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terça-feira, 4 de novembro de 2008

Batalha

Todos à batalha!

Primeira investida, colunas formadas, mas não me arrisco a avançar. Os oponentes formam fileiras cerradas, dificilmente conseguiria avançar para o outro lado.

Alguns minutos depois, nova oportunidade. Espero o momento certo, encontrar uma brecha na trincheira. Inesperadamente, um companheiro afoito se lança primeiro e consegue entrar.

Volto à leitura. Em breve, poucos instantes, terei outra chance para tentar. Deixo a confusão à minha volta e me entrego à voz interior, a alguma reflexão.

Naqueles curtos instantes para a próxima investida, fico a perguntar o motivo desta rotina, quase diária. Valerá a pena? O que perderemos, além do tempo, enquanto estamos aqui?

O momento se aproxima para novo avanço. Algumas fileiras a minha frente já caíram. Conseguiram transpor as colunas à frente e prosseguiram. Procuro me aprumar, estar posicionado para a melhor atuação.

Dura essa vida de batalha. É preciso certo desprendimento com o outro. A melhor adaptação não é a que preserva o semelhante, mas a que ignora sua condição, mesmo em pequena escala, mesmo por aqueles breves momentos.

Chegado ao ponto do conflito, me acovardo, em parte pelos volumes que carrego. O espaço nas trincheiras é exíguo, mal eu conseguiria ultrapassar, minhas bolsas ficariam para trás, possivelmente presas na porta, a atrapalhar o bom fluxo da contenda.

Tudo bem... Em menos de dois minutos poderei me redimir. Estou em campo a cerca de 10 minutos e minhas chances se extinguem rapidamente. O passar dos minutos avoluma os batalhões. Corro o risco de me atrasar!

Conto com boas condições no momento. Frente da coluna, posicionamento ideal pelos corredores e, no momento do confronto, uma dádiva de espaço considerável para manobra. Com agilidade adquirida nos anos de experiência, adentro as linhas opositoras e me posiciono.

Agora basta suportar a estação Brás e sua horda de invasores. A descida na é quase garantida, apesar de sofrida. Desce quem deseja e quem também não. Dia após dia seguimos essa batalha, no caminho matutino e diário para a labuta.

Um viva a todos os bravos guerreiros da disputa cotidiana!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Bicicleta

Belas e velhas magrelas, por onde andarão elas?

No caótico trânsito de São Paulo é incomum observarmos algum ciclista ousado em transporte. Salvo algum atleta corajoso, ou sem outra opção para treinar...

De brinquedo a transporte peculiar, sempre esteve presente em nosso meio. Quem nunca deu uma volta, mesmo naquela emprestada de um amigo?

Há lugares no mundo que se transformou em meio de locomoção primordial. Grande parte da população, sem maiores condições financeiras, transporta a vida em cima de suas duas rodas.

É bem comum em cidades do interior de São Paulo, ou no litoral paulista, encontrar uma considerável frota ocupando seu devido espaço. Muitos municípios destinam a devida atenção, se preocupando com a construção de ciclovias, fiscalização e educação dos motoristas.

Mais do que permitir "furar" o trânsito, ela proporciona outra relação com o caminho, com a rua, com o asfalto. Mais contemplativa, mais participativa, diria até com muito mais qualidade, nessa combinação perfeitamente integrada de homem e máquina.

As distâncias paulistanas são um tanto maiores, provavelmente dificultam seu uso para os longos trajetos que muitos de nós precisamos percorrer até o trabalho. Afinal, é meio difícil ter de chegar de paletó e suado, depois de mais de uma hora de pedaladas.

Já faz um bom tempo, utilizo minha companheira para trajetos no meu bairro, na ida a academia, por exemplo. Curto a paisagem, aprecio o vento no rosto e, de quebra, chego aquecido para treinar. De repente, poderia voltar para casa, afinal já me exercitei, não?

Nos últimos tempos, o Metrô tem colaborado para a retomada desse saudável companheirismo. Em determinados horários do final de semana, as magrelas são bem-vindas nos vagões, para ajudar a encurtar alguns espaços e dar um carona às nossas possantes.

Em parceria com a Porto Seguro, mês passado foram inaugurados os Bicicletários, nas dependências de algumas estações pela cidade. Lá podemos alugar uma bicicleta, facilmente, bastando apenas ter um cartão de crédito à mão, para facilitar o depósito em caução.

Dificilmente seremos uma Xangai no futuro, com sua folclórica profusão em duas rodas. Nem talvez haverá uma disputa aguerrida pela locação promovida pelo Metrô. Espero apenas que seja o suficiente para a iniciativa continuar. Uma forma mais humana e saudável de passear pela cidade.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Metrópole

Triste constatação, a metrópole embrutece as pessoas.

Utilizar cotidianamente o Metrô nos expõe e nos permite, penosamente, constatar terrível sina. Momentos e minutos impossíveis de negar à reflexão.

O empurrar sem cerimônia, sem a mínima preocupação, com violência, demonstra a dimensão que o comportamento toma. Embrutecidas e insensíveis, elas não vêem o outro.

Hoje, na estação Sé, presenciei uma moça ser derrubada, na descida da pessoas na plataforma. Sem dó, nem piedade, sem ao menos a atenção ou a desculpa.

Impressiona também a quantidade de pessoas falando sozinhas. Muitas vezes, mais do que falando, discutindo, reclamando. Nem há nem condição de supor um amigo imaginário.

Vociferam ao vento, impotentes frente à massa. Quem sabe protestam a Deus, procuram sua "re-humanização", parecem gritar por sua reintegração, física e espiritual.

Rostos vazios, caminhando a esmo. Perfazem o mesmo caminho todos os dias, mas não têm destino. Zumbis mecanizados de uma estrutura gigantesca, massificadora, impassível e cruel. Exercita seu poder para subjugá-las continuamente.

No caos da turbulência urbana, as pessoas esquecem a identidade das outras. Enxergam apenas personagens de um grande teatro fictício. Certa vez, em pleno viaduto Santa Ifigênia, uma pessoa se jogou a poucos metros de onde eu passava.

Uma multidão instantânea se formou e correu, não para socorrê-la ou salvá-la, ato claramente inútil frente à inevitabilidade das conseqüências, mas para assistir e saber mais detalhes da tragédia. Circo de horror em pleno local público.

Responsável pelo serviço e manutenção da ordem, o Metrô pouco colabora com os novos motes de campanha. O usuário esgotado se vê refém incapaz de reação. Tantos sinais em alguns poucos pontos da grande cidade. O que pensar de seu todo...

Pensamento maior, mais importante, é a lembrança de que a pólis, muito além de cimento e areia, é construída de pessoas!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Risco

Um risco nem sempre se concretiza.

No mundo da probabilidade, mesmo as mais altas podem não ocorrer. Nem por isso iremos negligenciá-las. Antes, muito antes, devemos observá-las...

Houve o tempo em que a conduta do Metrô, na geração do ambiente para os usuários, era uma política comportamental admirável. Aliás, grande parte continua sendo.

É indiscutível a manutenção dos trens e plataformas. Sua limpeza e conservação impedem, ou ao menos coíbem, a maioria das incidências de mau uso. Jogar papel em um chão limpo se torna mais constrangedor.

Mensagem anunciadas, em alto e bom som, sobre a segurança e limpeza, sempre tiverem o tom de instruir, ensinar. Educavam e buscavam a colaboração, item essencial em um meio com milhares e milhares de pessoas diariamente.

A implantação dos bancos de cor diferenciada (cinza), para pessoas com necessidades especiais, apesar de amplamente difundida, mesmo em outros meios de transporte, contorna paliativamente o problema. Contribui muito pouco para a educação das pessoas. Se fôssemos educados, a medida seria desnecessária.

Passamos então a adoção dos vagões especiais. Controlados por uma barreira de seguranças, as mesmas pessoas com direitos a tratamento especial, são segregadas, apartadas. Resta à barbárie ser barrada.

Seguem-se os anúncios do tipo "Carregue seu pertences à sua frente, para evitar furtos". Confissão irrestrita da capacidade de controlar a turba em horários de pico. Ainda achamos compreensível, pois "entendemos" a dimensão da violência urbana.

As mochilas passaram a atrapalhar, então o pedido passou a ser para carregá-las na mão, afim de não incomodar as outras pessoas. Precisava avisar? Também solicitações constantes para não permanecer na porta, pois atrapalha a entrada e saída de pessoas.

Nos últimos tempos, as escolhas vão de mal a pior. O lema da campanha é "Quem fica na porta atrapalha a vida dos outros". Dia desses, o trem demorou um pouco a sair e o controlador correu a anunciar: "Informamos que o atraso na partida é decorrente de usuário na porta.".

Instigar a contraposição de usuários, gerar o conflito em meio à multidão, sugere uma atitude de risco. Ao invés de educar, deixe-os a própria sorte. Resolvam entre si seus problemas. Escolham suas armas e ao combate! Cada um que defenda suas prioridades.

Contenda armada, resultado desconhecido. Mais cômodo esquecer a educação e a prevenção. Escolhas equivocadas incorrem em risco não calculados. Podem estar sendo riscadas opções e soluções mais inteligentes definitivamente.