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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Miojização

"'Miojização' da vida - uma vida miojo - onde tudo é instantâneo".

Leitura matinal, alerta provocador, li a frase acima em entrevista da revista Showroom, da Assobrav, com o professor Mário Sérgio Cortella.

Alguns chamam de sincronicidade, outros de mera coincidência, mas tenho me deparado inúmeras vezes com as ideias do professor desde que ganhei seu livro "Qual é a tua obra?".

Ou ele está mais presente nas diversas mídias, ou eu passei a prestar mais atenção em seu nome. Seja como for, suas pontuações sempre acabam em reflexão ou inquietação.

Na questão miojo, é duro constatar o quanto "instantaneamos" nossa vida. Elaboramos as mais diversas formas de obter itens básicos do quotidiano com imediatismo assustador.

Comidas de preparo instantâneo são conhecidas de muito tempo. Uma água quente, uma misturada rápida e está pronta para comer. O forno micro-ondas possibilitou que mesmo os alimentos convencionais fossem preparados quase instantaneamente, ou no mínimo a refeição requentada rapidamente, o que dá quase no mesmo.

Máquinas polaroid também já fazem parte da história, mas começaram a linhagem da instantaneidade. Com a fotografia digital, para ser mais instantâneo, só se a imagem fosse apresentada no ar logo após o registro, sem a necessidade de apertar algum botão do equipamento para revê-la.

Para localizar uma pessoa instantaneamente basta ligar para seu celular. Nem adiante dizer que não possui. Tudo mundo tem um. Está lá, a qualquer hora, em qualquer lugar, à disposição de quem quiser encontrar. Normalmente os interlocutores esquecem até de perguntar se a pessoa pode atender. Questão de educação.

Mensagem eletrônicas, o fatídico e-mail, transformaram a comunicação escrita em outro instantâneo. Ninguém mais lembra de alguns dias para uma carta chegar, ou semanas para atravessar continentes. O limite da velocidade é a reação do apertar da tecla enter.

Nem os posts de blogs escaparam da miojização. O Twitter é o macarrãozinho dos registros digitais diários. Poucos caracteres (só 140), poucas ideias e um montão de exibição, para não dar nem tempo de reflexão ou aprofundamento.

Curiosamente todo mundo come miojo, principalmente no aperto, mas sempre reclama. O sabor é aquela tranqueira mesmo, a quantidade é pouca, nem sustenta. Só que as pessoas ainda assim continuam se sujeitando. Alguém vai acabar suspeitando de um componente viciante na sua composição.

Somos estranhos assim. Reclamamos, mas continuamos. Agimos da mesma forma com os outros instantâneos da vida. Deve ser algo na nossa genética, evolutivo. Estaremos fadados a contínua degradação de nosso cotidiano? Espero ter uma vida menos instantânea para ter tempo de descobrir.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Ambição

Bom é poder beber de boas e renovadas fontes...

Falar em ambição pode sugerir muito preconceito e amargor para o senso comum. Ter ambição se torna meio proibitivo em alguns círculos, apenas por puro preconceito.

Da fonte pródiga do professor Mário Sérgio Cortella vem uma definição que é chave para tratar o conflito: "Ambição é querer mais e ganância é querer só pra si".

Com sua sintética e direta sabedoria, ele nos brinda com uma visão elucidativa e conciliadora. Afora o alerta para distinguir o mal que pode vir.

Ansiar por mais faz parte de nossa natureza. Jamais chegaríamos até a condição atual se no passado desistíssemos de buscar algo mais, um pouco mais ou mais fácil.

Diuturnamente somos movidos pelo mais. Nem sempre temos sucesso, nem sempre é possível, mas o espírito motor continua a nos impulsionar, nos inquietar, sem trégua.

Negar tal desejo é no mínimo desatenção. Desatenção ao seu próprio eu. Falta de reconhecimento ou intimidade com os espíritos a dialogar dentre cada pessoa. Seja como for, está lá, mais humano impossível, aliás, humano, demasiadamente humano.

Já a ganância é o oposto de nossa natureza, por mais que digam o contrário. Somos seres gregários, precisamos do conjunto, do grupo. Restringindo a partilha, resistindo ao compartilhar, a desagregação é inevitável, por falência ou opção.

Em primeira instância, querer só para si parece trazer mais satisfação. Porém, todos somos iguais, parecidos e, sem o equilíbrio de forças, de atendimento dos desejos, é impossível a continuidade, a coesão necessário para viabilização de nosso ambiente social.

Sabendo a distinção entre as expressões, dando a atenção devida às ambições do indivíduo e do grupo, proporcionaremos espaço profícuo para o desenvolvimento de todos. Haja vista as iniciativas de colaboração pipocando pelo mundo, com imenso sucesso, num divertido jogo de ganha-ganha.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Obra

"Qual é a tua obra?"

Com inquietante pergunta, Mário Sério Cortella instiga nossa reflexão em diversas questão ligadas a gestão, liderança e ética.

Curtindo meus presentes literários de fim de ano, pude me deparar com o texto do professor. Sem grandes pretensões, comecei a leitura e fui cativado por seu estilo e linha de raciocínio.

Em seu livro, que leva como título a pergunta acima, ele propõe uma abordagem humana para tarefa de condução das empresas.

Poderia ser um simples material sobre negócios, como tantos outros nas prateleiras de livrarias, classificados assim e interessados em apresentar grandes fórmulas gerenciais, algo como uma "auto-ajuda empresarial".

Filósofo e educador, ele passa longe disso e aprofunda questões difíceis do cotidiano, de maneira objetiva e natural, bem própria dos grandes pensadores.

Discursa para a vida, mesmo a pessoal, provando que a dissociação do trabalho e do lar é uma invenção moderna e estranha. Como mote, a obra. Qual nossa razão de ser? Nossa razão social? Que legado construiremos? Como satisfaremos nossa ambição e desejo de criação?

Somos um único ser com várias faces, mas íntegro. Independentemente do momento em que somos observados, carregamos todos o nosso conjunto de valores, onde quer que formos. Refletimo-os em cada contexto de nosso cotidiano.

Grata surpresa descobrir que o melhor é deixado para o final (que não vou contar...). Depois de muitas páginas de excelente conteúdo, gratifica imensamente encontrar ideias mais interessantes ainda.

Incomoda o fato de ele desejar a crítica, o desagravo. Como discordar de tão sonante discurso? A crítica pela crítica de nada valeria, muito menos para aprimorá-lo. Também são poucas as dúvidas iniciais, devido ao seu estilo tão claro.

Fica a ânsia de praticar, imediatamente. De comunicar a todos. Experimentar e ver no que dá. Reforçar as práticas já existentes e condizentes com sua filosofia. Simples como deveria ser, ele desnuda as relações humanas deixando-as como deveriam ser: humanas.