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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Olhar

Engana-se quem pensa que a atualmente cotidiana chuva paulistana nada traz de bom...

Dentro do Metrô, aguardo pacientemente o torrencial e impaciente aguaceiro que despenca dos céus. Leio um pouco, penso um pouco e resolvo escrever.

Nada de iPad ou netbook. Caneta e papel nas mãos (ainda bem que sempre os levo na mala) e um dedo de motivação provocada pelo olhar de uma criança que passa.

Parado em frente às escadas de entrada, observo uma pequena chegando acompanhada da mãe, olhar assustado pelo tumulto climático. Pessoas pra lá e pra cá, um frenesi encharcado pelos desequilíbrios da mãe natureza.

Passa, me olha e me fita, como só uma alma infantil sabe fazê-lo. "O que fará aquele 'moço' com instrumentos arcaicos na mão, em meio a essa confusão?". "Decifrarei-te se não me devoras!", parece dizer através da doce inocência de suas pupilas.

Por que crescemos e perdemos essa espontaneidade no olhar? Como adquirimos a tal vergonha, ou regra social, da indelicadeza de encarar alguém, daquele jeito desinibido, olho no olho como se o mundo se congelasse no momento da conexão de horizontes?

Frequentemente me pego assim, distraído, absorto, a encarar algo ou alguém acontecendo. Minha atenção é desviada por algum motivo e, quando me dou conta, meu foco está direcionado, sem tempo ou espaço, apenas percepção.

Familiares e amigos brincam ou brigam muitas vezes com esse meu jeito, motivo pelo qual aprendei a me policiar. Porém, hoje novamente fui levado a refletir qual o problema.

Quais convenções tornam desagradável o ato de olhar diretamente, sem barreiras, sem pedir permissão, apenas fitar para aprender, entender e, de certa forma, passivamente participar. Absorver a realidade.

Desejamos ocular algo? Tentamos com isso proibir a leitura de nosso livro pessoal? Talvez não o sejamos tão abertos, apesar de acreditar que o devamos ser. De repente, em meio a nossas páginas, sobre alguma erro gráfico, frase mal escrita, linha mal contada.

Humanos que somos aprendemos a olhar. Deveríamos prezar e preservar a sabedoria pura e pueril de sorver a existência pelas janelas de nossa alma. Exercitar o dom de perceber atentamente, pontualmente, o mundo a transcorrrer em frente a nós.

Acaso mantivéssemos a prática, seria muito mais fácil enxergar o outro, enxergar no outro nossa semelhança, sua dignidade e nos respeitarmos. Humanos demasiadamente e irremediavelmente humanos.

domingo, 26 de abril de 2009

Etnocentrismo

Humanos que somos, centramo-nos no próprio umbigo.

Desde a infância criamos a impressão do mundo girar ao nosso redor. Crescemos, mas não perdemos esse hábito. Projetamos as visões à partir de própria experiência.

Os motivos variam: gênero, raça, religião, nacionalidade. Mesmo que sejamos minoria, lá no fundo, nos meandros do inconsciente, sentimos como se todo o resto do mundo fosse semelhante a nós.

Exercitamos nossa perspectiva até com a natureza. Em meio à vida existente nos consideramos escolhidos, eleitos filhos divinos do criador.

Discriminação do diferente. Estranheza para confirmar o estranho. Melhor exemplo são as manifestações do dia de hoje, com a ocorrência da partida de decisão da final do campeonato paulista.

Discussões e preferências à parte, que não devem jamais ser discutidas, os gritos ouvidos pelo quarteirão, em meio à torcida por esta ou aquela equipe, denotam claramente o sentimento de intolerância. Neste quesito prefiro continuar ateu, não professar desta fé.

Há quem atribua o etnocentrismo à questões culturais. De repente, pode ter relação com a educação, com a criação, origens familiares... Históricos de um povo, segregações sofridas, disputas territoriais poderiam ter influído na formação de nosso comportamento?

Sentir-se o centro do mundo tem cara de ser mais genético... Através da história, independentemente de qualquer dos fatores mencionados, observamos relatos da recorrência deste comportamento tão humano. Justamente nossa espécie, tão maravilhosamente diversa.

Apesar de tantas diferenças, de tanto conflito gerado por esse instinto, ainda continuamos dando certo. Até quando? A humanidade faz um esforço enorme, há milênios, para tentar diminuir esse sentimento. Missão árdua, pois mude o que mudar, continuaremos humanos, demasiadamente humanos.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Unificação

Odisséia humana infindável, carecemos de unificação.

A ciência busca há muito tempo uma "Teoria da Grande Unificação". Representação máxima do universo conhecido, seria de pouca utilidade para nossa necessidade imaterial.

Dicotômicos que somos, começamos por precisar a nos unificar. Conciliar os distintos ímpetos naturais e racionais, dissonantes em sua maioria, mas irritantemente presentes.

Outra carência é de nos unificarmos, como grande corpo da multidão de iguais, em natureza. Aceitação da inutilidade dos esforços contrários entre semelhantes.

Em menor escala, a mitologia grega já discorria da separação das pessoas. Mito voltado à união de duas pessoas, seres poderosos foram separados em dois, por enfrentar os deuses, ou pelo menos lhes oferecer risco. Passam a eternidade buscando sua metade, tentando se recompor.

Por fim, necessitamos da reconexão com o divino, com a espiritualidade e com o universo. Só assim reconheceremos a unidade, a familiaridade a nos levar para o respeito à vida, à existência. Integraremo-nos ao fluxo contínuo da criação.

Daí se explica religião, religar, um grande movimento pela reunificação. Só devemos estender nosso entendimento para além do divino, ou talvez entender o divino como algo extremamente cotidiano, próprio de cada um.

No filme "The Matrix", a remoção de determinados indivíduos da tal Matrix parece cisão, isolamento, desconexão. Desconectados estavam enquanto isolados em seus casulos de produção de energia, enquanto simples unidade de baterias alcalinas descartáveis.

Removidos da condição de isolamento, forma reintegrados a situação de consciência, unificados ao livre-arbítrio, "condenados" a desejar a unificação de todos. Cientes da força de união, não pouparemos esforços em criar um grande ser universal, feito de todos nós, aglutinados em um imenso encontro de amor e fraternidade.

domingo, 9 de março de 2008

Lázaros

Lázaros existem em nosso mundo aos montes.

Irmãos derrubados pela doença da marginalização. Marginalizados pelos outros, seja por diferença de classe econômica ou raça.

Sua doença os leva a morte, morte da vida humana. Estão vivos em carne, mas mortos-vivos em espírito humano. Desfigurados pela doença da discriminação.

Mortos assim são considerados sem futuro. Mortos assim são enterrados, para serem esquecidos. Mortos assim são distanciados de nossos olhos, para o esquecimento.

Apenas o amor fraterno pode ressucitá-los. Somente ele pode encontrar o irmão atrás da máscara desfigurada, desumanizada. O amor fraterno ordena que se remova a pedra a nos separar, ignorando o tempo de permanência em seu túmulo.

Resistimos às ordens desse amor. Racionalização os meios e as conseqüências. Sentenciamos o término da relação de vida existente. Desconhecemos a visão através dos olhos desse amor, conhecemos apenas a visão dos olhos da razão.

O amor fraterno anuncia: eu sou o caminho para a vida!

Arranjamos os mais diversos motivos para criticar o amor em sua atitude. O momento não é adequado, prorroguemos. O morto acaso não merece, esqueçamos. Já está morto há muito tempo, a causa é perdida, coloquemos mais uma pedra em cima.

Mas o amor é mais forte. Ele insiste em ordenar. Retira o morto de seu túmulo da vida. Comanda: vem para fora! Volta para a sociedade que te acolhe. Profere a todos nós: desata-o e deixa-o ir.