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quinta-feira, 9 de abril de 2009

SMS

"Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá..." [1]

Desde tempos imemoráveis, poetas cantam a vida e o mundo em seus versos. Jogam jogo delicioso de palavras e ideias, cutucam recantos de nossa percepção.

Longos ou curtos, ou até atômicos, seus textos exploram as dimensões do papel. Traduzem sua alma nas dimensões físicas impostas pelo meio, pela mídia escolhida.

Expressam seus anseios de acordo com a cultura vigente, ou a transgridem, ousam além de seu tempo e seu lugar. Metamorfose constante e deliciosa do rosto humano.

Evidentemente, a Internet já participa, contribui com essa forma de arte. Seja na simples divulgação, seja na absorção do corpo, na criação de limites e conceitos. Prato cheio para os artistas concretos, a explorar a infinita variedade de materiais existentes no mundo digital.

Mas o inquieto mundo digital é sempre surpreendente. Nos menores bits existentes podem afluir nascentes de refrescante água criativa. Seria de se esperar, em tão prolífero e etéreo campo, sorvedouro do ímpeto expressivo homo sapiens.

SMS é um serviço um tanto em desuso, meio obsoleto frente às pirotécnicas vertentes da mais recente tecnologia. Para que serviria um opçãozinha de troca de textos, simples cadeias de letras, em uma existência cada vez mais visual? Para trocar poesias!

Exatamente isso... Utilizar um "antigo" recurso da telefonia celular para explorar novo formato para cantos à vida, ao amor, à existência. Inusitado a primeira vista, a iniciativa recebeu atenção digna dos instigantes desafios à nossa inventividade.

Batizada pelos ingleses de Mobile Phone Poetry, direta e obviamente, a lista de alguns poemas enviados ao jornal The Guardian demonstra a força da multidão, do surgimento do poeta e poesia em cada representante da nossa espécie.

O "gadget do cotidiano", nossa mais familiar extensão cibernética, permite a expressão do dia-a-dia, do popular, como acontece com a boa poesia. Que maravilhas existiriam se Camões, Fernando Pessoa ou Vinícius de Moraes tivessem acesso a essa oportunidade, em desfrutar desses primores?

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Versos

E continuou a escavação, com poesia a aflorar...

O poeta, plural e atemporal, descortina a vida magistralmente, em frente a nossos olhos, com leveza e simplicidade peculiar.

Grandeza guarda de sobra, mas singelamente nomeia palavras douradas como "Textos mínimos". Se vão três décadas, mas sua sagacidade revela a efemeridade de nossas tendências.

Textos mínimos
8.IX.1973

De repente fica na moda
não estar na moda.
Torna-se impossível
estar, estando.


Iluminado pela ciência disponível a poucos, percebe as incongruências de nosso modo de vida. Brinca com nossos valores e desvaloriza, ou melhor, revaloriza as escalas existentes. Altera a visão, busco novo ângulo.

Solto na jaula
o tigre observa
o Jardim Zoológico
do mundo.

Afiado em sua posição e fiado por sua importância, clama pela solução de problema antigo. Antigo e presente até hoje, apesar do tempo e da voz ecoada no passado. Sua rima esquecida, por desgosto ou interesse, ainda ecoa em tantos ouvidos.

Quando acabarem de consertar
este atrapalhado Rio de Janeiro
haverá morador
para o prazer de morar nele?
E haverá morada
para o morador?

Reformas antigas e necessárias, sabia ele descrevê-las com maestria. Bom humor e sinceridade à parte, via o erro chegar com tristeza, mesmo para um reino de alegria imensa. Alegrias a menos e tempo a mais, o problema persisti, sem ninguém revidar.

Carnaval Chegando
9.II.1974


Qualquer dia
decide o fisco:
Passistas
bateristas
destaques
mestres-salas
porta-estandartes
trabalhadores autônomos
da folia
devem pagar imposto de alegria

Ao fim, como análise certeira, contrapõe o cotidiano, preocupação rotineira. Jogo com palavras o balanço da vida. Destaca tão firme a justa medida.

Esparsos de 1976
Repetição

Aumenta o salário mínimo?
O custo de vida, máximo,
torna o mínimo mais mínimo
criando o mínimo máximo.

Ah, poeta! Quem dera eu poder transcrever, assim com quem nada querer, anseios, angústias de um bem viver. Licença prefiro pedir para, de minhas, suas palavras eleger.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Bolsa

Escavações em biblioteca pessoal rendem redescobertas maravilhosas.

Reler "Amar Se Aprende Amando", de Carlos Drummond de Andrade, revela releituras desconhecidas. Achados da sensibilidade aguçada do poeta, capaz de perverter o tempo e captar o futuro.

Em tempos de economia pujante, eis a descrição, de três décadas atrás, atemporal como a alma do escritor.

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A Bolsa, O Bolso
9.V.1971

"À Bolsa!" é o novo grito. A Bolsa, a vida
em milhares de ações reflorescida.
Investir é o mot d'ordre. Investimento
com sua rima de financiamento
A Belgo deu filhote? A Brahma chama?
A Souza Cruz do lucro atiça a flama?
Estou de olho na José Olympio
(Quere uma bolada não é ímpio.)
Discutem dois garotos. Investiram.
No quadro as cotações, atentos, miram.
Aquela é sua, bicho? Ai, antes fosse.
(Ao portador: Vale do Rio Doce.)
Viu mulher investindo? E como investe
em indústrias no Norte no Nordeste.
Já não fala em dez-mais, em longo e mídi:
é Bradesco, Banespa, BEG e BIDE.
Compre na baixa, venda na alta. Eis tudo
que se exige. De leve, de veludo.
O Banco do Brasil, a Petrobrás
estão enchendo de ouro o meu cabaz.
Que fazer com o excesso de tutu
de que meu bolso outrora andava nu?
Rumo à Bolsa de Arte, e arrematar
dois Volpi, três Dacosta e mais Guignard,
não esquecendo, é claro, Cavalcanti
(Di), Djanira, Pancetti, tutti quanti
couber na cobertura da Lagoa.
Não tenho cobertura? Oh, essa é boa.
Compro-a logo na Barra da Tijuca,
de faz-de-conta, sonho. Minha cuca
vai abrindo outras Bolsas de Valores:
de Glória, de Poder, de Amor-Amores.
A Bolsa da Beleza, a de Romance,
a de Poesia, pelo maior lance.
Ações de tudo. Até de não-agir.
de quedar no Arpoador, calmo, a sorrir.
A Bolsa de Viver em Paz... existe
só na Utopia, que, teimosa, insiste?
Uma Bolsa onde todos os papéis
se despojassem de signos cruéis,
e os bens tivessem nome de Alegria,
de Tolerância como de Harmonia.
Estou pedindo muito. Os pacifistas,
eles próprios, violentos, jogam cristas
com os belicosos. Só me resta, mesmo,
em verso pobre divagar a esmo.
O índice BV (Boa Vontade)
bate de porta em porta na cidade
de muros de granito ou de basalto,
mas quem abre, com medo de um assalto,
nas partes repartidas do planeta
cada vez mais confuso e de veneta?
Enquanto não se adensa tal miragem,
vou também, parafuso na engrenagem,
tentando o meu joguinho. A Bolsa! O bolso,
quero-o bem cheio, múltiplo reembolso.
Que títulos comprar? Aço, tecidos?
Docas, brinquedos, plásticos, sabidos
negócios, ou empresas de futuro?
Não sei se vejo claro ou vejo escuro.
Vale-me, corretor, vale-me, sorte,
nas jogadas de macro ou micro porte,
que eu prometo, se acerto na tacada,
a dica fornecer para a moçada,
e fundarei também a minha empresa
de capital aberto, em volta à mesa
de papo ameno e dose bem legal
de escocês dividendo... Então, que tal?

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