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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Carpir

"Carpe Diem!"

Quando tomei contato com a expressão pela primeira vez, esta me chamou muita a atenção. Percebia certa dualidade de sentidos, entre apreciar os momentos da vida ou usufruir o presente um tanto quanto inconsequentemente.

Lembro de tê-la ouvida no filme "Sociedade dos Poetas Mortos", mesmo sem me recordar do contexto. Nos arroubos da ânsia juvenil, o lema evocava muitos sentimentos, mesmo sem conhecer a origem.

Foi como um acordar para a sutileza da vida, sua finitude e a importância de saber valorizá-la. Encontrar os bons sabores que podemos obter no cotidiano.

Recentemente, ao ler um livro, conheci uma outra tradução para a expressão. Oriunda do filme, pelo menos eu acho, ouvia a frase como "curta o dia".

Pois bem, no tal texto, encontrei como "colha o dia". Pode parecer besteira, mas um sentido mais forte se fez presente. A colheita remete à reflexão maior, ao senso de maior consciência no ato, com o objetivo de receber os frutos da vida.

Colher requer preparo e disponibilidade. Conhecimento da técnica e do tempo corretos. Experiência para olhar o campo e decidir que aquele é o momento ideal, sem deixar passar o tempo e perder a boa oportunidade.

"Carpe" também me lembrou o ver carpir. Uma relação mais profunda. Carpir o campo, limpar o terreno, pede cuidado. Carpir se relaciona diretamente com cuidar, tomar conta, preparar. Se desejamos boa colheita, devemos nos preocupar e pensar antecipadamente na lida com o solo.

Bons frutos não caem do céu simplesmente. Pressupõem empenho e avidez, para plantá-los e saber colhê-los. Longe do pragmatismo e da inconsequência, as palavras de Horácio são um alerta para podermos aproveitar os bons momentos da vida.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Edição

Edição, edição, edição...

Quantas vezes já não ouvi alguém reclamar sobre a edição de algum trecho de entrevista, seja escrita ou gravada, produzindo outra interpretação das idéias expressadas.

Há bem pouco tempo escrevi sobre Robert Hauppé, mais precisamente sobre um vídeo disponível na Internet, como uma entrevista sobre sua filosofia.

Como já disse, pouco conheço sobre ele, nem de suas origens. O material que encontrei é uma auto-referência, pois em sua grande maioria está ligado a ele ou seus seguidores. Inevitavelmente tendenciosos, é natural.

Inesperadamente, ganhei de presente um livro deste autor, "A Consciência é a Resposta". Nem tinha pensado em procurar. Jamais imaginei existir uma tradução, disponível em nossas livrarias.

Ansioso por conhecer um pouco mais, um ou dois dias após ganhá-lo comecei sua leitura. Texto rápido e acessível, não demorei mais do que outros dois dias para terminá-lo... E ganhar uma série de questões para continuar matutando.

Logo de começo, somos recepcionados com a apresentação do autor e todo seu rol de qualidades. Mal começa a sua exposição é algo parece destoar... Toda a objetividade, serenidade, assertividade presente nos vídeos se esvai.

Surge uma miscelânea de todas as filosofias e religiões conhecidas, misturadas numa nova doutrina, pretensamente não dogmática! Fica a impressão de que o autor se amalgamou em todas as culturas contadas e tentou sintetizá-las em uma nova e única.

Onde está a lucidez apresentada na entrevista? Poderia ser apenas uma opinião de um leitor com grande expectativa, mas como encarar alguém falando sobre "seres habitantes do sol" (pág. 105)? Ou de alguém que ainda demoniza "dinheiro de plástico" (pág. 118)?

Acaso seria uma linguagem metafórica com objetivos mais elevados? A esperança de identificar tal elemento seguiu até a última página, mas não sobreviveu... A mistureba de ideologias e mitos se perpetuou até a última letra.

Como explicar então o excelente conteúdo em vídeo? Suspeito que a culpa é do editor... Conseguiu colher o melhor da mensagem do autor e compilar um bem acabado cabedal de mensagens. Extraiu o sumo, a essência do que aquilo representou para si e acertou em cheio. Nem sempre temos a reclamar dos editores...

domingo, 14 de dezembro de 2008

Unificação

Odisséia humana infindável, carecemos de unificação.

A ciência busca há muito tempo uma "Teoria da Grande Unificação". Representação máxima do universo conhecido, seria de pouca utilidade para nossa necessidade imaterial.

Dicotômicos que somos, começamos por precisar a nos unificar. Conciliar os distintos ímpetos naturais e racionais, dissonantes em sua maioria, mas irritantemente presentes.

Outra carência é de nos unificarmos, como grande corpo da multidão de iguais, em natureza. Aceitação da inutilidade dos esforços contrários entre semelhantes.

Em menor escala, a mitologia grega já discorria da separação das pessoas. Mito voltado à união de duas pessoas, seres poderosos foram separados em dois, por enfrentar os deuses, ou pelo menos lhes oferecer risco. Passam a eternidade buscando sua metade, tentando se recompor.

Por fim, necessitamos da reconexão com o divino, com a espiritualidade e com o universo. Só assim reconheceremos a unidade, a familiaridade a nos levar para o respeito à vida, à existência. Integraremo-nos ao fluxo contínuo da criação.

Daí se explica religião, religar, um grande movimento pela reunificação. Só devemos estender nosso entendimento para além do divino, ou talvez entender o divino como algo extremamente cotidiano, próprio de cada um.

No filme "The Matrix", a remoção de determinados indivíduos da tal Matrix parece cisão, isolamento, desconexão. Desconectados estavam enquanto isolados em seus casulos de produção de energia, enquanto simples unidade de baterias alcalinas descartáveis.

Removidos da condição de isolamento, forma reintegrados a situação de consciência, unificados ao livre-arbítrio, "condenados" a desejar a unificação de todos. Cientes da força de união, não pouparemos esforços em criar um grande ser universal, feito de todos nós, aglutinados em um imenso encontro de amor e fraternidade.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Verdades

Verdade seja dita, há muitas verdades pelo mundo.

De acordo com nosso meio, nossas experiências, nossa situação econômico-financeira, ou qualquer outra condição existencial, teremos uma visão, um ângulo de observação da realidade.

Encantados pelos padrões, fadados a procurá-los sem cessar, insistimos em encontrar aquela verdade, a absoluta, capaz de ser útil e servir a qualquer ser humano, indistintamente.

Já faz tempo, alguns milhares de anos, que começamos com essa história. Os tais universais, perseguidos pelos gregos, talvez fossem a chave para tal compreensão. Se existissem...

Até por isso é inútil e inocente o fundamentalismo. Tentar interpretar, compreender, ao pé-da-letra, os princípios que nos movem ou regem, como queiramos.

Em épocas de final de ano, é comum na imprensa listas dos "dez mais do ano", ou "a lista dos eventos mais marcantes". Puro resquício da tentativa de universalizar alguma coisa. Terminamos sempre contextualizados, inseridos na opinião de poucos editores ou compiladores.

Devo admitir, mesmo meu blog é um pequeno extrato da verdade. A minha verdade. Um paulistano, mediano, adulto, com seus gostos e desejos. Um olhar... Por mais adjetivos que escolhamos, ainda assim, sempre será particular, apesar das consonâncias existentes por aí.

Gostaríamos de poder encontrar a tal verdade embalada para presente. Sendo impossível, pelo menos ficamos antenados, atentos e conscientes das limitações de algo do gênero. Aprendemos a compreender e nos sensibilizar com o outro, dentre de seu contexto, de seu ecossistema.

Pensando assim, talvez não fosse tão descabida a pergunta de Pantaleão, personagem de Chico Anysio, a sua esposa: "É mentira, Terta?". Ao que ela prontamente respondia, sempre da mesma maneira: "Veeeerrrrrddddaaaaaaaaaaaaade"!

sábado, 6 de dezembro de 2008

Feiticeira

Encontramos pequenos feitiços mesmo em bobagens.

A vida está repleta de encantos, de magias menores, para nos intrigar e surpreender. Até onde menos esperamos, podemos ser presenteados com um deles.

Assisti novamente hoje a versão do filme "A Feiticeira", com Nicole Kidman e Will Ferell. Verdade seja dita, um filminho bem básico, beirando a chatice.

Longe, bem longe, da simpatia e charme da feiticeira do seriado clássico, vivida por Elisabeth Montgomery. Com sua singela mexidinha de nariz, remexia completamente a vida do marido.

Pitadas de bom humor no cotidiano dicotômico de uma bruxinha, remetem a muitas das cisões do dia-a-dia de qualquer pessoa, além do comum e intrincado jogo das relações familiares.

Porém, um pequeno detalhe foi surpreendentemente interessante na versão moderna da história. Quando a feiticeira pretende ir embora, diz desconhecer onde fica sua casa, seu lar.

Interpelado por ela, com questão tão etérea, sua resposta foi provocante: "Seu lar é onde você é mais feliz!". Definição das mais buscadas, lembra até as preocupações da Zebra Marty em Madagascar.

Sabemos que um lar não é feito de tijolo e cimento. Também concordamos que lares podem nem ser eternos. Em novos lugares, dentro de novas paredes, produziremos um novo lar. Sensações ligadas a histórias vívidas e vividas, preenchem o espaço material.

Alguém me disse até que o radical da palavra lar está presente em lareira. Se não me engano, até Nietzsche remete a história do fogo acolhedor, em torno do qual nossos ancestrais se ajuntavam. Aconchego, proteção, fraternidade, felicidade!

Pois é, mesmo nas amenidades, nos filmes mais bobinhos, podemos encontramos ganchos de filosofia. Quando menos esperamos, está lá, estampado para quem desejar ver. Manifestação da magia da existência deixando pistas e enigmas em todo lugar.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Picasso

"Não procuro, encontro".

Atribuída a Pablo Picasso, a frase revela uma perspectiva interessante frente à vida. Abordagem atenciosa, sem ser manipuladora.

É comum conhecermos pessoas que tentam controlar os rumos da existência. Pretendem ajustar todos os passos e contatos, ao longo da jornada, para obter determinado destino.

Insegurança humana! Desejo ancestral de controle do futuro, cravado no DNA homo sapiens, para possivelmente compensar fraquezas tão óbvias de nossa constituição.

Terminam esgotados por tentar vencer, continuamente, o invencível: o fluxo do rio. Custam a aceitar a condição objeta de nossa pequenez.

De maneira alguma isso deve refletir uma atitude derrotista. Alertas, estamos aptos a abraçar as possíveis conduções na navegação. Conscientes de nossa condição, ficamos preparados para melhor nos adequarmos às necessidades apresentadas.

Consciência é essencial! Optamos por deixa de procurar, mas precisamos saber reconhecer o que encontraremos pelo caminho. Sem saberem o que pode ser achado, as pessoas ignoram um turbilhão de oportunidades a desfilar em sua frente.

A obtenção da consciência exige preparo. Seu grau de habilidade está intrinsecamente ligado a seu esforço em se preparar. Preparação é trabalho duro, suado, mas prazeroso quando direcionado às nossas melhores aptidões.

Equilíbrio é ponto final. Como bem sabem nossos irmãos orientais, natural é estar integrado, fazer parte do grande mecanismo do universo. Plenamente conectados, jamais brigaremos com os fios e tramas do destino. Apenas os desfrutaremos...

Talvez essa seja uma boa definição para a inspiração: um enorme encontrar, sem jamais procurar. Encontrar orientado, esforçado e harmônico. No caso do pintor espanhol, que encontro frutífero! Se sem procurar ele produziu tão importante obra... Imagine se acaso tivesse procurado.

sábado, 22 de novembro de 2008

Integração

Bem-vindas as surpresas!

Recebi uma mensagem ontem, de um amigo, com um link para determinado post, de certo blog. O post tratava sobre a entrevista de um tal filósofo, chamado Robert Happé.

Desconheço a história desse filósofo, nem encontrei muitas referências a ele, apenas um site sobre seu trabalho e projetos. Um "auto-site".

Como bom filósofo, discorre sobre a vida. Sobre seu segredo, sem fórmulas comerciais ou anúncios mágicos. Somente a simplicidade de quem tem muita experiência.

Estranhamente, parece que precisamos viver para saber como que seria fazê-lo. Ao mesmo tempo, é gratificante conhecer visões sobre a existência. Ainda mais quando se assemelham, ou traduzem muito bem, várias de nossas convicções.

Em tempos de carência de mestres, vale a propagação de tão cativante discurso.









Ao amigo, meu muito obrigado pelo presente!

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Descida

"A descida das ciências ocidentais do céu para a terra (da astronomia no século XVII à biologia do XIX), bem como sua concentração, nos dias de hoje, por fim, no homem (na antropologia e na psicologia do século XX), marcam o caminho de uma prodigiosa transferência do ponto focal do milagre humano. Não o mundo animal, o mundo vegetal, nem o milagre das esferas; o mistério crucial é, em nossos dias, o próprio homem".

Joseph Campbell, em "O Herói de Mil Faces", resume desta maneira magnífica a história da evolução de nossa mitologia. Descemos do céu ao cerne de nossa própria natureza.

Das esferas celestes ao genoma humano, fomos colocando por terra mitos e desvendando o mecanismo do Universo. O mundo perfeito das estrelas dos gregos deixou de nos assustar, assim como parte das manifestações da máquina homo sapiens.

Tristemente, no processo de descida, perdemos o hábito de admirar o céu. Cada vez mais, somos seres cabisbaixos, "ensimesmados", desatentos às maravilhas vindas do alto. Quantas vezes reparamos até mesmo nas visões do alto de nossa cidade?

As pipas do tempo de criança nos faziam vasculhar os céus em busca de alguma para competir. Levávamos nossos sonhos de Ícaro naqueles engenhos de papel e bambu. Fios espalhados por toda metrópole tornaram a brincadeira algo muito arriscado.

Em festas juninas, pequenos e inocentes balões levavam os desejos do povo para o alto. Coloriam as nuvens e instigavam mais um olhar acima das cabeças. A consciência dos riscos envolvidos, as gangues em torno de monstros de fogo, gigantescos balões, fizeram deste elevador de visões assunto banido do cotidiano.

Corremos para não perder o ônibus, ou aproveitar o semáforo a fechar... Deixemos de procurar passarinhos, na tentativa de identificá-los e apreciar seus lindos vôos e cantos. Nuvens de vida a enfeitar os ares! Ficamos com os pombos, uma ameaça constante, às roupas e cabeças, ou os tristes engaiolados ornamentais.

Em noites calmas de luar, parávamos muito mais para observar as diversas constelações e sonhar como seriam tantos outros mundos. As luzes da cidade se intensificaram e ofuscaram qualquer possibilidade de fácil observação.

Descemos a atenção e parece que descemos nossas aspirações. Haja visto como cuidados de nosso céu, com as altas cargas de poluição que lançamos, principalmente emitida pelos veículos. Ao cuidar do próprio umbigo estamos fadados a diminuir nossa existência. Provavelmente descemos as escadarias da evolução. E ainda nos achamos superiores e privilegiados...

terça-feira, 15 de julho de 2008

Filosofar

Filosofar é coisa de criança!

Desconheço alguém mais amante da sabedoria do que elas. Se há pessoa, ou idade, mais apegada aos "por ques" ou "comos" da vida, essa pessoa tem poucos anos de história.

Seu olhar isento e bruto dispensa influências. A palavra "vergonha" parece ausente nos momentos de apontar, observar, perguntar e procurar entender.

Paula Toller escreveu a música "8 anos", inspirada na experiência com seu filho Gabriel. Ouvi-a pela primeira vez pela Adriana Calcanhoto, no seu trabalho "Partimpim". Ela captura bem a essência dessa filosofia pueril, com versos como:

"Por que o fogo queima?
Por que a lua é branca?
Por que a Terra roda?
Por que deitar agora?
Por que as cobras matam?
Por que o vidro embaça?
Por que você se pinta?
Por que o tempo passa?
"

Uma rápida conversa com um pequenino também deixará evidente que, para eles, "porque sim" não é resposta, como bem frisava um quadro no programa "Castelo Rá-Tim-Bum". O simpático protesto infantil, poderosa contestação, também mereceu homenagem musical.

Interminável encadear de interrogações, o entrelaçar de questionamentos é delicioso labirinto para se perder. Se perder e tentar encontrar mais respostas, respostas que às vezes esquecemos até de sua existência.

Envolvidos pelo senso comum, perdemos o discernimento das verdades adquiridas. Só mesmo o olhar límpido dos brotinhos de gente para nos jogar muita água fria, nos trazer à tona, nos despertar. Despertar nos espanta.

Eis o sentido de manter viva a criança presente em nós. Cultivar seu espírito inquieto e contestador... Alimentar a chama imberbe da humanidade. Enxergar a vida e a natureza com muito amor e sabedoria. Coisa de criança!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Dons

Recebemos dons permanentemente, todos os dias!

Nem sempre as pessoas os reconhecem, pois consideram apenas os grandes destaques. Os dons da vida estão presentes em pequenos detalhes cotidianos.

O Dalai Lama, em seu livro "A Arte da Felicidade", expressa os extremos da gratidão quando nos conta agradecer mesmo se for assaltado. O criminoso lhe possibilitou exercitar o seu perdão.

É conhecida a tendência humana de frisar o negativo. Mil grandes realizações sempre serão ofuscadas por um único acontecimento medíocre. Pressão constante por ignorar o conjunto...

Espanta mais quando as pessoas se referem negativamente às crianças. Em tempos pré-natais, é curioso o número de pessoas insistentes em tentar nos assustar com as futuras agruras na criação de filhos.

Piadinhas, num tom de "rito de passagem", surgem de todos os lados, em diversos círculos de convívio. De colegas de trabalho e amigos, soa um tanto como molecagem adolescente. De familiares mais velhos, parece desafio ou cobrança. "Você verá como é bom uma noite em claro...". "É tão gostoso aquele choro fininho...".

Quem desconhece o fato do peso da responsabilidade pela criação da amada prole? Só os mais inocentes ignoram os percalços do cuidado com os pequenos, indefesos e incapazes nas mais básicas rotinas diárias.

Higiene, alimentação, saúde nos competem, pais adultos. Sua única forma de expressão, nos momentos ruins, é o choro, a delicada lágrima clamando por atenção. Alguém será capaz de lhe negar o devido socorro?

Esquecem-se tais pessoas dos inúmeros dias de sorrisos, expressos em seu singelo balbucio, do amor incondicional a nós dispensado? Os olhos das lágrimas, agora olhos de luz, irradiam a energia vital, alimento da alma, reconhecimento de nosso amor.

Sentirão saudades dos pequenos bracinhos, a buscar um abraço, terno e caloroso. Gratuito. Gratuidade dada como dom. O dom da vida! O pequeno dom, crescente, envolvente, transformador da existência de qualquer pai e mãe.

Reconhecer os pequenos e verdadeiros dons é pedra fundamental no caminho da felicidade! Agradeço, diariamente, esses e outros tantos pequenos dons confiados a mim. Procurarei sempre fazer jus a eles.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Notoriedade

Notoriedade é desejo comum a muitas pessoas.

Síndrome da época das celebridades, em meio a Idade Mídia? Ou necessidade ancestral, transformada ao longo da história nos mais diversos formatos?

Na infância uma das formas é se tornar um super-herói. Ter superpoderes para combater o mal e ajudar as pessoas. Muitos fãs, admiradores e seguidores estarão à sua volta.

Carência infantil, resultado de algum dos complexos Freudianos? Necessidade de atenção para a aceitação social? Altruísmo inato a conectar toda a espécie?

Os sonhos podem ganhar escopos mais abrangentes. Cientista com reconhecimento internacional, por alguma descoberta milagrosa. Grande cineasta, ilustrador das maravilhas de vida na grande tela. Político salvador da nação, solução de grandes dilemas nacionais.

Ampliar o escopo não elucida mais a questão. Exemplos distintos, citados aos montes, não colaborarão para um melhor entendimento. Desconfio ser um código escrito em nossos genes, implantado para proporcionar constante evolução, permanente busca por melhoria e melhor adaptação.

Como seres sociais, esquecemos do poder do indivíduo comum, da capacidade de agregação de pequenas forças. O velho bordão: a união faz a força! Mesmo os notórios viveram com, e dependeram muito dos, comuns.

Joseph Campbell
, em seu "O Herói de Mil Faces", nos oferece uma excelente chave para compreensão melhor desse sentimento de tijolinho:

"A sociedade inteira se torna visível a si mesma como unidade viva imperecível. As gerações de indivíduos passam, como células anônimas num corpo vivo; mas a forma mantenedora e intemporal permanece".

Que tal a eternidade celular?

terça-feira, 15 de abril de 2008

Auto

Culpado é o Ford!

Ao inventar o automóvel, disparou um modo de vida autônomo e individual. A possibilidade de se automover amplia capacidades e horizontes do indivíduo, sem vínculo direto e óbvio com um grupo.

É uma ilusão, é claro, mas carece de percepção.

Autonomia não é tudo. Seu método produtivo implica em especialização e produção em massa. São mais dois ingredientes da questionável vida moderna.

Reforçamos as características do "eu". Apesar de roupas serem feitas em grandes lotes, a satisfação, ou pseudo-exclusividade, é prometida a cada um. Ninguém vende produtos por serem mais adequados para todos. O desejo é seu.

As propriedades autônomas foram multiplicadas. O telefone é celular e pessoal. O computador é pessoal. Os tocadores de música são pessoais. Tudo para si só. Compartilhamos com o outro, mas para que ouça no dele!

Maravilha das maravilhas, autonomia total obtemos com o iPhone. Ele e seus similares congregam todas as soluções, unicamente, pessoalmente e móvel. Poderiam ser considerados novos "automóveis"?

Depois do carro (automóvel) ficamos um tanto acanhados de continuar com o prefixo 'auto'. É muito evidente a noção de autonomia, 'independência'. Nesse caso podemos culpar D. Pedro I, com sua máxima de "Independência ou Morte". É uma escolha muito radical...

Amenizar, nós amenizamos, mas a vontade arraigada do individualismo vai nos consumindo, minando as forças, a resistência. Reflexos vemos por toda parte. Reflexos da vontade e de nós mesmos? Segregar a vontade do indivíduo significa apenas arranjar mais um culpado.

E alguns "autos" vão se ajuntando... Preocupação com a auto-estima, atenção a autocrítica, cobrança da auto-regulamentação. Se a independência fosse tão simples, haveria menos autoridades. Quem sabe é necessária autorização para falar sobre.

Autonomia completa esbarra em liberdade. Ou no seu significado. Ou nos seus limites. Frustrações decorrentes do eterno embate humano, do "um" e do "muitos". Será esse o tal "pecado original"?

Entre altos e baixos, de esperança e derrotismo, devemos desejar ao menos não transformar autônomos em autômatos!

sábado, 29 de março de 2008

Navio

Problemas filosóficos nos dizem muito.

Algo a atormentar pensadores através de nossa história é a questão da identidade. Junto a ela, como possível chave para pesquisa, a consciência.

Desejamos sempre identificar os elementos circundantes, dar-lhes personalidade, única, distinta. Rotulamos tudo e todos, tornando-os únicos em sua existência.

Mas o que somos nós? O que nos dá identidade? Qual característica nos torna perenes? A resposta está em nossa alma? Ou na manifestação física de nossa consciência?

De nosso nascimento a nosso fim, estamos em constante transformação física e psicológica. Crescemos, mudamos, amadurecemos, cicatrizamos: nunca somos a mesma matéria ou psicologia de ontem, ou de alguns segundos atrás.

Se assim ocorre, como podemos ter certeza, após longo tempo de afastamento, que um velho amigo é a pessoa encontrada? Como saber ao certo se eu sou eu mesmo? Caso haja dificuldade em ilustrar a idéia, podemos recorrer a uma antiga formulação.

Ulisses, o herói grego epopéico, singrou os mares com seus companheiros Argonautas. Para suas viagens utiliza um navio, que certamente precisou de manutenção durante sua existência. As tábuas, pregos e amarras trocados foram dispensados em algum lugar.

Suponhamos que completamente todas as peças do navio fossem substituídas. Ao final ainda teríamos o mesmo navio? Ninguém que o conhecesse duvidaria disso... E se alguém recolhesse todas as peças dispensadas, em seguida remontando o navio com elas? Teria essa pessoa o navio do herói? Qual dos dois seria o verdadeiro? Os dois?

Percebemos a relação de identidade com a história do elemento. Ela inexistiria se não tivesse navegado. Sua imagem está muito além da coleção de átomos de qualquer material do qual fosse feito.

Tal qual o barco, precisamos navegar. Caso contrário, seremos uma insignificante amontoado de tábuas, esquecido em algum cais.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Ventos

A inspiração é como o vento soprando sobre o mar.

Em dias de calmaria, brisas acariciam as águas e provocam pequenas ondulações. Decoram a superfície para embelezar a paisagem, para nossa contemplação, serena, pacata.

Muito tempo de calmaria é sinal de monotonia. Sem vento adequado os barcos não velejam, os surfistas não se divertem, as crianças não tem tantos desafios à beira da praia.

Um vento cotidiano, com variações durante o dia, provoca ondas costumeiras. É um tanto quanto habitual, estamos acostumados, o esperamos sem surpresa. Ele nos garante a praia de nosso pueril imaginário, com ondas regulares, rítmicas, incessantes.

Dias de ventos fortes também são interessantes. O mar fica revolto, imprevisível. Ondas volumosas nos assolam. Inexistem instantes de calmaria. Ficar nas águas, em dias assim, é perigoso, mas pode ser um interessante desafio.

O quebrar das ondas é intenso, incansável, nos faz ficar atentos. Procuramos saída da quebração, tentamos voltar à areia, nos esforçamos para nadar. Tanta agitação suscita instintos, nos faz procurar alternativas, nos mantém alertas.

Em nossos dias a inspiração vem e vai como os ventos. Apresentam-se nos mais diversos formatos e intensidades. Às vezes demora a chegar, ou vem apenas como brisa a nos acariciar. Noutros momentos, chega avassaladora, tempestuosa. Inquieta-nos.

Deposito minha confiança em que bons ventos sempre me levem. Que eles sejam suficientes para conduzir, inspirar a todos. Minha esperança é essa.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Agora

Honestamente, os mais próximos sabem da minha sinceridade. Aos menos espero que saibam...

Há alguns poucos anos encarei a brevidade da vida, com o falecimento de pessoas muito próximas: meu pai, meu tio... A proximidade da ocorrência da morte provoca essa confrontação.

Descobri intimamente o sentido do verbo to realize na língua inglesa. Bem direto, um se dar conta, mas sem precisa explicar muito.

Perdemos muitas oportunidades de nos expressar, de dizer o que sentimos, de manifestar o nosso amor. Eu pude perceber a tempo, ou melhor, percebi que não precisava perceber, já manifestava.

Tornar-me consciente deste fato me fez reforçar essa atitude. Passei a não deixar, com mais intensidade, para amanhã.

Planejamos muito, escolhemos muito e acabamos conjugando no futuro. Diversas ações precisam de planejamento, mas a manifestação do amor, principalmente, não.

Em "P.S. Eu te amo" (P.S. I Love You) vemos a representação disso. É um drama romântico, singelo, com alguma pretensão, mas bem 'sessão da tarde'. Hilary Swank, Gerard Butler e Kathy Bates convencem em seus papéis. Apenas convencem, diga-se de passagem. Vale o ingresso, para diversão, como um bom filme vespertino, sem compromissos.

Não quero ser apenas póstumo. Quero ser cotidiano. Na adolescência possuía uma angústia por deixar sempre tudo bem claro. Amadureci. Ao menos parece... Alguns me dizem... :) Aprendi a não forçar a clareza, mas trabalhar para que ela ocorra naturalmente, transcorra.

Surpresas são instrumentos fascinantes. Agrados também. Testamentos para fazê-las são dispensáveis. A herança é transferida diariamente. Já recebi a de muitas pessoas, incrustadas magnificamente em meu ser.

Retribuir é um grande compromisso. Nunca nos achamos à altura. Ainda bem que estamos freqüentemente enganados. Grandes retribuições ocorrem em pequenos gestos. Em grande parte, são gestos mudos, de alma.

A todos, obrigado eternamente pelos tesouros.

P.S.: Amo vocês!