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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Embate

Sempre desejamos ver o Brasil no rol dos principais países do mundo, mas provavelmente procurávamos o bônus, sem nunca pensar no ônus. E que ônus...

Desde do começo do século XXI as guerras religiosas vêm imperando, periodicamente eclodindo, pequenos eventos de grandes proporções. Nunca mais vimos uma guerra mundial, deflagrada em todos os cantos, mas em todos os cantos o conflito ideológico é constante.

Ao Brasil coube contribuir com a manutenção da paz mundial, seja lá o que isso significasse aos poderosos do mundo. Passamos a intervir e participar ativamente nestes conflitos, aliados que somos do grande conselho humano.

Da minha parte eu vivia sossegado, já me considerava longe da idade de convocação. Quase cinco décadas deste século, eu já com a minha quarta década completada, estava muito distante do perfil de um cadete. Ledo engano...

A evolução tecnológica transformou nossos combates e, sendo assim, minha senioridade em engenharia de software era de grande valia. Pior para mim, já que a melhor alternativa é levar a campo os cientistas computacionais para manter ativa a gigantesca máquina tecnológica de batalha.

Tudo é software e rede, executado por máquinas combatentes, com mais ou menos inteligência, a subjugar exércitos de carne e osso, sem os recursos necessários para fazer frente ao dinheiro das Nações Unidas, a não ser por sua coragem e desprendimento ou, na opinião de alguns, loucura mítica.

Meu consolo é estar voltando, após longos quatro anos no front. Normalmente somos levados por não mais que dois anos, mas sabemos como são persistentes esses ideólogos terroristas. Entre uma dificuldade e outra, entre um novo desafio a solucionar e outro, minha dispensa foi sendo adiada. Agora definitivamente acabou, ao menos para mim.



É estranho chegar em casa depois de tanto tempo. Sem contato com minha família, por questões de segurança. Tanta tecnologia maravilhosa e a única garantia de segurança total é a ausência dessa mesma maravilha.

Vivi nos últimos anos um mundo com acesso aos mais recentes recursos computacionais existentes, mas não podia sequer envia um e-mail à minha mãe. Mesmo a minha volta é desconhecida por ela, afinal nada é comunicado ao mundo civil.

Não reconheço o porteiro do prédio, deve ter sido trocado neste tempo... Por sorte algumas coisas nunca mudam, caminho como íntimo do local, avanço para o portão e ele se abre. A velha maneira de distinguir os moradores dos estranhos através do comportamento.

Chegando à porta a expectativa é grande, mal consigo acertar a chave. Para piorar, ela não vira, parece ter tido o segredo trocado. Toco a campanhia. Que remédio, não? Antes não tivesse tocado, ou nem tivesse chegado até aqui. Quem abre é uma pessoa totalmente estranha, assim como eu também o sou para ela.

Confiro o andar, a porta, penso até na cidade, o país, mas tudo confere. É daqueles momentos que nos fazem questionar a própria sanidade... Conferências feitas, tudo confirmado, resta-nos apenas o questionamento.



- Desculpe-me, mas não mora aqui a Sra. Maria Moreira?

- Caro rapaz, sou a moradora e não conheço essa senhora.

- Há quanto tempo a senhora reside neste apartamento?

- Já vivo aqui há dois anos, desde que meu marido faleceu.

- A senhora comprou ou alugou de quem?

- Comprei-o do governo, meu filho, num programa de moradia para a terceira idade. Por sinal, quando cheguei havia uma misteriosa correspondência na portaria, endereçada a Eduardo Moreira. Seria você?



Desci à portaria, depois de me despedir e desculpar a tal senhora. Sentia-me como um personagem de tragédia grega, com os deuses a brincar com essa pequenina formiguinha. Quem sabe o desconhecido porteiro conhecia algo para me alentar...

Identidades apresentadas, ele me entregou a tal carta, por sinal com marcas do tempo que já se passara. Quem diria, num mundo de mensagens digitais, instantâneas ou não, totalmente conectado, eu ainda recebo mensagens em papel e envelope.

O fatídico objeto tinha logo do governo e era endereçado a mim. Se foram eles mesmos que me mandaram para outro canto do mundo, por que não me localizaram lá? Falta de controle, organização ou excesso de segurança?

A carta dizia que minha mãe sofrera distúrbios mentais, não tinha mais condições de ficar sozinha. O serviço social tomou conta dela, liquidou seus bens e a instalou em uma clínica para tratamento de idosos senis. Endereço informado, imediatamente me dirigi para lá.



Ficava a tal clínica em São Paulo mesmo, na região de Higienópolis. Espero que o governo tenha gerido muito bem os recursos da minha mãe, afinal os custos de um internação para aqueles lados devem ser bem altos.

Cheguei ao local angustiado, ansioso por saber o que exatamente se passava. Não bastasse o peso dos acontecimentos da guerra, eu começava a perceber que suas consequências não ficariam apenas por aquelas terras distantes.

Encontrei o local, reluzente, um prédio suntuoso, destes das propagandas para aposentados endinheirados. Caminhei até a recepção e fui direcionado à seção de visitas de familiares.

Aguardei alguns minutos, sentidos como a eternidade, até ser chamado por uma simpática atendente. Fui informado que eu havia sido considerado morto em guerra e minha mãe acolhida ali sob os cuidados do governo.

Se fui considerado morto, por que diabos havia sido deixada uma correspondência endereçada a mim? Ás vezes são tantas as trapalhadas governamentais que me questiono como conseguimos chegar ao estado atual.

Felizmente meu chip de identificação e a rápida assinatura genética não deixaram dúvidas sobre minha identidade. Só lhes restavam permitir que eu encontrasse minha progenitora. Assim foi feito. Fui levado para as áreas internas da instituição.



Era um jardim como dos filmes, muito bonito e aconchegante, um tanto bucólico, mas um com uma paz incontestável. Senhores e senhoras aqui e ali, em conversas calmas e felizes, um verdadeiro éden da idade avançada.

Em meio a tantas cabecinhas brancas, pude reconhecer seus traços envelhecidos. O olhar um tanto aéreo, mas o mesmo sorriso inesquecivelmente gentil. Ao seu lado, alguém mais jovem com quem conversava. Certamente não era um paciente, mas uma visita também.

Ao me aproximar mais, notei certa familiaridade com os traços daquele acompanhante. Essas coisas de traços da família, desenho da cabeça, contornos dos cabelos. Era comum, ao encontrarmos alguém assim, dizermos: deve ser um Moreira. Seria algum primo?

Saudei-os ao longe e, no momento que aquele homem se virou, fiquei atônito! Era eu! Alguns poucos anos mais jovem, eu podia reconhecer, mas era como vivenciar a fábula de Scrooge, ou algo parecido. Ele me parecia um tanto surpreso também e minha falta de ação fez com que ele se dirigisse até mim.



- Quem, quem é você? - primeiro ato meu, como se eu tivesse algum controle.

- Unidade de cuidados e acompanhamento EM01, senhor.

- O que você é ou faz aqui?

- Fui encarregado pelo governo para tomar conta de sua mãe. Posso reconhecê-lo, afinal sua pessoa foi a matriz para minha geração.

- Como assim?

- Quando a demência atingiu sua mãe, ela apenas parecia se referir a você. Perceberam que você seria a única pessoa capaz de conduzi-la e cuidá-la. A opção mais humana era mantê-la em contato com seu filho.

- Mas você não sou eu, não é o filho dela. É um autômato feito minha imagem e semelhança para enganá-la.

- Senhor, desculpe, mas no estado mental dela eu sou tudo que precisou nestes últimos anos. Posso garantir que vive feliz e atendida, como qualquer pessoa poderia desejar.

- Você não entendeu. Eu não quero minha mãe pajeada por um monte de porcas e parafusos, sem ofensas. Minha ausência foi certamente um grande prejuízo para ela, mas tenho condições e quero recuperar tudo que puder.

- O senhor não me ofende, mas posso garantir que fui programado e poderei garantir toda a atenção necessária até seus últimos dias.

- Isso é um absurdo!

- Meu filho, quem é esse rapaz com você? - era ela inquieta por nos ver em acalorada conversa.

Sai, deixando-a com ele, mas seria por pouco tempo. A administração daria conta de resolver essa questão absurda. No caminho pelo jardim, tive a estranha sensação que ele me seguia com o olhar.



- Gostaria de falar com o médico responsável.

- Pois não, senhor, chamarei o Dr. Cardoso agora mesmo.

Não tinha dúvidas de que eu tinha meus direitos e eles eram irrevogáveis. Seja lá qual for a confusão, com essa história de morte minha, ou qualquer outra que possa surgir. É muita desinformação numa sociedade há tantas décadas dita “da informação”.

- Pois não, o senhor é Eduardo Moreira, certo?

- Sim, gostaria de resolver um problema, uma verdadeira confusão, que considero inadmissível.

- Claro, entendo perfeitamente e já tenho o assunto adiantado. Fui informado da sua chegada e pretendia minimizar o transtorno, mas o senhor foi rapidamente levado ao encontro de sua mãe.

- Esqueça os rodeios. Quero levar minha mãe para casa e quero ela distante daquela aberração.

- Ah! A unidade de cuidados. Mas o senhor deveria ficar com ela. Essas unidades, tecnologia recentemente desenvolvida, são criadas para nunca mais serem dissociadas de seus humanos.

- Não me interessa quando foram desenvolvidas, nem suas diretrizes, simplesmente não quero aquele fantasma a nossa volta.

- Infelizmente a única solução é desativá-la totalmente.

- Então o faça!

- O senhor é quem manda, apenas será um desperdício de dinheiro e tempo. Muito do senhor foi colocado naquela unidade, de características físicas a memórias. Um desperdício...



Fomos em um grupo: o diretor-médico, um enfermeiro e eu. Na verdade, o enfermeiro era mais um técnico de hardware do que um profissional da saúde. Ele controlava os códigos de manutenção daqueles robôs.

Ao nos aproximarmos dos dois, subitamente minha versão robótica se levantou de maneira tempestuosa. Olhou-nos espantado, correu em disparada pelo jardim e, num salto mais que olímpico, sobrepujou o muro da instituição.

Corri em direção a minha mãe, para acudi-la, enquanto ouvia o diretor demandar uma série de ordens e alertas. Parecia que eles também foram surpreendidos por aquela reação, tanto quanto eu.

O ocorrido sugeria que ele havia pressentido nosso intuito. Eu não imaginava que estes cuidados básicos, de controles e reação destas máquinas, não haviam sido tomados por seus criadores. Imagina se nossas máquinas guerreiras pudessem também se descontrolar assim. Isso estava me cheirando a mais descuidos do nosso governo...



- Mãe?

- Meu filho? Que estranho, parece que você foi numa direção e voltou noutra.

- Está tudo bem, não sai daqui.

- Curioso, há algo diferente em você.

- Impressão sua, deve ser a luz de hoje.

- Com certeza. Já não tenho mais a mesma cabeça de antes. Se não fosse você comigo...

- Em breve, vou levá-la para casa, para cuidar melhor da senhora.

- Casa? Outra? Você sempre me cuidou tão bem aqui. Se não fosse você...

- Iremos para um lugar melhor ainda, então.

- Ah, meu filho, só você mesmo para estar sempre ao meu lado, cuidando de mim durante todos esses meus anos de invalidez. É por isso que te amo.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Olhar

Engana-se quem pensa que a atualmente cotidiana chuva paulistana nada traz de bom...

Dentro do Metrô, aguardo pacientemente o torrencial e impaciente aguaceiro que despenca dos céus. Leio um pouco, penso um pouco e resolvo escrever.

Nada de iPad ou netbook. Caneta e papel nas mãos (ainda bem que sempre os levo na mala) e um dedo de motivação provocada pelo olhar de uma criança que passa.

Parado em frente às escadas de entrada, observo uma pequena chegando acompanhada da mãe, olhar assustado pelo tumulto climático. Pessoas pra lá e pra cá, um frenesi encharcado pelos desequilíbrios da mãe natureza.

Passa, me olha e me fita, como só uma alma infantil sabe fazê-lo. "O que fará aquele 'moço' com instrumentos arcaicos na mão, em meio a essa confusão?". "Decifrarei-te se não me devoras!", parece dizer através da doce inocência de suas pupilas.

Por que crescemos e perdemos essa espontaneidade no olhar? Como adquirimos a tal vergonha, ou regra social, da indelicadeza de encarar alguém, daquele jeito desinibido, olho no olho como se o mundo se congelasse no momento da conexão de horizontes?

Frequentemente me pego assim, distraído, absorto, a encarar algo ou alguém acontecendo. Minha atenção é desviada por algum motivo e, quando me dou conta, meu foco está direcionado, sem tempo ou espaço, apenas percepção.

Familiares e amigos brincam ou brigam muitas vezes com esse meu jeito, motivo pelo qual aprendei a me policiar. Porém, hoje novamente fui levado a refletir qual o problema.

Quais convenções tornam desagradável o ato de olhar diretamente, sem barreiras, sem pedir permissão, apenas fitar para aprender, entender e, de certa forma, passivamente participar. Absorver a realidade.

Desejamos ocular algo? Tentamos com isso proibir a leitura de nosso livro pessoal? Talvez não o sejamos tão abertos, apesar de acreditar que o devamos ser. De repente, em meio a nossas páginas, sobre alguma erro gráfico, frase mal escrita, linha mal contada.

Humanos que somos aprendemos a olhar. Deveríamos prezar e preservar a sabedoria pura e pueril de sorver a existência pelas janelas de nossa alma. Exercitar o dom de perceber atentamente, pontualmente, o mundo a transcorrrer em frente a nós.

Acaso mantivéssemos a prática, seria muito mais fácil enxergar o outro, enxergar no outro nossa semelhança, sua dignidade e nos respeitarmos. Humanos demasiadamente e irremediavelmente humanos.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Trabalho

"O trabalho enobrece o homem".

Eufemismo dos mais antigos, denota o quanto fugimos da sina inevitável à existência. Tentamos extirpar a necessidade da labuta como quem combate mal imenso.

Ancestral associação, Adão e Eva foram condenados a deixar o Paraíso e passar a ter que... trabalhar! Castigo divino pelo constante inadequação humana aos preceitos universais.

Apesar dos pesares, após a industrialização a imagem piorou, mesmo com a condição melhorada. Pensando bem, os maus tratos, as condições inadequadas, apenas mudaram, trocaram de figura.

Resistimos a aceitar que nenhuma opção sobra. Esquecendo os simulacros da vida moderna, todo e qualquer ser humano tem que conceder sua parcela, contribuir com tempo de alguma atividade produtiva para a sociedade.

Se dermos sorte, podemos ter uma profissão ou função de nosso agrado pessoal. A velha de história de trabalhar com o que gosta. A parte esquecida é que, por mais prazeroso que seja, ainda sim dará trabalho!

O resultante pode ser gratificante, talvez resida aí a satisfação, mas certamente despenderá esforço. Qualquer outra amenização é pura ilusão. De tempo, de esforço ou de sentido. Outra realidade poucas vezes encarada: o vínculo do sucesso à dedicação.

Por que dissimular a realidade? Parece pairar um espírito preguiçoso em todo exemplar do homo sapiens. Ninguém negará o deleite em algum tempo de ócio, papo pro ar, mas é uma questão de sobrevivência, de manutenção do existir.

Considerar o labor diário como fato facilitará a perspectiva do enfrentamento cotidiano. Com melhor compreensão, com a exclusão de méritos e deméritos, saberemos valorizar e priorizar as constantes demandas vindouras, além da apreciação de seus frutos.

Melhor resolvidos com nossa condição, poderemos discernir adequadamente nossos rumos e prioridades. Seja como for, apenas teremos certeza da inevitabilidade de levantarmos na segunda-feira, após o feriado, e seguir o caminho da roça. Se quisermos continuar...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Miojização

"'Miojização' da vida - uma vida miojo - onde tudo é instantâneo".

Leitura matinal, alerta provocador, li a frase acima em entrevista da revista Showroom, da Assobrav, com o professor Mário Sérgio Cortella.

Alguns chamam de sincronicidade, outros de mera coincidência, mas tenho me deparado inúmeras vezes com as ideias do professor desde que ganhei seu livro "Qual é a tua obra?".

Ou ele está mais presente nas diversas mídias, ou eu passei a prestar mais atenção em seu nome. Seja como for, suas pontuações sempre acabam em reflexão ou inquietação.

Na questão miojo, é duro constatar o quanto "instantaneamos" nossa vida. Elaboramos as mais diversas formas de obter itens básicos do quotidiano com imediatismo assustador.

Comidas de preparo instantâneo são conhecidas de muito tempo. Uma água quente, uma misturada rápida e está pronta para comer. O forno micro-ondas possibilitou que mesmo os alimentos convencionais fossem preparados quase instantaneamente, ou no mínimo a refeição requentada rapidamente, o que dá quase no mesmo.

Máquinas polaroid também já fazem parte da história, mas começaram a linhagem da instantaneidade. Com a fotografia digital, para ser mais instantâneo, só se a imagem fosse apresentada no ar logo após o registro, sem a necessidade de apertar algum botão do equipamento para revê-la.

Para localizar uma pessoa instantaneamente basta ligar para seu celular. Nem adiante dizer que não possui. Tudo mundo tem um. Está lá, a qualquer hora, em qualquer lugar, à disposição de quem quiser encontrar. Normalmente os interlocutores esquecem até de perguntar se a pessoa pode atender. Questão de educação.

Mensagem eletrônicas, o fatídico e-mail, transformaram a comunicação escrita em outro instantâneo. Ninguém mais lembra de alguns dias para uma carta chegar, ou semanas para atravessar continentes. O limite da velocidade é a reação do apertar da tecla enter.

Nem os posts de blogs escaparam da miojização. O Twitter é o macarrãozinho dos registros digitais diários. Poucos caracteres (só 140), poucas ideias e um montão de exibição, para não dar nem tempo de reflexão ou aprofundamento.

Curiosamente todo mundo come miojo, principalmente no aperto, mas sempre reclama. O sabor é aquela tranqueira mesmo, a quantidade é pouca, nem sustenta. Só que as pessoas ainda assim continuam se sujeitando. Alguém vai acabar suspeitando de um componente viciante na sua composição.

Somos estranhos assim. Reclamamos, mas continuamos. Agimos da mesma forma com os outros instantâneos da vida. Deve ser algo na nossa genética, evolutivo. Estaremos fadados a contínua degradação de nosso cotidiano? Espero ter uma vida menos instantânea para ter tempo de descobrir.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

SMS

"Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá..." [1]

Desde tempos imemoráveis, poetas cantam a vida e o mundo em seus versos. Jogam jogo delicioso de palavras e ideias, cutucam recantos de nossa percepção.

Longos ou curtos, ou até atômicos, seus textos exploram as dimensões do papel. Traduzem sua alma nas dimensões físicas impostas pelo meio, pela mídia escolhida.

Expressam seus anseios de acordo com a cultura vigente, ou a transgridem, ousam além de seu tempo e seu lugar. Metamorfose constante e deliciosa do rosto humano.

Evidentemente, a Internet já participa, contribui com essa forma de arte. Seja na simples divulgação, seja na absorção do corpo, na criação de limites e conceitos. Prato cheio para os artistas concretos, a explorar a infinita variedade de materiais existentes no mundo digital.

Mas o inquieto mundo digital é sempre surpreendente. Nos menores bits existentes podem afluir nascentes de refrescante água criativa. Seria de se esperar, em tão prolífero e etéreo campo, sorvedouro do ímpeto expressivo homo sapiens.

SMS é um serviço um tanto em desuso, meio obsoleto frente às pirotécnicas vertentes da mais recente tecnologia. Para que serviria um opçãozinha de troca de textos, simples cadeias de letras, em uma existência cada vez mais visual? Para trocar poesias!

Exatamente isso... Utilizar um "antigo" recurso da telefonia celular para explorar novo formato para cantos à vida, ao amor, à existência. Inusitado a primeira vista, a iniciativa recebeu atenção digna dos instigantes desafios à nossa inventividade.

Batizada pelos ingleses de Mobile Phone Poetry, direta e obviamente, a lista de alguns poemas enviados ao jornal The Guardian demonstra a força da multidão, do surgimento do poeta e poesia em cada representante da nossa espécie.

O "gadget do cotidiano", nossa mais familiar extensão cibernética, permite a expressão do dia-a-dia, do popular, como acontece com a boa poesia. Que maravilhas existiriam se Camões, Fernando Pessoa ou Vinícius de Moraes tivessem acesso a essa oportunidade, em desfrutar desses primores?

quinta-feira, 26 de março de 2009

Torcicolo

Um torcicolo incomoda muita gente...

Hoje fui contemplado com um, inesperado e chato. Situação detestável, ficar com o pescoço travado, movimentos curtos e limitados, sem muitas alternativas ou soluções.

Às vezes acontece quando dormimos de mau jeito, como no sofá, por exemplo. Acordamos com a musculatura toda bagunçada e, dependendo do momento do despertar, com uma tromba de sono enorme.

Tem dias que ocorre naquela bobeada num exercício. Começamos o movimento inadequadamente, ou tentamos superar os limites, e sentimos o pescoço retesar.

Duro também aqueles que são frutos de viagens em posição incômoda. Veículo lotado, malas ou objetos por todo lado e nos ajustamos numa postura desconfortável. Final do percurso e nossa estrutura não aguentou o castigo.

Surpresa quando ele vêm de uma virada repentina do olhar. Para alguns é punição, por ter dado aquela secada no alheio. Para outros é azar, por ter precisado desviar repentinamente, ou prestar atenção em algum problema eminente.

Lembro também dos torcicolos maternos e paternos. Bebê no colo, sendo acalmado, acalentado ou nanado, e mantemos a cabeça para baixo, em constante vigília e preocupação. Com a tensão do momento misturada, travamento na certa. Esse é o dos que menos importam. Tudo pela prole.

Chato é que, mesmo alongando, em qualquer caso, dificilmente ficamos cem por cento na hora. Alivia, relaxa, mas tem que esperar passar. Não tem muito remédio. Estarás limitado por algum tempo! Deve residir aí a chateação: limitação.

Consolo é saber que melhora. Uma boa noite de sono. Poupar um pouco o corpo. Cuidar um pouco mais dos movimentos. Vou ficar quietinho e aguardar. Ajeitarei cadeira ou poltrona para ficar menos sofrível. Quando melhorar, não posso esquecer de lembrar o quanto é bom estar sem ele a me travar.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Barbear

Nunca imaginei me barbear com plateia.

Rotinas da vida pós-natal. Tanto muda, tantas pequenas singularidades. Algumas chamam mais a atenção, talvez sejam mais inusitadas, talvez mais singelas.

O barbear é um ato rotineiro, um tanto solitário, meio obrigação. Você e o espelho, ninguém mais, alguns minutos para alteração da aparência.

Nos últimos tempos, estou lá, em frente ao espelho, espuma no rosto e, ao olhar para o lado, na verdade para o chão, está minha pequena a me contemplar.

Dia de barba e lá vem ela, rapidamente engatinhando e estaciona na porta do banheiro, sentadinha, intrigada com o processo de fazer espuma e esfregar no rosto.

Dirijo-lhe o olhar e recebe um sorrisinho amarelo, desconfiado, meio sem reconhecer o Papai Noel. Até poucos segundos atrás era seu papai, que começou a massagear o rosto e, de repente, surgiu aquela nuvem em volta da sua face.

Raspar a espuma, a barba, também é alvo de atenção. Um acompanhar curioso do exercício, das idas e vindas do aparelho pelas bochechas. Permanece estática, um tanto estátua, mantendo apenas a respiração abdominal profunda, típica das pequenas pessoinhas.

Deve pensar lá em suas pueris reflexões: mas o que ele está fazendo? Ou então, para que precisar de tanto trabalho? Talvez mesmo eu devesse me perguntar... Convenções, convenções, convenções. Tantas são no cotidiano que raramente nos questionamos.

Chego a me lembrar da minha infância. Todas as manhãs, preparação para escola e, entre uma arrumação ou outra, tinha tempo de admirar meu pai se barbeando. Recordação da imagem, da boa sensação da companhia, do prazer de participar do dia-a-dia.

Seja como for, parece que terei companhia por um bom tempo ainda. O ibope do meu barbear está alto e dificilmente a plateia falta. A vida ficou menos solitária. Contemplações me fazem pensar em outras pequenas realidades. Acho que um dia ainda sentirei saudades destes momentos.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Lixo

Longe dos olhos, muito perto do nariz.

É inevitável. Dia de chuva, enxurrada nas ruas e sacos de lixo boiando na água. E lá se vão, a entupir bueiros, espalhar detritos, se fazer notar aos desatentos.

Em tempos antigos, quando vivíamos em tribos, sabíamos muito bem da influência de nossas sobras e restos. Lidar com o lixo era tarefa conhecida desde o berço.

Nas grandes cidades nos descolamos do real. Embalamos nosso refugo, em sacos assépticos e lindos e colocamos na calçada para o lixeiro levar. Pronto. Tudo resolvido!

Alto lá, cara pálida. Essa é a versão do conto de fadas. Infelizmente, a mais presente nas cabecinhas habitantes dos imensos espaços urbanos.

As coisas simplesmente não somem. Levam algum tempo para se degradar, se decompor e, quando possível, retornar ao meio ambiente. Porém, não há natureza que de conta dos enormes volumes produzidos por populações de dezenas de milhões de humanos.

Então tiramos da vista. Mandamos para aterros sanitários, normalmente na periferia da cidade, para, esquecido, um dia se consumir. Relevo artificial criado daquilo que desprezamos, sobramos ou desperdiçamos. Sina incontrolável de processar.

Por vezes, a realidade bate à nossa porta. Vem nos tirar do sono idílico para chamar à luz da responsabilidade. De acordo com reportagem da revista Época, de duas semanas atrás, os lixões (aterros sanitários) de São Paulo estarão totalmente esgotados daqui a dois anos!

É isso mesmo... Vão abrir o bico. Estão no seu limite de armazenamento e precisarão ser fechados. O que fazer então? Alice no país das porcarias prontamente responderá: criamos novos! Tsc, tsc, tsc... E eu pergunto: até quando?

Nem precisamos lembrar da importância da reciclagem. Ou talvez precisemos, sim. Grande parte de nosso lixo em vala comum, indigente, é material nobre, pleno de reaproveitamento. Só que seu potencial fica perdido, sufocado pelo metano dos colegas orgânicos.

Por outro lado, a questão mais premente é o uso consciente. O descarte é apenas o curso final, a consequência do cotidiano. Vemos muito desperdício, consumo excessivo, escolhas erradas, que só culminam nos edifícios (nada edificantes) empilhados de massa pútrida e fétida. Se antes, usarmos adequadamente, comedidamente, quem sabe produzimos menos e descartamos melhor.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Cronômetro

Cronômetro, feitor dos tempos modernos.

Houve uma época em que a medida do tempo era determinada apenas pelos elementos da natureza. Dias e noites marcavam o compasso da vida.

No máximo, conseguíamos acompanhar o movimento do rei dos céus, com seus passos muito bem determinados e conhecidos. Assim comandava os eventos e a vida.

Inventado o relógio, dividimos e controlamos o tempo, de certa forma de um jeito artificial. Escolhemos uma abordagem que nos parecia natural.

Ainda assim, os relógios eram possuídos e controlados por poucos. Grandes igrejas, mosteiros e outros senhores da sociedade daquele momento.

Os relógios menores, como os de bolso, democratizaram o acesso ao tempo. Portáteis, permitiram que acompanhássemos o transcorrer das horas onde quer que estejamos. Passamos a carregar o tempo no bolso.

Mais práticos, os relógios de pulso modernizaram e tornaram prática a visualização das horas. Possibilitaram desenvolver outras atividades, da corrida ao trabalho cotidiano, praticamente grudando os ponteiros em nosso corpo. Viramos mostradores ambulantes.

Controvérsias à parte, a popularização de tal modelo de relógio é atribuída a um grande brasileiro: Santos Dumont. Compreensível a adoção por alguém tão atento às tendências da modernidade e às necessidades das condições de um aviador no exercício da função.

Apesar de todos os benefícios, o desenvolvimento do instrumento permitiu também a dosagem e cobrança do tempo. Na sua versão "recortadora de momentos", o cronômetro fatiou milimetricamente o transcorrer do rio das horas.

Cobrança pelo dispêndio de tempo ou pelas previsões de término de algum trabalho, terminamos escravizados pelo correr das pequenas hastes de metal. Como o antigo feitor dos navios, tambor em punho a ritmar os remadores, o novo senhor ressoa em nosso inconsciente exigindo que acompanhemos seu ritmo.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Básico

Esporadicamente elementos cotidianos se fazem notar.

Inúmeras coisas básicas do nosso cotidiano moderno se escondem em nossa rotina. Terminamos por esquecê-los, nem lembramos que existem.

Almoçava num shopping no dia de hoje. Nada demais, fast-food do mais típico. A única exceção era deixar de enfrentar a lotada praça de alimentação. O restaurante, neste caso, possui um espaço próprio.

Durante a refeição, lá na praça de alimentação, uma das opções resolveu dar uma "animada". O palhaço (literalmente) se pôs em frente à loja (nem preciso dizer qual) e começo a cantar e puxar o coro (duvidosamente animado).

Fiquei a pensar se ele estaria violando alguma regra, no mínimo de bom senso, com suas potentes caixas de som. Para concorrer, um quiosque de panquecas, ao lado do restaurante onde eu estava, começou uma animada saraivada de palmas ritmadas. Alguns decibéis a mais, além dos costumeiros presentes no ambiente.

Terminada a refeição, chamei o garçom para pedir a sobremesa. Mal acabei de fazer o pedido, a energia elétrica de todo shopping acabou. Nem iluminação se salvou. Silêncio total... Um contraste enorme com milésimos de segundos anteriores.

As pessoas ficam com aquele olhar de "mas como?". Suas expressões são de alguém que viu ocorrer o impensável. Um zumzum inicial e todos continuaram sua rotina, com ares de aguardar mais um pouco para o rápido retorno à normalidade.

Demorou um pouco mais... Logo percebi como a temperatura se elevou em pouco tempo. Começava a ficar quente por ali. O ar-condicionado estava desligado. Certamente os exaustores das lojas, pois em pouco tempo se podia ver a fumaceira saindo delas.

Pedi a conta, que graças a um no-break pode ser emitida, assim como o recebimento eletrônico do pagamento. Acredito que por pouco tempo, pois já se passavam uns 20 minutos e haja baterias para sustentar os equipamentos ainda mais.

No caminho da saída, lojas com portas baixadas, vendedores de braços cruzados. Num quiosque de jóias, no meio do corredor, duas moças afobadas em cobrir o quanto antes suas vitrines. Expressões de certo temor em seus rostos. Certamente, nos bastidores, já se sabia das dificuldades do retorno da eletricidade.

Pessoas descendo escadas rolantes por suas próprias pernas, já que aquelas não estavam rolando mais. Um novo sentido foi inaugurado no caminhar das pessoas, a porta de saída. Panorama bem diferente para um sábado à tarde, perto do horário de maior movimento.

Energia elétrica é assim, tão cotidiana que a esquecemos. Quantas outras "essencialidades" também não estão por aí? Água encanada, saneamento básico, telefonia... Sei lá quais outras. Sua falta nos deixa desnorteados, meio a caminho do fim do mundo.

Como ficaríamos se um dia se esgotassem ou se tornassem inviáveis? E se precisássemos recriar toda sua estrutura do nada? Qual seria nossa capacidade de criar alternativas? Ainda bem que são cenários bem remotos... Deixemo-los para a ficção retratar.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Freada

Ahhhhhh! São Paulo em férias!

Passado o período natalino, as loucuras das compras de fim de ano, esse hiato pré-fim-de-ano traz à nossa cidade ares muito diferentes.

Estamos longe de a cidade parar, ela realmente nunca para, mas dá uma bela desacelerada. Transporte público, ruas e avenidas, todas as veias um pouco mornas em movimento.

Chega a ser surreal aportar às sete e pouco da manhã, numa estação de Metrô da linha vermelha (a mais lotada, sem dúvida) e encontrar composições à disposição, sem fila, sem aperto, sem ser os tais "vazios".

Não vou comparar aos cenários de "Ensaio sobre a Cegueira", ou aos apocalípticos "Eu sou a Lenda" e "Resident Evil: Extinção".

Mesmo no fim dos tempos a cidade terá um burburinho considerável, ainda que seja de almas perambulando por céus e recantos de concreto. A intensidade da vida nestas terras tem inércia para alguns milênios, certamente.

Só que nestes dias de final de ano a coisa muda de figura. Levar 30 minutos para chegar ao trabalho, outros 35 para voltar para casa, dá um gostinho de como seria a vida com mais qualidade nestas paragens. Até o ar para mais limpo, menos carregado.

É só curtir a caminhada entre a estação e o prédio da empresa... Os passarinhos estavam especialmente afinados e animados nas árvores. Conseqüentemente até os passos estavam mais preguiçosos. Caminhar no almoço foi puro aperitivo. Trabalhar ganhou um ânimo especial pelo agrado da contemporaneidade.

Haveria algo, ao alcance do poder público, para proporcionar clima semelhante em outros períodos da semana? Quais lições podem ser obtidas das condições ambientais destes mirrados poucos dias? Vale a reflexão, só não vale dar como solução eliminar alguns milhões de habitantes. Melhor ter cuidado com as idéias... :)

sábado, 6 de dezembro de 2008

Feiticeira

Encontramos pequenos feitiços mesmo em bobagens.

A vida está repleta de encantos, de magias menores, para nos intrigar e surpreender. Até onde menos esperamos, podemos ser presenteados com um deles.

Assisti novamente hoje a versão do filme "A Feiticeira", com Nicole Kidman e Will Ferell. Verdade seja dita, um filminho bem básico, beirando a chatice.

Longe, bem longe, da simpatia e charme da feiticeira do seriado clássico, vivida por Elisabeth Montgomery. Com sua singela mexidinha de nariz, remexia completamente a vida do marido.

Pitadas de bom humor no cotidiano dicotômico de uma bruxinha, remetem a muitas das cisões do dia-a-dia de qualquer pessoa, além do comum e intrincado jogo das relações familiares.

Porém, um pequeno detalhe foi surpreendentemente interessante na versão moderna da história. Quando a feiticeira pretende ir embora, diz desconhecer onde fica sua casa, seu lar.

Interpelado por ela, com questão tão etérea, sua resposta foi provocante: "Seu lar é onde você é mais feliz!". Definição das mais buscadas, lembra até as preocupações da Zebra Marty em Madagascar.

Sabemos que um lar não é feito de tijolo e cimento. Também concordamos que lares podem nem ser eternos. Em novos lugares, dentro de novas paredes, produziremos um novo lar. Sensações ligadas a histórias vívidas e vividas, preenchem o espaço material.

Alguém me disse até que o radical da palavra lar está presente em lareira. Se não me engano, até Nietzsche remete a história do fogo acolhedor, em torno do qual nossos ancestrais se ajuntavam. Aconchego, proteção, fraternidade, felicidade!

Pois é, mesmo nas amenidades, nos filmes mais bobinhos, podemos encontramos ganchos de filosofia. Quando menos esperamos, está lá, estampado para quem desejar ver. Manifestação da magia da existência deixando pistas e enigmas em todo lugar.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Batalha

Todos à batalha!

Primeira investida, colunas formadas, mas não me arrisco a avançar. Os oponentes formam fileiras cerradas, dificilmente conseguiria avançar para o outro lado.

Alguns minutos depois, nova oportunidade. Espero o momento certo, encontrar uma brecha na trincheira. Inesperadamente, um companheiro afoito se lança primeiro e consegue entrar.

Volto à leitura. Em breve, poucos instantes, terei outra chance para tentar. Deixo a confusão à minha volta e me entrego à voz interior, a alguma reflexão.

Naqueles curtos instantes para a próxima investida, fico a perguntar o motivo desta rotina, quase diária. Valerá a pena? O que perderemos, além do tempo, enquanto estamos aqui?

O momento se aproxima para novo avanço. Algumas fileiras a minha frente já caíram. Conseguiram transpor as colunas à frente e prosseguiram. Procuro me aprumar, estar posicionado para a melhor atuação.

Dura essa vida de batalha. É preciso certo desprendimento com o outro. A melhor adaptação não é a que preserva o semelhante, mas a que ignora sua condição, mesmo em pequena escala, mesmo por aqueles breves momentos.

Chegado ao ponto do conflito, me acovardo, em parte pelos volumes que carrego. O espaço nas trincheiras é exíguo, mal eu conseguiria ultrapassar, minhas bolsas ficariam para trás, possivelmente presas na porta, a atrapalhar o bom fluxo da contenda.

Tudo bem... Em menos de dois minutos poderei me redimir. Estou em campo a cerca de 10 minutos e minhas chances se extinguem rapidamente. O passar dos minutos avoluma os batalhões. Corro o risco de me atrasar!

Conto com boas condições no momento. Frente da coluna, posicionamento ideal pelos corredores e, no momento do confronto, uma dádiva de espaço considerável para manobra. Com agilidade adquirida nos anos de experiência, adentro as linhas opositoras e me posiciono.

Agora basta suportar a estação Brás e sua horda de invasores. A descida na Sé é quase garantida, apesar de sofrida. Desce quem deseja e quem também não. Dia após dia seguimos essa batalha, no caminho matutino e diário para a labuta.

Um viva a todos os bravos guerreiros da disputa cotidiana!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Calçada

Passarelas do cotidiano, tão pouco lembradas.

Desfilamos nossa vida diária por sobre elas, talvez por isso raramente reparamos em sua existência. A menos que pisemos em algum buraco...

Em São Paulo, é lugar comum (no sentido concreto e figurado) a reclamação das péssimas condições de conservação das calçadas. Buracos, irregularidades, pisos inadequados, conseqüências de conturbada rotina.

Ontem, na volta para casa, reparei na reforma do calçamento nas proximidades da estação do Metrô, mais um benefício da implantação do bicicletário nas imediações do local.

Só então reparei na cobertura antiga, feita daquelas pedrinhas (conhecido como mosaico português), magicamente encaixadas, formando imenso arranjo, quebra-cabeça para poucos. Foram substituídas por bloquinhos de concreto, com desenho bem específico, mas igualmente combinados, apenas de maneira mais fácil.

Notei, principalmente, a imensidão destes elementos empilhados, esperando sua colocação no destino final, para servir aos nossos passos rotineiros. E o sem-número de verdadeiros "mestres" na obra, posicionando um a um para construir esquecido trabalho. De maneira tão extensa e tão rápida.

Em poucos dias, algo entre 2 ou 3, estava tudo disposto, perfeitamente ajustado. Depois de pronto, dificilmente avaliaríamos o grau de destreza para fazê-lo. E eles o fazem, displicentemente, entre um olhar vago e outro, entre uma ou outra cara de mau-humor.

Célebres alguns calçamentos, como o da Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, ganharam um pouco mais de admiração. Pouco fosse o trabalho em concebê-lo, com seu desenho singular e iconográfico, qual não terá sido o esforço em transformá-lo em realidade?

Na Avenida Paulista, a ilustre esquecida foi alvo de acirrada discussão. Sua reforma consumiria alguns milhões de reais. Era necessário tanto dinheiro? Afinal é uma "singela" calçada... Como se fosse, em sua extensão de poucos quilômetros, aprendi que certamente o trabalho é mais pesado e caro do que parece.

Sigo assim, passos mais zelosos e contemplativos. A floresta de calçadas paulistanas oferece safári rico em diversidade. Reformas, melhorias e adequações são extremamente necessárias. Urbanistas e administradores públicos bem o sabem. Batalha epopéica com louros dignos de César para o vencedor.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Cotidiano

Mudanças culturais, cotidiano inéditos.

A evolução tecnologia mexeu com nosso dia-a-dia, comportamento e saúde. Tecnologias em todas as áreas, em todos os ramos do conhecimento, muito avanço. Vida modificada.

Ganhamos novos hábitos, novos ritmos. Padrões de comportamento foram alterados. Tabus derrubados. Igualdades conquistadas.

Alguns ícones de nossa música soarão estranhos para futuras gerações. Como viviam as pessoas naquele tempo de tais composições? Qual era o sentido daquelas idéias?

Sem muito motivo, encasquetei com a célebre música "Cotidiano". Algumas partes numa versão de um mundo digital chegarão em tom de paródia. Uma adaptação à nova realidade. O Chico que me desculpe pelos infames versos, mas não resisti à brincadeira... :)


Cotidiano
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Todo dia ela faz
Tudo sempre igual
Se conecta
Às seis horas da manhã
Faz download do e-mail matinal
E me acorda gritando
Com o spam...

Todo dia ela diz
Que é p'ra eu me cuidar
Eu achava que era
Com malware
Ela estava espiando
Noutro lugar
No Orkut um scrap
de outra mulher...

Todo dia eu só penso
Em poder olhar
Meio-dia seu post
Com paixão
No seu blog eu
Vejo estar
Encaixados pedaços
Do coração...

Seis da tarde
Começa músicas baixar
Ela pega
Sharea comigo então
Diz que está muito louca
Prá dançar
Ouvindo seu iPod
Quinta
geração...

Toda noite ela diz
Pr'eu a ajudar
Meia-noite socorro seu computador
E me enche pr'eu o consertar
E me morde se assim não me dispo
r...

Todo dia ela faz...

domingo, 31 de agosto de 2008

Discernimento

Certas palavras caem em desuso.

Discernimento figura dentre as em vias de extinção. Seja pela falta de vocabulário ou por alguma deficiência ética-moral de tempos atuais.

Há certa força em tentar não discernir. Abordar tudo e todos em um difuso composto, um tanto amorfo, um tanto grudento, de difícil classificação.

Culpa talvez das inúmeras seduções da vida moderna. Em seu favor, fingimos não discernir, para escolher opções mais palatáveis e satisfatórias ao nosso ego.

Tentativa de o indivíduo prevalecer ao comunitário, ao comum, ao público. Terminam todos a se conformar. Não a conformação do consolo, mas da forma, de se moldar ao conjunto. Não devemos nos conformar!

Escolhas feitas, posições tomadas. Atuaremos como pedras de formação, fundações para a sólida construção, edificação do futuro sensato. Ou optamos por exercer a função de pedra de tropeço, entrave ao caminhar desenvolto, em direção à realização plena.

O esforço para sustentar solidamente bons preceitos de humanidade é considerável. Escolher o discernimento, na oratória e na ação, em meio a um mar de sua negação, marca nossa presença, nos diferencia, nos faz alvos.

Alvos podem estar sob a mira, em risco. Ou serão objetivo, meta a alcançar. No mínimo, o exercício de nossa sublime faculdade, o aperfeiçoamento da decisão, tornará alva nossa alma. Límpida na certeza da boa escolha, do melhor a desempenhar.

Impossível garantir o sucesso da empreitada. Conformemo-nos, a vida permanece isenta de garantias. Única via possível é a formação do juízo, pautada na excelência do bem humano, selada com a amálgama do amor, expressão jamais em desuso.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Filósofo

A filosofia vai onde o povo está!

De todos os lugares, quer melhor lugar do que um cemitério? Confrontar o destino final de todos, de vez em quando, supre nossos estímulos à reflexão.

Imaginem o confronto diário, então... É o caso do coveiro Osmayr, no Cemitério do Araçá. Adivinhem qual sua formação... Bacharel em Filosofia, pela Universidade Mackenzie.

Entre as minhas atualizações de leitura, do acúmulo pelo período de férias e pós-natal, encontrei a matéria sobre o inusitado personagem na revista Época São Paulo, do mês de julho.

Escolha acadêmica oportuna. Louvável seu esforço em procurar formação. Feliz a escolha, mesmo sem abandonar a profissão anterior. Aliás, abandoná-la para que? Provocaria a perda irreparável de material de estudo.

Cotidianamente ele é compelido a observar a natureza humana em seus momentos mais difíceis. Quem sabe por isso possa se tornar mais insensível. Talvez isso o transformou num cético, feito o alemão Kant, como ele mesmo afirma.

Ciente de sua condição, aprimorada por seus exercícios, revela notável profissionalismo em sua atuação. Em suas próprias palavras, "não pode estar tão presente de modo que a atenção se volte para ele. Também não posso se mostrar tão ausente de modo que não se perceba o que está fazendo. Pois o ato de sepultar, no Ocidente, é um ato importante, é um ato de misericórdia. Como diz a Bíblia, é necessário devolver o corpo ao Senhor".

Humano, não deixa de citar Machado de Assis para confirmar a opinião popular: "basta morrer para ficar bonzinho". Mais humano ainda, confessa a emoção do dia em que uma criança lhe pediu de volta o pai a ser sepultado. As lágrimas da pequena molharam as costas de sua camisa e encharcaram de comiseração sua alma. Chorou alto naquele dia.

Caldo da cultura de uma metrópole, o coveiro filósofo expressa e convive com as angústias mundanas. Conduz corpos ao sepulcro e almas ao reino do pensamento. Manipula o concreto e o imaterial no mesmo instante. Produz o movimento no manto do fluxo etéreo da existência. Ah, dona filosofia...

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Férias

Nada com um bom mês de férias!

Assim espero... Faz tanto tempo tirei a última, coisa de uns 20 anos atrás. Fique bem claro, estou me referindo a férias CLT, com todos os direitos e sossegos, para não pensar em mais nada e descansar...

Férias já tem na sua origem essa aura sagrada. Em sua etimologia tem motivação religiosa. Por que não preservá-la, não é?

Um período sabático é essencial para recolocar as coisas no lugar, ou em outros melhores. É momento de parar e reavaliar, deixar assentar o último período passado. Por isso deve ser periódica, com intervalos não tão longos como o meu último, senão o volume fica muito grande para reorganização. Muita coisa para só um mês.

Tudo bem que estas minhas não serão dedicadas a viagens, cursos ou expedições computacionais. A ordem é um só neste período: puericultura. Será um delicioso mês de aprendizado e curtição, sem contar a babação.

Essa história de cuidado com bebês poderia até ser rebatizada, por exemplo, de "biocultura". Cultivamos vidas quando cuidamos dos pequeninos. Depois de plantá-la é hora de se preocupar em mantê-la. E bem mantida!

Outra boa alternativa é chamá-la de "animacultura". Desde dos primeiros dias estamos cultivando uma alma. Percebemos seu temperamento, suas vontades, descobrimos uma pessoinha, com anseios e gostos, mesmo pequenina. Nossa resposta, nosso comportamento, poderão ser decisivos no seu jeito de ser.

Ter todo tempo do mundo, nesta fase inicial, é realizante. Contar com essa disponibilidade nos dá oportunidade de adaptação, de dar vazão ao imenso sentimento de dedicação. Sem falar, é claro, nas ótimas condições de descanso. E como é preciso para acompanhar seu ritmo...

Estou só no primeiro dia. As reorganizações serão constantes, mas indubitavelmente para melhor. Mês transformador, as descobertas ocorrem a cada segundo. Experiência única. Jamais será esquecida!

terça-feira, 15 de abril de 2008

Auto

Culpado é o Ford!

Ao inventar o automóvel, disparou um modo de vida autônomo e individual. A possibilidade de se automover amplia capacidades e horizontes do indivíduo, sem vínculo direto e óbvio com um grupo.

É uma ilusão, é claro, mas carece de percepção.

Autonomia não é tudo. Seu método produtivo implica em especialização e produção em massa. São mais dois ingredientes da questionável vida moderna.

Reforçamos as características do "eu". Apesar de roupas serem feitas em grandes lotes, a satisfação, ou pseudo-exclusividade, é prometida a cada um. Ninguém vende produtos por serem mais adequados para todos. O desejo é seu.

As propriedades autônomas foram multiplicadas. O telefone é celular e pessoal. O computador é pessoal. Os tocadores de música são pessoais. Tudo para si só. Compartilhamos com o outro, mas para que ouça no dele!

Maravilha das maravilhas, autonomia total obtemos com o iPhone. Ele e seus similares congregam todas as soluções, unicamente, pessoalmente e móvel. Poderiam ser considerados novos "automóveis"?

Depois do carro (automóvel) ficamos um tanto acanhados de continuar com o prefixo 'auto'. É muito evidente a noção de autonomia, 'independência'. Nesse caso podemos culpar D. Pedro I, com sua máxima de "Independência ou Morte". É uma escolha muito radical...

Amenizar, nós amenizamos, mas a vontade arraigada do individualismo vai nos consumindo, minando as forças, a resistência. Reflexos vemos por toda parte. Reflexos da vontade e de nós mesmos? Segregar a vontade do indivíduo significa apenas arranjar mais um culpado.

E alguns "autos" vão se ajuntando... Preocupação com a auto-estima, atenção a autocrítica, cobrança da auto-regulamentação. Se a independência fosse tão simples, haveria menos autoridades. Quem sabe é necessária autorização para falar sobre.

Autonomia completa esbarra em liberdade. Ou no seu significado. Ou nos seus limites. Frustrações decorrentes do eterno embate humano, do "um" e do "muitos". Será esse o tal "pecado original"?

Entre altos e baixos, de esperança e derrotismo, devemos desejar ao menos não transformar autônomos em autômatos!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Concórdia

Caminhos diversos nos levam por caminhos esquecidos.

Em um dia de problemas no Metrô, numa não tão sábia decisão de voltar a pé para casa, atravessei um lugar de São Paulo há muito por mim não visitado: o Largo da Concórdia.

Revitalizado com sua retomada visual de praça, ele foi um novidade desconhecida para mim. Minhas lembranças do local ainda remetiam aos tempos de muitas barraquinhas de camelôs, com bastante confusão e correria.

O pessoal apinhado nos pontos de ônibus, e nos próprios coletivos, não mudou nada. No final da tarde, a região é uma 'ferveção', um burburinho gigantesco de pessoas na volta para casa, após um dia cotidiano de trabalho.

Desaceleração é a sensação pairando no ar. Até alguns minutos todo mundo estava afiado nas vendas, disputando seus clientes. Com o pôr-do-sol, ocorre uma sinfonia de portas de metal baixando, despedida de colegas de trabalho e a bebericação em diversos botecos, para uma happy hour.

Chamou-me a atenção mais ainda o nome do local: Concórdia. Tantas vezes o escutei, mas sem nunca ouvir. Concórdia, segundo o 'pai dos inteligentes', é um estado de harmonia, entendimento, concordância. Tudo bem que historicamente o local foi batizado para homenagear a guerra do Paraguai, mas isso é só um detalhe de pesquisa.

O local é símbolo dessa concordância. Representa essa mistura acolhida por São Paulo, de povos e culturas: nordestinos, libaneses, coreanos, judeus e outros tantos povos. Mistura de braços a mover uma cidade feita de gente.

São Paulo é esse sincretismo concordante. Essa mistura é o segredo de tanta energia. A energia é a razão do amor paulistano por essa megalópole retumbante!