um papel mal exercido pelos órgãos responsáveis pela fiscalização das instituições de ensino, ao validar o conhecimento e capacitação dos formados nestas instituições. Seu propósito é nos "proteger" dos mal formados...

É fato que o exame deve ser rigorosíssimo, ou os estudantes muito mal preparados, tendo em vista os índices anuais de reprovação desse exame. Também devemos considerar que esse rigor não nos exime de encontrar um mal profissional.

Estaríamos mais bem amparados se possuíssemos mecanismos para nos defendermos de problemas com tais profissionais despreparados. Ajudaria se a justiça também fosse mais ágil e desembaraçada. Intervir sempre é uma forma artificial e ineficiente de controlar a vida.

Com a falta de alternativas, o assunto deve ser discutido e ações estruturais definidas. O ensino precisa melhorar e nossas instituições democráticas também. De qualquer forma, alguma ordem ainda deve haver...

domingo, 20 de janeiro de 2008

Vontade

Entre nossas vontades e nossas obrigações ocorre um embate diário de nossas almas.

Somos seres repletos de vontades. Em sua grande maioria, nossas vontades procuram a nossa própria satisfação. Nosso egoísmo é nosso pecado original.

Diferentemente, muitas de nossas obrigações são relativas ao comum, aos outros, a vida. Mesmo em obrigação para nossa própria realização, somos reativos, custamos a aceitá-las de bom grado.

Conciliar os dois gênios existentes é tarefa árdua. Algumas pessoas nem se dão ao trabalho, seguem alimentando suas vontades e lhes dando vazão. Outros se privam de qualquer uma e entregam completamente às suas obrigações. Todo excesso é ruim.

Santo Agostinho nos deixou uma boa solução, pautada no amor. "Ama e faz o que quiseres". Se como premissa colocamos o amor, qualquer outra ação conciliará nosso dilema entre o eu e o nós. Ao menos é um parâmetro funcional desde muito tempo.

Esse dilema humano percorre nossa história, influencia conflitos e soluções, marca divisões e mudanças.

Em nossa evolução, a saída de um modo primitivo de vida nos trouxe a melhores condições de existência, uma existência muito mais humana. Porém, viemos de um ponto que nos deixou muitas heranças, heranças instintivas, constantemente carentes de doma.

O resultado demorará muito tempo. Nossa transformação é homeopática, longa e perene. A vigilância deve ser contínua. Não podemos baixar a guarda!

sábado, 19 de janeiro de 2008

MASP

Emblemática referência de São Paulo, o MASP está em situação representativa de nosso cuidado com a cultura.

Patrimônio cultural e turístico de nossa cidade, vem sofrendo arrastada crise financeira que culmina em uma seqüência sem fim de problemas.

Os problemas vão de dívidas com credores diversos até problemas financeiros com o governo e prestadores de serviços.

No final do ano passado, um roubo ocorrido no museu escancara sua débil infra-estrutura e o descaso com os mínimos cuidados em sua administração. Podem culpar a falta de dinheiro, mas a situação é certamente fruto de muitos outros desacertos presentes.

Com o roubo resolvido, em sua reabertura outros problemas são encontrados. Após 60 anos de existência, descobriu-se que ele nunca recebeu alvará de funcionamento. O Contru, responsável pela concessão de tal alvará, deverá encontrar variados problemas impeditivos para tal liberação.

Em situação tão deplorável, é cogitada até mesmo a possibilidade de transferência de seu acervo para a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Obviamente uma operação desse tipo encerraria a vida do museu. Felizmente a justiça já negou essa possibilidade.

Em uma cidade de tantas riquezas, como a nossa, não haverá forma de angariar fundos para sustentar um museu? Ou os fundos são tão mal administrados, como tantos outros nossos bem públicos? A iniciativa privada, aliada ao poder público, não consegue apoiar uma instituição desse porte e importância histórica? Como nós, cidadãos, podemos agir?

Nosso museu corre o risco de se tornar emblemático em outra questão: nosso desprezo pelo nosso patrimônio cultural.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Unanimidade

"Toda unanimidade é burra".

Ser unânime é quase um não ser, ao menos a luz desta frase de Nélson Rodrigues. Adotar a unanimidade cerceia liberdades, garante uma comodidade que estagna qualquer um.

Possivelmente a frase é mais uma bravata, pura e simples, do frasista mais controverso de nossa cultura. Um ícone produtor de desafios e espinhos sociais.

No mínimo, a unanimidade incomoda. Será possível não haver outro ponto de vista, em determinada situação? O tão inquieto ser humano consegue se apresentar tão homogêneo em suas idéias?

A unanimidade é possível com consciência, com o devido cuidado, longe da burrice da simples aceitação, da adoção de uma visão dominante. Essa unanimidade autêntica, sem burrice, é mais rara, complicada e conseqüentemente difícil.

Costumamos fugir da situação de conflito, preferimos a tão falada, e fadada, "zona de conforto". Da zona de confronto buscamos distância, pois dá um trabalho e, em muitas situações, se junta ao desânimo , a suspeita da ineficiência de qualquer reação.

Unânimes ou não, seguimos apenas humanos, demasiadamente humanos, ou "humânimes". Seguimos a corrente, apesar de todo o descontentamento do autor. No mínimo assumimos nossa fraqueza frente ao confrontamento de idéias.

Ironia do destino, ou não, muitos admiradores do grande escritor consideram-no uma unanimidade.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Alumínio

Já faz alguns anos o Brasil está entre os campões em reciclagem de alumínio.

Em tempos de temática ambiental, muitos avaliarão o fato como uma boa notícia, importante até mesmo para a imagem do país no mundo.

Possuímos condições favoráveis para sua produção e utilização. Some-se o fato de a coleta de latinhas de alumínio representar fonte de renda para muitas pessoas pobres.

O estranho é lembrarmos que o alumínio é um metal nobre, utilizado através de uma liga de metais, e o utilizamos para embalar bebidas e depois descartá-lo.

Muitas outras formas de embalagem são mais econômicas, mas todos querem a comodidade das latinhas e seu pequeno custo logístico. Em troca de facilidade, podemos estar desperdiçando muito mais do que através de embalagens mais antigas.

Sua produção envolve custos altos, sendo grande parte deles composto por custo com energia elétrica. Dinheiro e energia elétrica, dois bem preciosos e escassos são consumidos indiscriminadamente para atender a industria.

Reciclar reduz consideravelmente os custos com a obtenção do material, tornando importante sua prática. Porém, mesmo a reciclagem consome energia para sua realização. Se as embalagens não precisassem ser refeitas, certamente obteríamos custos menores e menor consumo de recursos.

Devemos continuar o ciclo com a reciclagem, mas, como a exemplo das bebidas alcoólicas, poderíamos adotar a inscrição "consumir com moderação" em toda latinha de alumínio. A natureza agradece.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Viver

"Viva como se fosse morrer amanhã. Aprenda como se fosse viver para sempre.".

A sabedoria de Gandhi é abrangente, aborda dos problemas mundiais até os dilemas do cotidiano. Possivelmente tudo está ligado, pessoal e comunitário, público e privado.

Reconhecer a necessidade de aproveitar o presente é a chave para o caminho da felicidade. Um presente consciente do futuro e valorizado pelo passado.

Não se trata de negligenciá-los ou omití-los, nem tão pouco de cultivar o pragmatismo. Trata-se de valorizar cada precioso minuto de seu dia, identificar seu potencial e procurar obter dele o melhor.

Aprender como se fosse viver eternamente é um desafio para mim. Jamais por não desejá-lo, mas por praticar intensamente.

Demorei muito tempo para aprender a selecionar o que aprender, a concentrar esforços em determinados assuntos. Ninguém consegue ser uma biblioteca ambulante, apesar da patologia insana dos loucos por informação.

Em nosso tempo, de mundo digital, de grandes transformações, o conhecimento é mais dinâmico do que nunca foi, agravando a dificuldade em obtê-lo. Será possível? Ou conhecimento é algo vivo, vivido, com o qual devemos aprender a lidar e não deter?

Aprender com a possibilidade de eternidade se revela mais interessante do ponto de vista de aceitação, de se permitir receber idéias, sabedoria, com a gratidão para a natureza que nos a oferece.

Em ambos os preceitos, o segredo é o equilíbrio. Ele é permanentemente desafiado pelas duas afirmações com idéias contrapostas, em cada frase. No deslizar entre os dois extremos, o melhor ponto está no meio.

Difícil pode ser, mas como não viver desafiado?

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Mortadela

"Fulano come mortadela e arrota peru..."

Se alguém ainda acredita nisso, é apenas porque não conheceu o sanduíche de mortadela do Mercado Municipal de São Paulo.

Legítima instituição paulistana, quem prova, não nega. Dentre muitas delícias existentes naquele lugar, o pão com essa especial carne é garantia de uma refeição deliciosa.

Ninguém renega o pastel de bacalhau, o bolinho de bacalhau, mesmo toda e qualquer fruta, das mais variadas possíveis. O Mercadão, como é conhecido popularmente, é um oceano repleto de aromas e sabores.

Agora, o tão famoso sanduíche começa no pão sempre fresquinho e crocante, do tipo francês, de um tamanho certamente acima de 50 gramas. É a roupa de gala de seu recheio.

A mortadela, de três tipos diferentes (tradicional, bologna ou defumada), é cortada tão fininha que parece um corte a base de bisturi. Mesmo tendo cerca de 300 gramas, uma mordida é como apreciar um macio pedaço de carne, tenra e suculenta.

Servida quente, deve estar acompanhada de queijo, derretido, mas sem uma quantidade exagerada, apenas para acompanhar. O equilíbrio de tanto recheio é obra de técnico muito experiente, estruturalmente elaborada para não desmoronar ao primeiro contato.

Já pude experimentar em diversos lugares, mas não há como lá em matéria de sabor. Talvez seja a freqüência alta de pedidos, proporcionando porções sempre frescas da iguaria, sem alterações no paladar. Pode ser também a exclusividade no preparo, não permitindo a mistura de sabores na chapa.

O conjunto harmonioso confere boa refeição para uma pessoa. Dependendo da fome, é possível dividir com alguém, mas, ao provar, a tendência é querer um só para si. A conquista é imediata e marcante.

Para acompanhar, um bom chopinho é excelente pedida. Garanto que até mesmo os não fãs da bebida aprovarão. Eu fui um deles.

Indispensável nesse banquete, sempre será, a companhia de bons amigos. Imperdível!