Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de março de 2009

Subprime

Vem aí o subprime brasileiro?

No final do ano passado, analistas alertavam para o problema da oferta de crédito farto para financiamento de veículos, com critérios "flexibilizados" para análise de saúde financeira do comprador.

Brasileiro adora carro. Sabemos da influência da indústria automobilística no cenário econômico nacional. Basta observarmos as confusões atuais com as novas condições de mercado.

Financiamentos, consórcios, leasings, há diversas formas de conquistar o sonho de locomoção motorizada própria. Se bobear, no Brasil é um sonho mais comum e valorizado do que o desejo da casa própria.

Com tamanha penetração em nossa economia, move muitas engrenagens. Se algo der errado na cadeia de eventos, poderemos vivenciar um "fileira de dominós", derrubados uns após os outros, como consequência da queda do participante mais próximo.

Claro que no país da marolinhas isso soa como alarmismo. Imagina que teremos problemas significativos... Automóveis têm valor significativamente menor do que os imóveis americanos. Nem muito menos há fundos lastreados por tais créditos...

Só que veículos tem o valor mais depreciado, em menos tempo, do que imóveis. Com valor menor, o número de bens é significativamente maior. A garantia oferecida, o próprio carro, quando recuperado facilmente estará em situação que não cobrirá a dívida.

Ao ler a coluna de Ruth de Aquino, na edição da revista Época desta semana, em meio a um assunto de embaixadas e gastos governamentais, notei a menção aos problemas recentes com financiamentos de veículos!

Procurei notícias mais completas e encontrei. Os bancos já têm um estoque de 100 mil carros recuperados devido a inadimplência de tomadores de empréstimos. No mês de janeiro, o calote foi o maior da história, desde 1991! Além disso, o índice de problemas com o crédito pessoal é o maior desde 2002.

Talvez continue sendo apenas alarmismo. Talvez devamos aprender, com antecedência, a atentar para os sinais de perigo. Os problemas financeiros para além-mar são indiscutíveis, num grande buraco negro de dinheiro, principalmente público. Mais prudente seria ligar os equipamentos sismográficos, na eventualidade da marolinha se tornar um tsnunami.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

RIC

"Mão na cabeça! Documento!"

A partir de 2009, pelo menos vai ficar mais fácil atender esta ordem. Não existirá mais dúvidas de qual documento está sendo pedido, afinal teremos apenas um.

Seu nome: RIC. Acrônimo de Registro de Identidade Civil, é o novo documento federal que começará a ser implantado neste ano e levará nove anos para ser fornecido a 150 milhões de brasileiros.

Nosso antigo RG, documento de emissão estadual, é um dos campeões em fraude. Nem precisa grande esforço, pois qualquer cidadão comum consegue obter mais de um, solicitando um em cada estado!

Já o novo, produzido com alta tecnologia, a estrutura para viabilizá-lo consumiu 35 milhões de reais lá em 2004, será quase impossível.

Impresso a laser, com chip e uma série de proteções moderníssimas, será capaz de receber todos os números de identificação associados ao cidadão. Um pouco mais de inovações, além das que já vimos nos novos passaportes brasileiros.

Em um único documento teremos CPF, carteira de trabalho, título de eleitor, RG, além de dados trabalhistas, previdenciários ou criminais. A nossa impressão digital estará gravada no chip, permitindo a rápida verificação da propriedade do documento.

Verdade seja dita, nosso governo tem praticado a vanguarda em utilização de meios digitais. Legítimo governo eletrônico, basta olharmos as urnas eletrônicas, os sites governamentais, o Poupatempo, para ficar apenas em alguns itens mais óbvios. Pena nem tudo ser tão avançado em nossa classe política e governamental...

Figuraremos mais uma vez entre os primeiros a inovar numa área. O documento ainda terá foto menor no verso, marcas d'água e sequência de caracteres impressa para verificação, com composição do nome da pessoa. Facilitará muitos processos burocráticos envolvendo identificação.

Vêm vantagens, juntas novas preocupações. Eu já havia aventado em outro post, há cerca de um ano e meio, sobre a possibilidade e os riscos de tamanha concentração de informações de uma única pessoa. Haja centralização!

Ao perder o documento, ninguém poderá utilizá-lo, mas seu usuário ficará sem documento algum! Ou então, imaginem o risco de algum programa malicioso, em uma máquina leitora, coletar os dados de cada cidadão dos cartões utilizados lá.

Há também a necessidade de proteção dos servidores governamentais. Um Fort Knox digital! Pelo menos, imagino... Os hackers passarão a ter um único alvo para atacar e tentar conquistar. Nem adianta os responsáveis fazerem ares de desprezo, pois todos assistimos na mídia a venda de CDs com informações das declarações de imposto de renda, à solta nas mãos de camelôs.

De qualquer forma, fazer o quê, né? Se queremos evolução e facilidade, temos que pagar um preço, nem que seja a onda de preocupação. Com o tempo passa... Quem não lembra do medo que as pessoas tinham de comprar e usar bancos pela Internet? Para a grande maioria isso já é coisa do passado.

Agora é só esperar para receber o seu e esperar que tudo certo. Com tamanha unificação, os sonhos ficcionistas chegam mais perto, nos rondam. Talvez na próxima versão, o chip possa ser implantado embaixo da pele, para facilitar transporte e acondicionamento. Serei assim um soldado do futuro ou uma rês, simplesmente marcada? :)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Mascote

Entusiasmo demais atrapalha.

Apóio a cultura popular e sua divulgação. Faço questão de pontuar o assunto e defender os ícones de nosso folclore, assunto de alguns posts por aqui.. A beleza de nossos mitos e lendas é indiscutível.

Daí a querer transformar o Saci no mascote da Copa do Mundo de 2014 já é exagero! Nada contra o moleque travesso, mas uma de suas principais características é ter uma perna só.

Como é que o saci vai conseguir jogar bola? Sem falar que é uma personagem fumante...

A idéia é da Sociedades dos Observadores de Saci, entidade que zela pela preservação da identidade cultural através da propagação do conteúdo do imaginário genuinamente brasileiro.

Bem legal o trabalho da entidade, mas nesse caso específico erraram um pouco na mão. Fizeram uma página no site para a campanha e sugerem que façamos um lobby para sugerir à CBF a escolha do menino de gorro vermelho.

Poderíamos apoiar o Curupira, outro carinha mítico do nosso povo. Seus pés tortos poderiam até remeter ao craque Garrincha, conhecido por suas pernas tortas. Sem vícios e tão esperto quanto seu companheiro de folclore, ainda tem cabelos de fogo, ótimos para subir na área adversária e cabecear!

E por falar em lembrar craques, de repente até o Pelezinho seria uma boa escolha. Apesar do lugar comum, o rei Pelé (seu inspirador) foi escolhido atleta do século, entre todas as modalidades. Somemos ao fato de ser obra de um desenhista extremamente brasileiro, Maurício de Sousa.

De mascotes equivocados já nos bastou o tal solzinho chamado Cauê. Nome com significado de saudação... Além do mais não somos descendentes dos Incas, estes sim povos adorados do deus Sol. Só que a votação foi popular e a maioria venceu.

Provavelmente, com a mascote da copa não será diferente... Se acontecer de realmente pleitearem o saci, e ele entrar na disputa, pode muito bem acabar como vencedor. Se bem que, vá lá, pode até representar adequadamente o futebol perneta que nossa seleção vem apresentando.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Mando

Quem é o manda-chuva da política no Brasil?

Que se digladiem petistas e psdbistas. Podem sonhar democratas de todo país. De nada adiantará, pois o controle está nas mãos do PMDB velho de guerra.

De acordo com os dados publicados pela revista Época, em reportagem desta semana, a distribuição de prefeituras conquistadas na última eleição deixa poucas dúvidas.

Aos visitantes mais novinhos (em idade) há que se esclarecer um pouco de história... Num passado não muito distante, em tempos mais cinzas do país, podíamos escolher entre dois partidos.

Versão brasiliana da distribuição partidária norte-americana, o Arena e o MDB eram as únicas legendas existentes. O primeiro representava a situação, o segundo a oposição, apesar de a representatividade precisar de certa autorização naquele período...

Com a abertura política, a antiga oposição ganhou nova nomenclatura e condição de partido (PMDB). Viveu fazer áurea e, com o passar do tempo, frutificou em algumas dissidências, formando outro partido (PSDB) ou núcleos regionais com força e direcionamento próprios.

Os anos se passaram, mas o ente permaneceu. Em 2008, o antigo combatente conquistou 1.201 prefeituras em todo território nacional. É mais do que o dobro do segundo colocado, quase o mesmo que a soma do terceiro e segundo!

Governará 40,2 milhões de pessoas, ou seja, 1/4 da população do país. Contará com uma verba de R$ 40 bilhões par realizar seus planos de governo, a maior receita entre todos os outros. Números expressivos para quem já está esquecido há algum tempo.

E quem é esse gigante da política? Poucos sabem dizer... Dividido em regionalismo e seus caciques, é um grupo com energias dedicadas para diversas direções. Culpa talvez de seu tamanho e sua extensa história.

Expressão provam que têm. Misteriosos são os caminhos escolhidos. Componente significativo da história brasileira, perpetuam-se continuamente nos pleitos. Como ficaram suas posições ideológicas com os anos? Qual seu papel na sociedade?

Apesar de sua expressividade, dificilmente vemos faces expostas em primeiro plano. Preferem a atuação como coadjuvantes no expressivo cenário político nacional. Alguma vantagem deve existir nesta posição, ou não conseguem se unir em projeto comum. Vai entender essa cabeça de político...

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Horário

Horário de Verão começa na Primavera?

Segundo consta, e ainda não temos jurisdição sobre sua ocorrência, a estação das flores começou há pouco menos de um mês. Ainda falta muito tempo para o Verão...

Esse é o inconveniente causado por não adotarmos sua sigla original DST, passível de ser confundida com as doenças sexualmente transmissíveis. Ninguém quer ficar doente por causa do relógio.

DST ou não, Primavera ou Verão, é tempo de um rosário de reclamações, das mais diversas partes. Maus-humores, rostos de sono, bocejos por todo canto. Culpa do novo horário!

Afetou pouco a mim. Talvez seja conseqüência dos já desregrados horários do período pós-natal. Se bem que nunca foi problema em anos anteriores...

Por sinal, se alguém não vê problema com a mudança de horário é a pequena gentinha lá em casa. Continua mamando como sempre, dormindo com a mesma freqüência, chorando de vez em quando. Só não entende muito bem a insistência dos pais em tentar fazê-la dormir uma hora antes do horário habitual. Quem entende gente grande, não é?

Quanto ao resto da população, parece que 180 milhões de brasileiros foram submetidos a um jet lag quase instantâneo. Porém, nesse caso, não foram eles que voaram por um fuso, mas o fuso que sobrevoou suas vidas. De repente, uma hora completa sumiu dos relógios.

E haja ciclo circadiano! Não deveria ser tão ruim assim. Pelo que soube, para cada 3 horas de fuso alterado, é necessário 1 dia de adaptação. Sendo que foi apenas 1 hora de diferença, o final de semana deveria dar conta do pequeno estrago.

Nítido mesmo é o começo do dia mais escurinho e os finais de dia sempre mais prolongados, com mais claridade. Dá até para entender a história de Daylight Savings Time! Assim como é que se torna possível economizar alguma energia.

Conhecendo o hábito de algumas pessoas, fico desconfiado da efetividade da medida. Só mesmo a medição de algumas "Itaipus" para confirmar seu efeito, na ponta do lápis. Pela sua adoção continuada, somos levados a acreditar que a coisa funciona.

Seguimos assim brincando de controlar o tempo, como se fosse possível. Hábito incurável dessa humanidade. Sacal mesmo é ter de bagunçar todos os relógios da casa para, daqui a alguns meses, voltar tudo ao dantes, como se nada tivesse acontecido.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Saci

Quem precisa de Halloween?

Caldeirão de inúmeras culturas, nosso folclore é rico em personagens e histórias, suficientes para preencher dias e noites a fio de "causos" e contos.

Saudoso Sítio do Picapau Amarelo, exemplar da obra de Monteiro Lobato, retratado até na televisão brasileira. Inúmeros ícones a formar o imaginário infantil de muitas gerações...

Quantas crianças ainda sabem, nos dias de hoje, quem (ou o quê) é a Cuca? Como será interpretado até mesmo o nome Curupira? O conjunto de lendas, com tantas influências indígenas, remete a uma raiz legítima de brasilidade.

Representante máximo de nosso panteão, eleito por diversos movimentos de valorização da cultura tupiniquim, o Saci-Pererê, apenas Saci para os íntimos, reúne um dos mais completos conjuntos de influências. Talvez por isso conquiste tanto nossa simpatia e apreço.

Surgido entres nossos índios, ganhou forma e ferramentas de contribuições da tradição africana e européia. Resultou no produto do sincretismo mais primitivo. E vamos pelo interior afora (se é que isso é possível :)), com nossas peneiras, caçando seus redemoinhos.

A força de sua presença motivou a criação de diversas organizações dedicadas a seu estudo. Uma delas, a Sociedade dos Observadores de Saci - SOSACI, reúne histórias e testemunhos dos contatos com a sapeca entidade brasileira.

Para marcar a importância deste representante, foi instituído pelo poder público, em diversas instâncias, o Dia do Saci. Também mencionado por alguns como "Dia do Saci e seus amigos", é comemorado no dia 31 de outubro, confrontando com o "Dia das Bruxas", influente marca cultural americana.

Mais do que amedrontar, Iara, Boitatá, Mapinguari, além dos já citados Saci, Curupira e Cuca, permanecerão em nosso inconsciente, a proteger as raízes de uma cultura diversa e prolífera. Garanto ser mais divertido caçar a Mula-sem-cabeça, em noites de luar, do que sair pedindo doces e balas, fantasiados como algum ícone alienígena qualquer.

terça-feira, 22 de julho de 2008

BrasilBev

"A solução pro nosso povo eu vou dar
Negócio bom assim ninguém nunca viu
Tá tudo pronto aqui é só vir pegar
A solução é alugar o Brasil". [1]

Raul Seixas
não viveu para conhecer uma solução alternativa a sua proposta em "Aluga-se". Em tempos de negócios bilionários, talvez uma boa solução seja vender parte do capital acionário para a AmBev (ou InBev, como preferir).

Notícia
da semana em toda a mídia internacional, a compra da Anheuser-Busch por um grupo empresarial brasileiro dá algumas pistas de como atingir a excelência administrativa.

Ao arrematar uma empresa-símbolo americana, eles construíram uma corporação que passa controlar 25% do mercado de cerveja mundial! A multinacional resultante, de controle brasileiro, será a quarta companhia de consumo no mundo, ficando atrás apenas de Procter&Gamble, Nestlé e Coca-Cola.

Como apresentado em matéria da revista Época, em sua última edição, o primeiro item na cultura responsável pelo fenômeno é a meritocracia. Numa estrutura que valoriza o mérito, as pessoas se preocupam em alcançar seu melhor desempenho, para merecerem sua contrapartida.

Associe-se então a obsessão por custos. Apesar de óbvio, vemos muitas pessoas, principalmente quando tratamos do bem público, despreocupados quanto aos recursos necessários para idéias mirabolantes. Sem contar com os casos de má fé. Neles os custos são muito interessantes, principalmente se forem elevados.

Por fim, cabe a discrição a todos os dirigentes. Ostentação é mal vista. O estilo low profile está muito mais difundido. Nem aparecer muito é costume. Padrão é se vestir informalmente, dispensando até a gravata no trabalho. Simplicidade de atuação. Importante é trabalhar!

Com idéias elementares e muito trabalho, esse grupo de brasileiros começou, há menos de 3 décadas, um negócio de US$ 60 milhões e o transformou em um império de US$ 81,7 bilhões. Só a última operação representa um negócio de US$ 52 bilhões. Significativo, não?

Sendo assim, com tamanho capital intelectual nacional, talvez seja possível arrumar o Brasil. A fórmula parece simples e aplicável ao cotidiano de qualquer pessoa. Quem sabe, no mínimo, o bem sucedido episódio sirva de inspiração para algum bom político mandatário. Continuamos esperançosos...

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Igualdade

Todos somos iguais?

Vivemos democraticamente. Somos uma democracia. Desde sempre somos doutrinados a acreditar que a voz do povo é a voz de Deus, para demonstrar o poder dos comuns.

Os gregos começaram com essa história de democracia. Todo cidadão tinha poder. Só esquecemos que para ser cidadão, em sua época, era necessário ser homem, com certa idade e possuir certa condição econômica.

Pontuou acertadamente o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em artigo da revista Época, edição especial de 10 anos, ser um dos grandes problemas nacionais a desigualdade.

Começamos desiguais pela existência do foro privilegiado. Incoerência constitucional fundamental, afinal nossa carta magna, em seu quinto artigo, rege: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade".

Persistimos na desigualdade no acesso à justiça. Sem dúvida todos podemos acessá-la, mas alguém duvida da diferença em possuir bons advogados? A condição econômica pessoal influi no equilíbrio da igualdade perante a suposta justiça cega. Dinheiro pode cegar a justiça.

Condições educacionais também nos diferenciam. Direito básico constitucional (sexto artigo), vales gigantescos distanciam instituições de ensino particulares e públicas, no Sudeste ou em outra região. Exemplo de diversidade indesejada e distorcida.

Em poucas linhas, ficamos apenas nas claras vias da diferença. Se nos permitirmos pequeno espaço de observação, podemos, tão rapidamente quanto, destacar inúmeras situações para as quais a proximidade com o poder político ou econômico pode abrir atalhos escusos e facilitados.

Ser parte de um grupo pressupõe identidade. Identificação exige sentimentos de igualdade. Sem igualdade, o comum se esvai, fica sem dono. Mais triste e agravante ainda é perceber que as pessoas, mesmo inconscientemente, aceitam sua condição desfavorecida.

Perpetuar os mecanismos promotores da desigualdade corrói a solidez de pilares da sociedade brasileira. Opções feitas, precisaremos nos esforçar para universalizar nosso conceito de "cidadão".

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Preço

"A única coisa mais cara do que a educação é a ignorância."

Benjamin Franklin teria se perguntado qual o preço da educação? Certamente o mundo era bem diferente no século XVIII. Os desafios sociais e tecnológicos estavam em patamares bem distintos dos atuais.

Nossa língua-mãe já nos demanda cuidado. Temos para o termo "educação" dois usos possíveis. Podemos pensar em educação no âmbito da polidez ou no desenvolvimento de conhecimento.

Deixemos de lado a polidez... :) Há quem acredite com a segunda ser possível obter a primeira. Discussão para outra hora. Pensemos agora em desenvolvimento de conhecimento.

Educar pressupõe um para quê, ou um por quê. Quais são os objetivos da educação em nossos tempos? Estamos preocupados com acúmulo de conhecimento ou habilidade na lida com ele? Num mundo em constante mudança, quais são as necessidades dos futuros participantes da enorme aldeia global?

Em artigo da Revista Época, desta semana, são mostradas as excelentes condições necessárias para o ensino público. Algumas poucas escolas públicas de segundo grau, ligadas a universidades, atingiram as primeiras colocações no Exame Nacional do Ensino Médio.

As causas apontadas de seu sucesso são diversas: a proximidade com a universidade, a seleção para o ingresso, o salário pago aos professores. É um tanto indefinido o cerne da causalidade, mas é nítida a necessidade da mudança de abordagem.

Sem uma educação formadora de cidadãos, aptos a colaborar na construção do país, jamais poderemos atingir condições melhores em nossa sociedade. O sonho perpetuado por décadas de condições de vida mais digna conflitam com o descaso proporcionalmente sofrido pela área de ensino. Era, e é, necessária a tão falada visão de longo prazo.

Dinheiro e acesso apenas não são suficientes. É urgente muito mais do que escolas, acumuladoras de pessoas, pretensas acumuladoras de saber! Faz-se imprescindível ensinar a amizade à sabedoria, mostrar como aprender a aprender.

Em comum com o século XVIII, guardamos o fato de que educação ainda é fundamental.

domingo, 6 de abril de 2008

Espetáculo

Deveríamos nos ater (e preocupar) mais com os rumos de nossa imprensa.

Pilar caro de uma sociedade democrática e justa, guardiã do direito à informação, deveria ser pautada pelo interesse comum e se isentar dos efeitos de uma sociedade de espetáculo.

Somos assolados na última semana pelas notícias sobre o assassinato da menina Isabela (dispenso até os links para o assunto, afinal alguém dificilmente ainda não saiba do que se trata...).

É tragédia passível de notícia, e certamente de investigação e esclarecimento por parte da polícia. Questionáveis são o destaque e a participação em nossa mídia impressa e televisiva concedida ao ocorrido, com a riqueza de detalhes e minúcias mórbidos dispensados.

Quais são os critérios de respeito à família? Será a única pauta importante nos últimos 10 dias? É o único caso violento e terrível em uma sociedade de milhões de pessoas? Há justiça na apresentação em tempo real de cada detalhe investigado, levantado ou ponderado?

O comportamento de nossos zelosos repórteres noticiosos faz vítimas constantemente, sem parecermos nos importar. Todos são vítimas: os expostos, muitas vezes injustamente, nós, os receptores desnorteados, a sociedade carente de critérios, os profissionais e o pilar social da informação, com a imagem maculada pela inconsistência.

Quem conhece o desfecho do caso do Padre Júlio Lancelotti? O resultado da investigação do Ministério Público não mereceu o mesmo destaque das suposições feitas na época das diversas notícias sobre o caso. A conclusão do inquérito é clara: "não resta dúvida de que os acusados associaram-se em quadrilha com a finalidade de praticar reiteradamente delitos de extorsão contra a vítima (padre Júlio Lancellotti) e que esses delitos ocorreram de forma continuada desde o ano de 2004".

Felizmente parte dos profissionais do meio fazem sua mea culpa. Através da Revista Imprensa, de profissionais para profissionais, matéria da edição de março/2008 aponta as preocupações com as faltas cometidas no tratamento dado ao caso do religioso. É reconhecimento de algum mecanismo de auto-regulamentação. Precisa de mais ouvidos...

Neste domingo, em artigo da Folha de São Paulo, seção cotidiano, a colunista Rosely Sayão expressa, com espanto, suas observações com os cuidados dos profissionais de imprensa no caso da menina Isabela. Ela participou da missa em memória da criança e pode presenciar o circo midiático em busca de mais "furos".

Seu artigo, intitulado "A sociedade do espetáculo", é concluído com o desabafo de uma profissional consternada e estupefata com a atitude de seus pares: "Saio carregando meu mal-estar, minha tristeza e a idéia de que o sofrimento de nossa gente é tamanho que talvez nem seja possível sofrer mais quando ocorre uma tragédia. Tempos desumanos e de barbárie este que vivemos, não?".

Algo mais precisa ser dito?

quinta-feira, 20 de março de 2008

Transparência

Ser transparente é primordial para o combate a corrupção.

Com transparência inexistem cantos recônditos, obscuros, passíveis de ocultação de algum movimento escuso. A luz transpassa nossos objetos de observação e os torna aptos a verificações.

Claramente isso é apenas um passo, afinal a teia de valores sociais e culturais relevantes define o comportamento frente aos atos corrosivos das relações públicas, em diversos âmbitos.

Sem corruptores é impossível surgirem corruptos.

Exemplar iniciativa de nosso governo federal, o Portal da Transparência é embrião para muitas mudanças. O fornecimento de informações dos meandros da administração governamental permite o olhar atento à condução do bem comum.

É enorme a quantidade de dados existentes e apresentados. Só que, publicado na Internet, o colosso ser transforma em oponente derrotado pela imensa massa de formigas pesquisadoras. Se as pessoas conseguem investigar milhões de linhas de código, de sistemas operacionais e outros programas, em busca de falhas, a tarefa é similar e me parece factível.

Louvável mais ainda é o trabalho dos arquitetos do sistema do site. O projeto e construção de bancos de dados é tarefa para administradores de sistema experientes, senão o produto final se transforma em um grande elefante branco imóvel.

Através de um esquema drill-down podemos navegar do escopo dos gastos totais de um ministério até a compra de cafezinho de um único funcionário. A consulta feita hoje me informou estarem disponíveis 623.354.912 registros de gastos. Alguém imagina o significado de administrar esse volume de informações?

Os DBAs pelo mundo sabem. E o sistema responde muito rápido. Mesmo imaginando não ter um volume muito grande de acesso, a resposta é quase instantânea. É só experimentar escolher alguns links, por exemplo, nos cartões de pagamento (aqueles mesmos, do noticiário recente) e ir clicando.

Digno de elogio, o portal é exemplo do bom uso de recursos para uma administração moderna e eficiente, com dois grandes aliados: transparência e tecnologia.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Carnaval

"Ô abre alas, que eu quero passar...
Ô abre alas, que eu quero passar..."


É Carnaval! Desista de fugir, pois não há como se esconder do período carnavalesco. Somos invadidos pela TV, jornais, ruas, em todos os locais o assunto é ele.

Trazido pelos portugueses, provavelmente no século XVI, com o nome de Entrudo, permaneceu até nossos tempos com seu caráter dicotômico, entre a diversão e a grosseria.

Tenho saudades do meu tempo de infância. E lá vem mais saudosismo... Brincávamos na rua, com esguichos de água. Improvisávamos pequenos bailes em nossas casas, com músicas, marchinhas, dança entre amigos e muita brincadeira.

As famílias se reuniam e não podiam faltar fantasias, principalmente para as crianças. Um primo mais velho podia nos levar em uma matinê, bem movimentada, para sambarmos bastante e suarmos a camisa. De vez em quando, íamos a avenida do bairro, ver os desfiles de blocos da região, escutar e sentir a batida forte das baterias.

Em algumas noites, parávamos em frente a TV, para assistir um pouco dos grandes desfiles de escolas no Rio de Janeiro. Dias de folia, festa do povo, confraternização, êxtase e descanso. Um digno período sabático!

O Carnaval já não é bem assim, as coisas mudam, a vida muda. O povo nem sempre tem acesso, existem os abadás, os camarotes, os lugares de destaque nas escolas. Existem muitos interesses comerciais, muito dinheiro gerado pela festa, fazer o quê?

O espírito da festa é mais forte. Ainda temos comemorações muito populares no interior, em capitais do Nordeste, como Recife, mantendo a chama da brincadeira, da alegria, da cultura popular, tão bem representada por seus embaixadores, como Antônio Nóbrega.

Seguimos assim, na procura do equilíbrio, à procura do essencial, da verdadeira diversão e sempre entoando: "Ô abre alas..."

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Rondon

Heróis épicos são personagens escassos, dadas as dimensões de suas histórias.

Em tempos modernos, eles parecem escassear mais ainda. Contamos em nossa história recente com ao menos um: Marechal Cândido Rondon.

Nascer no século XIX, descendente de índios de várias etnias, órfão precocemente, é um desafio digno para a biografia de um valente personagem nacional. As primeiras barreiras a desbravar são as do preconceito e falta de oportunidade.

Sua epopéia continua com uma formação militar e plural, mesmo que alguns considerem os dois adjetivos incompatíveis. A formação lhe garantiu condições de desenvolvimento e sustento, através de sua gratuidade e o rendimento de um soldo.

Durante sua vida recebeu, e realizou, missões árduas e gigantescas. Lançou linhas telegráficas pelo interior do país (só no período de 1907 a 1909, percorreu 5.666 quilômetros). Demarcou fronteiras longínquas. Contatou e protegeu tribos indígenas desconhecidas e distantes. Realizou expedições de exploração da Amazônia. Defendeu e combateu governos.

Devido a sua importante e extensa folha de serviços, foi homenageado das mais diversas formas. Medalhas, títulos militares, batismo de ruas, rodovias, cidades e até mesmo de um estado. Próximo do fim de sua caminhada, chegou a ser indicado ao prêmio Nobel da Paz.

A integração nacional e a evolução do país deve muito a colaboração desse brasileiro, autêntico em sangue e alma. Como destaque especial, buscou suas origens ao conhecer e proteger os povos indígenas, sem nunca usar de violência.

Resultado da crença no positivismo ou do amor mais profundo a seu povo, seu exemplo é ícone dos heróis esquecidos em nosso país. Esquecidos não apenas pelo pouco contato com sua biografia, mas pela pouca importância dada por seus valores de unidade, fraternidade, avanço e patriotismo.