sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Simplicidade

Simplicidade sempre é bem-vinda!

Meu café da manhã é sempre meio parecido. Porém, em alguns dias de despertar atrasado, recorro ao auxílio uma das diversas padarias existentes na cidade e não dispenso uma simplicidade matinal: café com leite e pão com manteiga na chapa.

O café pode ser expresso ou coado. Tem que ser bom, saboroso, para encorpar o leite. Servido em copo ou xícara, bem quente, é a configuração indispensável.

Em São Paulo, chamamos a mistura de pingado ou média. Alguns dizem que a diferença entre os dois termos está no teor de café. Um mais fraco, outro com mais presença da bebida tradicional no Brasil inteiro.

Sua companhia inseparável deve ter uma generosa porção de manteiga. Aos mais light é permitido usar margarina, mas para variar poderia ser até a Manteiga Aviação. Bem tostado é o ideal, até ficar bem moreninho.

Indispensável mesmo é ser pãozinho francês, bem crocante, fresquinho. Bem quente estala na boca, provocando o paladar e pedindo um gole da bebida companheira. Alguns dizem ser possível utilizar pão-de-forma, mas não tem o mesmo efeito.

Durante meu desjejum, nesta manhã, fiquei pensando: Já pensou quantos pãezinhos não serão servidos hoje, neste horário, pela cidade? Quantos milhares litros de café serão consumidos? Quantos casamentos perfeitos não serão realizados para celebrar essa feliz combinação?

Frustrante foi hoje o café não ser tão saboroso, não colaborando com uma média aceitável. Além disso, a manteiga não estava bem tostado, deixando o pão um pouco molenga. Tudo bem que eu estava atrasado, mas acreditava ser merecedor de alguma compensação.

Assumo que para quem buscava simplicidade, já estou complicando demais. Permito-me, afinal buscar o mais simples às vezes é bem complicado. :)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Auto-estima

Auto-estima é tida como um dos principais problemas de muitas pessoas.

Várias destas pessoas tendem a se subvalorizarem. Seu critério nivela, e compara, por índices extremamente altos. Em grande parte, elas estão equivocadas.

Começam errando ao comparar. A comparação pode servir como guia, mas não como juiz. A individualidade deve ser respeitada. Cada pessoa tem suas habilidades, suas inteligências específicas.

Em segundo lugar, ninguém é perfeito. Todos possuem falhas, ou melhor, características mais fracas, capacidades menos ressaltadas.

Vivemos a busca de padrões, na tentativa de enquadrar o mundo e nós mesmos. Mas o próprio mundo, a natureza, não é regular. A regularidade é uma característica restritiva de nossa linguagem científica.

No mundo científico há uma piada sofre a formulação de problemas em Física. Diz-se que o enunciado de questões segue o modelo de prefácios do tipo: "Tomemos uma vaca de formato esférico...". A vaca jamais será esférica, mas o problema é simplificado pela generalização, para facilitar sua abordagem.

De certa forma, às vezes é preciso esquecer as imperfeições. Estão lá, é bem sabido, mas não farão diferença. Drummond dizia: "Acreditar em nossa própria mentira é o primeiro passo para o estabelecimento de uma nova verdade”.

A idéia serve bem como crítica aos mentirosos. Pode também ilustrar uma pequena ilusão, criação nossa para ressaltarmos nossas melhores qualidades. Precisamos construir nossa auto-imagem com o melhor de nós. Se acreditarmos nessa nossa super-imagem, teremos mais confiança em nós.

Talvez seja um caminho para começar uma boa convivência com nossa auto-estima. Talvez a auto-estima nem seja tão problema assim...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

DNA

Receitas servem apenas para preparos culinários?

A ciência acredita há muito tempo em um potencial muito maior para receitas, pelo menos no âmbito da estrutura molecular da vida.

Após a identificação do DNA, nos anos 50, um vasto número de aplicações foram vislumbradas e a busca por uma melhor compreensão desta estrutura começou.

Além de um prêmio Nobel, as novas idéias referentes ao assunto levantaram novas questões. Resumimo-nos a um bem definido rol de características? Somos resultado apenas de uma complexa combinação de proteínas?

Em 1991, foi dada a largada para um grande passo no caminho do desvendar de mais este grande mistério, com o lançamento do Projeto Genoma Humano. O trabalho de uma década levou ao mapeamento completo de nosso genoma, com importante colaboração brasileira.

Muitos resultados práticos foram obtidos, desde análises comparativas para identificação de paternidade até o levantamento da evolução de nossa espécie. Sabemos atualmente que dois seres humanos diferem em apenas 0,1% genomicamente.

Diferenças tão pequenas, em combinações de apenas 4 proteínas, são capazes de gerar a maravilhosa diversidade da espécie humana.

Uma grande promessa da teoria dos genes é a terapia genômica. Através da análise de nossa DNA seria possível definir terapias preventivas para determinadas doenças, remédios mais específicos e efetivos para cada pessoa.

James Watson e Craig Venter já tiveram seus códigos genéticos seqüenciados e publicados no ano passado. O trabalho sobre os dados dos dois cientistas é o embrião da nova empreitada codificadora.

A iniciativa mais recente é o Projeto 1000 Genomas que pretende seqüenciar o genoma de 1000 indivíduos, ao redor do planeta, até o ano de 2011. Através de suas diferenças, os tais 0,1%, talvez seja possível compreender melhor seus efeitos na manifestação de doenças e fenótipos.

Continuamos na busca de nosso auto-entendimento. Procurar compreender nossa receita talvez seja um pouco mecanicista demais. Somos mais do que uma mistura química. Somos suficientemente complexos para a busca ser longa e a receita mais ainda...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Faroeste

Faroeste era o gênero preferido de meu pai.

Suas memórias vinham de tempos antigos, do cinema na infância, com as histórias de famosos caubóis e suas aventuras. O chamado bang-bang marcou seu imaginário e ele continuou a assistir até séries na TV.

Eu observava com interesse, mas não via tanta graça nos ilustres Bonanza, Laredo, James West, Laramie, dentre outros. O bacana era estar em companhia dele, curtindo aquelas histórias.

Ontem me peguei assistindo Star Trek (a série original). Mesmo com todo o seu desejo futurista, num fundo ela não difere muito de um bom western.

Diversos elementos do gênero comparecem: a disputa entre valentes, a luta contra o inimigo estrangeiro, a perseguição a um vilão extremamente mal-intencionado, a conquista de belas mulheres, a exploração de terras desconhecidas.

O visual é bem diferente. Os phasers têm muito mais funções, além de atirar. Suas "carruagens" são bem mais avançadas. A emoção da aventura continua igual, instigando nosso espírito desbravador, indo onde nenhum homem jamais esteve!

Assisti diversas vezes, diversos episódios, sem nem lembrar muitas vezes a ordem. Rever as aventuras é uma boa opção para momentos de ócio. É certo que existem outras séries, de tantos outros gêneros, também assistidas, mas esta tem um sabor especial.

Passou o tempo e as novas gerações da série mudaram bastante, principalmente na questão do comportamento das personagens, lhes dando um aspecto mais polido, mais politicamente correto.

Hoje são outros tempos, outros gostos, de certa forma transformados. A apresentação de ontem foi em excelente companhia, mas bate a saudade da boa companhia de meu pai. Espero ser um dia companhia tão boa para meus filhos...

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Bem-aventuranças

"Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus..."

A mensagem na montanha, proferida a tanto tempo, nos guarda um desafio de compreensão e de vida. Entender quais são os valores importantes é uma tarefa árdua, não aqueles eleitos pela nossa sociedade, mas os eleitos pela Vida.

Nossa realidade contemporânea elege valores bem diferentes, propondo um novo discurso de bem-aventuranças. Algo mais ou menos assim:

Bem-aventurados os participantes do Big Brother, pois poderão ganhar R$ 1 milhão reais.
Bem-aventuradas as celebridades, pois elas têm acesso a qualquer coisa no mundo.
Bem-aventurados os políticos, pois podem através de seu cargo 'arrumar sua vida'.
Bem-aventurados os empresários espertos, pois sempre conseguem se dar bem.
Bem-aventurados os valentões, pois ninguém se mete com eles.
Bem-aventurados os com bons advogados, pois conseguem boas brechas como solução.

Em um mundo individualista e consumista esses são os nossos despojos. Restam cacos da nobreza humana, transformada em recursos por uma satisfação pessoal e sem futuro, um encher-se de vazio, uma construção de castelos de areia, a aguardar as próximas ondas para os levarem.

A escolha pode ser pessoal, mas o prêmio é comum, do grupo todo, não há escapatória. O que fazemos, como agimos, fazemos para todos, sempre. A espécie humana é grandiosa em suas individualidades, que são insignificantes individualmente.

Grandes conquistas são conseguidas com o apoio dos outros, mesmo quando não percebemos conscientemente. É uma grande rede, uma trama de vidas, conectada e intricada. Nossa evolução ocorreu e ocorre assim.

Qual discurso preferimos? Quais bem-aventuranças escolhemos? É difícil distinguir entre as opções?

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Carnaval

"Ô abre alas, que eu quero passar...
Ô abre alas, que eu quero passar..."


É Carnaval! Desista de fugir, pois não há como se esconder do período carnavalesco. Somos invadidos pela TV, jornais, ruas, em todos os locais o assunto é ele.

Trazido pelos portugueses, provavelmente no século XVI, com o nome de Entrudo, permaneceu até nossos tempos com seu caráter dicotômico, entre a diversão e a grosseria.

Tenho saudades do meu tempo de infância. E lá vem mais saudosismo... Brincávamos na rua, com esguichos de água. Improvisávamos pequenos bailes em nossas casas, com músicas, marchinhas, dança entre amigos e muita brincadeira.

As famílias se reuniam e não podiam faltar fantasias, principalmente para as crianças. Um primo mais velho podia nos levar em uma matinê, bem movimentada, para sambarmos bastante e suarmos a camisa. De vez em quando, íamos a avenida do bairro, ver os desfiles de blocos da região, escutar e sentir a batida forte das baterias.

Em algumas noites, parávamos em frente a TV, para assistir um pouco dos grandes desfiles de escolas no Rio de Janeiro. Dias de folia, festa do povo, confraternização, êxtase e descanso. Um digno período sabático!

O Carnaval já não é bem assim, as coisas mudam, a vida muda. O povo nem sempre tem acesso, existem os abadás, os camarotes, os lugares de destaque nas escolas. Existem muitos interesses comerciais, muito dinheiro gerado pela festa, fazer o quê?

O espírito da festa é mais forte. Ainda temos comemorações muito populares no interior, em capitais do Nordeste, como Recife, mantendo a chama da brincadeira, da alegria, da cultura popular, tão bem representada por seus embaixadores, como Antônio Nóbrega.

Seguimos assim, na procura do equilíbrio, à procura do essencial, da verdadeira diversão e sempre entoando: "Ô abre alas..."

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Visionários

Nossas tecnologias evoluem tão freneticamente que nem nossos maiores visionários compreendem plenamente suas visões.

Murray Leinster
escreveu um conto chamado "Uma Lógica Chamada Joe", em 1946. Em sua história, ele descrevia aparelhos batizados de "lógicas", num futuro em que qualquer família os possuía e dos quais dependiam enormemente.

Uma analogia possível é com nossos atuais computadores pessoais. Naquela época, de computadores caríssimos e gigantescos, apenas governos ou grandes corporações poderiam pensar em utilizá-los. Leinster anteviu seu uso pessoal.

Isaac Asimov coletou esta história para seu "Histórias de Robôs", em 1984. Para esse volume batizado de "As Máquinas Pensam", o grande autor identificou essa peculiaridade, da primeira história a ilustrar os computadores atuais.

Porém, o enredo do conto alcança uma distância bem maior. Nele a tal "lógica", no comprimento de sua função, transgride uma série de regras para melhor atender aos humanos. Provoca uma revolução na vida das pessoas graças ao acesso a informações que detém.

Essa revolução é permitida pela extrema conexão entre todas as "lógicas" e o imenso acervo de dados coletados na história da humanidade. Podemos pensar diretamente na Internet, com todas as suas conexões e serviços de informação.

Indo além, a coletânea organizada pela "lógica" chamada Joe pode ser comparada ao Google, com todos os seus serviços e estatísticas de acesso e comportamento. Ele se torna "o senhor de todas as respostas", como no caso dos acontecimentos da história de 46.

Nem Leinster, nem Asimov, puderam imaginar o quanto se concretizariam seus sonhos, ou ao menos de que forma. As tecnologias naquela ocasião estavam em estágios bem distintos dos atuais. A matéria de nossos sonhos são nossas experiências diárias, ainda que apresentadas por caminhos entendidos apenas pelo nosso cérebro.

O futuro não está escrito. Será escrito, mas então será passado. Nem mesmo nós, do futuro século XXI, temos condições de prever alguma coisa, apenas nos deliciar com a apreciação das antigas previsões!