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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Descida

"A descida das ciências ocidentais do céu para a terra (da astronomia no século XVII à biologia do XIX), bem como sua concentração, nos dias de hoje, por fim, no homem (na antropologia e na psicologia do século XX), marcam o caminho de uma prodigiosa transferência do ponto focal do milagre humano. Não o mundo animal, o mundo vegetal, nem o milagre das esferas; o mistério crucial é, em nossos dias, o próprio homem".

Joseph Campbell, em "O Herói de Mil Faces", resume desta maneira magnífica a história da evolução de nossa mitologia. Descemos do céu ao cerne de nossa própria natureza.

Das esferas celestes ao genoma humano, fomos colocando por terra mitos e desvendando o mecanismo do Universo. O mundo perfeito das estrelas dos gregos deixou de nos assustar, assim como parte das manifestações da máquina homo sapiens.

Tristemente, no processo de descida, perdemos o hábito de admirar o céu. Cada vez mais, somos seres cabisbaixos, "ensimesmados", desatentos às maravilhas vindas do alto. Quantas vezes reparamos até mesmo nas visões do alto de nossa cidade?

As pipas do tempo de criança nos faziam vasculhar os céus em busca de alguma para competir. Levávamos nossos sonhos de Ícaro naqueles engenhos de papel e bambu. Fios espalhados por toda metrópole tornaram a brincadeira algo muito arriscado.

Em festas juninas, pequenos e inocentes balões levavam os desejos do povo para o alto. Coloriam as nuvens e instigavam mais um olhar acima das cabeças. A consciência dos riscos envolvidos, as gangues em torno de monstros de fogo, gigantescos balões, fizeram deste elevador de visões assunto banido do cotidiano.

Corremos para não perder o ônibus, ou aproveitar o semáforo a fechar... Deixemos de procurar passarinhos, na tentativa de identificá-los e apreciar seus lindos vôos e cantos. Nuvens de vida a enfeitar os ares! Ficamos com os pombos, uma ameaça constante, às roupas e cabeças, ou os tristes engaiolados ornamentais.

Em noites calmas de luar, parávamos muito mais para observar as diversas constelações e sonhar como seriam tantos outros mundos. As luzes da cidade se intensificaram e ofuscaram qualquer possibilidade de fácil observação.

Descemos a atenção e parece que descemos nossas aspirações. Haja visto como cuidados de nosso céu, com as altas cargas de poluição que lançamos, principalmente emitida pelos veículos. Ao cuidar do próprio umbigo estamos fadados a diminuir nossa existência. Provavelmente descemos as escadarias da evolução. E ainda nos achamos superiores e privilegiados...

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Saci

Quem precisa de Halloween?

Caldeirão de inúmeras culturas, nosso folclore é rico em personagens e histórias, suficientes para preencher dias e noites a fio de "causos" e contos.

Saudoso Sítio do Picapau Amarelo, exemplar da obra de Monteiro Lobato, retratado até na televisão brasileira. Inúmeros ícones a formar o imaginário infantil de muitas gerações...

Quantas crianças ainda sabem, nos dias de hoje, quem (ou o quê) é a Cuca? Como será interpretado até mesmo o nome Curupira? O conjunto de lendas, com tantas influências indígenas, remete a uma raiz legítima de brasilidade.

Representante máximo de nosso panteão, eleito por diversos movimentos de valorização da cultura tupiniquim, o Saci-Pererê, apenas Saci para os íntimos, reúne um dos mais completos conjuntos de influências. Talvez por isso conquiste tanto nossa simpatia e apreço.

Surgido entres nossos índios, ganhou forma e ferramentas de contribuições da tradição africana e européia. Resultou no produto do sincretismo mais primitivo. E vamos pelo interior afora (se é que isso é possível :)), com nossas peneiras, caçando seus redemoinhos.

A força de sua presença motivou a criação de diversas organizações dedicadas a seu estudo. Uma delas, a Sociedade dos Observadores de Saci - SOSACI, reúne histórias e testemunhos dos contatos com a sapeca entidade brasileira.

Para marcar a importância deste representante, foi instituído pelo poder público, em diversas instâncias, o Dia do Saci. Também mencionado por alguns como "Dia do Saci e seus amigos", é comemorado no dia 31 de outubro, confrontando com o "Dia das Bruxas", influente marca cultural americana.

Mais do que amedrontar, Iara, Boitatá, Mapinguari, além dos já citados Saci, Curupira e Cuca, permanecerão em nosso inconsciente, a proteger as raízes de uma cultura diversa e prolífera. Garanto ser mais divertido caçar a Mula-sem-cabeça, em noites de luar, do que sair pedindo doces e balas, fantasiados como algum ícone alienígena qualquer.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Notoriedade

Notoriedade é desejo comum a muitas pessoas.

Síndrome da época das celebridades, em meio a Idade Mídia? Ou necessidade ancestral, transformada ao longo da história nos mais diversos formatos?

Na infância uma das formas é se tornar um super-herói. Ter superpoderes para combater o mal e ajudar as pessoas. Muitos fãs, admiradores e seguidores estarão à sua volta.

Carência infantil, resultado de algum dos complexos Freudianos? Necessidade de atenção para a aceitação social? Altruísmo inato a conectar toda a espécie?

Os sonhos podem ganhar escopos mais abrangentes. Cientista com reconhecimento internacional, por alguma descoberta milagrosa. Grande cineasta, ilustrador das maravilhas de vida na grande tela. Político salvador da nação, solução de grandes dilemas nacionais.

Ampliar o escopo não elucida mais a questão. Exemplos distintos, citados aos montes, não colaborarão para um melhor entendimento. Desconfio ser um código escrito em nossos genes, implantado para proporcionar constante evolução, permanente busca por melhoria e melhor adaptação.

Como seres sociais, esquecemos do poder do indivíduo comum, da capacidade de agregação de pequenas forças. O velho bordão: a união faz a força! Mesmo os notórios viveram com, e dependeram muito dos, comuns.

Joseph Campbell
, em seu "O Herói de Mil Faces", nos oferece uma excelente chave para compreensão melhor desse sentimento de tijolinho:

"A sociedade inteira se torna visível a si mesma como unidade viva imperecível. As gerações de indivíduos passam, como células anônimas num corpo vivo; mas a forma mantenedora e intemporal permanece".

Que tal a eternidade celular?