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sexta-feira, 20 de março de 2009

Barbear

Nunca imaginei me barbear com plateia.

Rotinas da vida pós-natal. Tanto muda, tantas pequenas singularidades. Algumas chamam mais a atenção, talvez sejam mais inusitadas, talvez mais singelas.

O barbear é um ato rotineiro, um tanto solitário, meio obrigação. Você e o espelho, ninguém mais, alguns minutos para alteração da aparência.

Nos últimos tempos, estou lá, em frente ao espelho, espuma no rosto e, ao olhar para o lado, na verdade para o chão, está minha pequena a me contemplar.

Dia de barba e lá vem ela, rapidamente engatinhando e estaciona na porta do banheiro, sentadinha, intrigada com o processo de fazer espuma e esfregar no rosto.

Dirijo-lhe o olhar e recebe um sorrisinho amarelo, desconfiado, meio sem reconhecer o Papai Noel. Até poucos segundos atrás era seu papai, que começou a massagear o rosto e, de repente, surgiu aquela nuvem em volta da sua face.

Raspar a espuma, a barba, também é alvo de atenção. Um acompanhar curioso do exercício, das idas e vindas do aparelho pelas bochechas. Permanece estática, um tanto estátua, mantendo apenas a respiração abdominal profunda, típica das pequenas pessoinhas.

Deve pensar lá em suas pueris reflexões: mas o que ele está fazendo? Ou então, para que precisar de tanto trabalho? Talvez mesmo eu devesse me perguntar... Convenções, convenções, convenções. Tantas são no cotidiano que raramente nos questionamos.

Chego a me lembrar da minha infância. Todas as manhãs, preparação para escola e, entre uma arrumação ou outra, tinha tempo de admirar meu pai se barbeando. Recordação da imagem, da boa sensação da companhia, do prazer de participar do dia-a-dia.

Seja como for, parece que terei companhia por um bom tempo ainda. O ibope do meu barbear está alto e dificilmente a plateia falta. A vida ficou menos solitária. Contemplações me fazem pensar em outras pequenas realidades. Acho que um dia ainda sentirei saudades destes momentos.

sábado, 30 de agosto de 2008

Descoberta

Anseio humano, descobrir indefinidamente...

Bichos curiosos, insistimos perenemente em entender o mundo, revelar como funciona, quais mecanismos movem a natureza.

Vai longe o tempo das grandes navegações e a descoberta dos novos mundos, mundos tão próximos, mas tão distantes até então, principalmente da imaginação da maioria.

Dos mares ao universo! Ainda em sonho, pelo menos em nossa tecnologia contemporânea. Entregamos a cargo da ficção científica a realização da façanha... E dá-lhe assistir temporadas e temporadas de Star Trek.

Surpreendente constatar que tamanho fascínio começa com pequenas coisas, extremamente cotidianas e pessoais. Mais ainda, se inicia conosco em "auto ato".

Após nossa chegada a nova realidade, descobrimos um novo mundo de sensações, estranho, seco, frio e áspero. Acostumamo-nos e, a cada novo acostumar, seguimos em busca de acontecimentos inéditos.

Nos últimos tempos, fico maravilhado com a descoberta das mãos. Pois é, minha pequena maravilha descobriu possuir um par, com cinco dedinhos.

E como divertem suas duas novas amigas. Falta coordenação plena para levar ao lugar preferido de experimentação, a boca. As duas seguem por muitos caminhos, de testas e olhos, até conseguirem pousar em seu destino final.

Porém, a jornada nunca acontece sem antes um delicioso momento de contemplação. Ela parece reparar dedicadamente em cada dedinho, em cada linha de suas palmas. Olha compenetradamente, procurando compreender.

Compreensão daquela natureza. Serão minhas? Como as uso? Que gosto têm? Mexem sozinhas? Como estão conectadas? Com elas posso experimentar outras coisas? E o tempo passa, suave, contemplativo e muito, mas muito babado!

Dia após dia continua o aprendizado. Perceptível na mudança do olhar. Olhar a falar mais do que muitas palavras. Resta descobrir quem mais aprende, filha ou pai. Mas o tempo é longo, há muito dele ainda. Muito ainda a aprender...

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Leite

Somos mamíferos, queremos leite!

Oh verdade incontestável, sabida desde a mais tenra idade. Alguém gostaria de discutir o assunto, ou controverter, algum bebezinho recém-chegado?

Cotidiano alimento, são poucos aqueles que nunca provaram ou desgostam. Salvo as pessoas alérgicas as suas proteínas, não gostar deste néctar branco é um contra-senso.

Em garrafa, na caixinha, no saquinho, seja como for, todos são bem-vindos, mas é inigualável sua apresentação no seio materno. O calor misturado ao amor tem sabor inesquecível.

Como já perceberam, é muito difícil para mim, em tempos pós-natais, fugir dos temas maternais ou paternais, como queiram. As duas opções são abundantes. No quesito leite, observar o desejoso deleite da criança, em suas mamadas horárias, ofusca qualquer outra reflexão.

A parte técnica do assunto é bem divulgada e popular. Unanimidade mundial, a OMS possui vasto material para apoiar o aleitamento materno. Muitas outras fontes fornecem embasamento para sua defesa, mas nada como a observação in loco.

Alguém já pensou em quantas posições é possível a mamada? Tradicional, invertida, deitada, os manuais as descrevem com grande nível de detalhes. O problema é fazê-lo. Misto de sorte, predisposição e preparo, um bebê conseguir "pegar" bem e corretamente é motivo de grande expectativa.

Fabricar então... Parece obra de engenharia divina. E não é? Sem seguir cartilha, tudo começa com o colostro, necessário e único. Creme "ambrosiáco" responsável por grandes diferenças na saúde de uma vida inteira. Dá pra imaginar?

Segue-se a mudança para o leite propriamente dito, transição de um desnatado até um gordo e encorpado produto lácteo. Mistura guardada secretamente a sete chaves, supomos apenas o ingrediente principal: amor materno.

Amor intenso e vívido. Sopro contínuo de mais vida, depois da germinal. Abundante em dimensões possivelmente comparáveis apenas às da Via Láctea. A história de leite e sermos poeira de estrelas parecem ter mais congruências...

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Choro

Existe expressão mais verdadeira do que o choro?

Experiências novas, novo entendimento. Chorar pode representar múltiplos sentimentos, compreensíveis na maioria das vezes. Só na maioria...

Ver uma adulto chorar, dentro de seu contexto, nos dá uma pista dos motivos. Choramos de alegria. Choramos de tristeza. Choramos até mesmo sem saber por quê.

Uma torrente de emoção comumente deságua em lágrimas abundantes de nossos olhos. Em certas intensidades, até nos parece serem pequenas nossas vias para dar vazão.

Já um recém-nascido é uma aura de mistério em seu choro. Suas expressões não podem ser pistas do motivo. Seu contexto é simples demais para grandes interpretações.

Chora por ser uma das suas poucas formas de expressão. Com poucos dias de vida arrisco dizer que não há outra. Sorrisos só depois, com novos aprendizados, novos entendimentos, nova comunicação.

Porém, nossa experiência nos leva a procurar um motivo. É instintivo. Completamente humano. Acabamos completa e totalmente condoídos. Gostaríamos de um toque divino, um poder sobre humano, que ao simples toque eliminação toda causa. Conhecendo a história do rei Midas, melhor não arriscar.

Ainda bem que somos adaptáveis. O insistente som, continuamente evocado pelos primeiros dias, nos crava alguma "vacina" contra sua intensidade e tom. Ganhamos calma para agir, para procurar uma forma de acalanto.

Glória maior de todas: encontrar uma chave. Transformar a estridente falta de fôlego em um pequeno ronronar de satisfação. Ronronar da paz, da calma, do seu próprio sossego. Nosso desassossego continua. E se na próxima vez a técnica não funcionar?

Melhor nem pensar... Confiemos no instinto futuro. Exercício perfeito de aproveitamento do presente. Suspirar e se deixar babar pela pequena face, em profundo relaxamento, pousada nas mãos da fada do sono!

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Primeira

A história de primeira noite de um homem precisa ser revista.

Proponho considerar a primeira noite apenas a primeira noite com uma nova criança na família. A primogênita ou primogênito. Serão assim pais de primeira viagem.

Entre tantas primeiras (viagens, maternidades, paternidades...) a experiência de aprender, sem contestações, como cuidar do sono de um bebê recém-nascido é a melhor de todos.

Nos escuro da noite, no silêncio da madrugada, só os pais e sua nova cria, muitos choros e resmungos preenchem a nova experiência.

Regra básica passada como padrão: choro é fome, incômodo ou sujeira. Antes fosse fácil assim identificar qual deles é o causador! Observar ajuda, mas não é rápido. Calma é extremamente necessária e, aos poucos, vai nos dando idéias do que fazer.

Nosso sono próprio já ficou esquecido. Preocupa mais o descanso e a saúde da vidinha. Estará mesmo bem? Faltará alguma coisa? Que mais poderei fazer? Como posso me explicar? A vantagem em uma maternidade é o batalhão de enfermeiras.

Vantagens feitas, às vezes, desvantagens. Quantos e quantos momentos de começo do descanso foram quebrados, interrompidos, por uma entrada para remédio, limpeza, apresentação e outra tanta série de rotinas hospitalares.

De qualquer forma, é uma segurança a mais. Nem quero pensar como seria no passado, ou numa aldeia, ou em qualquer lugar mais solitário...

Paulatinamente vamos nos ajustando. Uma mãozinha na boca às vezes é um santo remédio, na falta da chupeta. Um carinho paterno então, nem se fala. O cheiro da mãe é quase anestésico. Nessa coleção de descobertas, a melhor é descobrir com é doce e suave o sono daquela criança.

domingo, 4 de maio de 2008

Chá

Chá de bebê é um grande e antiga tradição.

Esqueçamos qualquer interesse comercial, atualmente explorado por lojas de produtos relacionados. É muito mais importante a confraternização e o encontro.

Com diversas denominações, chá de cegonha, chá de berço ou chá de bebê, o assunto tem até site exclusivo. Neste domingo foi nossa vez de receber o evento.

Em verdade, foi a vez da futura mamãe... Fizemos questão de seguir a etiqueta do clube da Luluzinha: só entraram as meninas.

Do meu recolhimento residencial só recebia as notícias dos acontecimentos no salão de festas. Acabei também recebendo o clube do Bolinha. Maridos, filhos e irmãos, em função de chofer e guarda-costas do dia.

Iniciativa de um grupo de amigas, podemos encarar sua reunião com um grande momento Mazel Tov! O período pré-natalino se revela continuamente cheio de bons augúrios.

Acolhimento da nova chegada, a reunião remete a antigos ritos tribais. Exatamente como aqueles vistos em documentários... Cerimônia de passagem e iniciação, a comunidade unida celebra o momento e apóia seus membros nos mais diversos momentos de sua vida.

Transborda no ambiente uma aura de fraternidade. A amizade, a união ali demonstrada enternece e comove. Momento de verdadeira catarse, a expectativa pela chegada do bebê é expressa no sem-número de abraços, desejos e choros.

Mais bacana ainda, à luz da ciência moderna, saber que a pequena vida eminente também está participando, vivenciando tantas emoções e se descobrindo querida. Memórias desse tipo forjaram estruturas eternas em seu ser, compostas do aço sólido da ternura humana.

Qualquer agradecimento verbal, por tamanho presente, está muito aquém da dimensão de nosso sentimento. De todos os presentes, a energia do calor humano, da presneça de amigos, é o mais precioso dom recebido.

A todas as amigas, e seus respectivos componentes das "equipes de apoio", o mais sincero obrigado. Nós e nossa pequena vindoura somos eternamente gratos.