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domingo, 19 de abril de 2009

Genômica

Para onde olho, vejo simulacros.

Pode ser influência da leitura de Simulacro e Simulação, de Jean Baudrillard. Apesar do discurso um tanto prolixo, sua mensagem é marcante e provocativa. Reflexão mais do que pós-moderna, denominação como o autor devia odiar.

É matéria de capa desta semana, na revista Época, a disponibilização de exames para mapeamento genético, realizado por clínicas particulares e a preços acessíveis, pelo menos para bolsos mais abonados.

Através da amostra de algumas células, retiradas com pequenas espátulas das paredes internas da boca, é feito um mapeamento das mutações nos genes do indivíduo.

Tais mutações podem indicar propensão a determinado tipo de doença, predisposição a comportamentos, além de sua ancestralidade. Quanta informação obtida de tão poucas células e de maneira tão indolor...

A descoberta da ancestralidade serve para curiosidade ou algum tipo de auto-psicanálise. Já as predisposições comportamentais e patológicas, colaboram na escolha das melhores condutas de vida ou na adoção de terapias e tratamentos preventivos.

Há ainda muita controvérsia na eficácia de tais métodos e sua finalidade. Teimamos em obter uma relação de causa e efeito em tudo que descrevemos. Quais são as garantias de podermos predizer algo, baseados no estudo do passado, em condições bem específicas?

Em caso sem muita alternativa, como em doenças degenerativas sem cura, alguém realmente gostaria de saber ser uma potencial vítima? Interessante mesmo só para a indústria médica, perita em vender problemas e soluções, tudo muito bem arranjado.

De qualquer forma, a ilusão mesmo é ver tudo isso propagandeado como amplamente disponível em cerca de 10 anos! Basta repararmos na realidade da saúde em nosso país, com as condições de hospitais e do atendimento público, o desrespeito de agentes privados com seus clientes e tantas outras mazelas que estamos cansados de assistir e sofrer.

A quem desejamos enganar? Os problemas são antigos e as promessas também. Uma corriqueira tomografia mereceu o mesmo alarde há 10 anos atrás. Procure saber o quanto é difícil conseguir atualmente uma, nos rincões de nossa nação. Triste constatar que vivemos simulacros para nos tornarmos mais seguros e felizes.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Quilos

Questões de peso têm tanto peso...

Geração saúde, alimentação saudável, qualidade de vida. Tantas são as expressões correlacionadas para a preocupação contemporânea com a condição física!

Quanto avanço na medicina, no conhecimento sobre nutrição, no desenvolvimento de alimentos... Mas ainda pobres mortais continuam a rotina de dietas e sacrifícios.

Vejo pessoas e mais pessoas, na academia, procurando perder os excessos de final de ano. Como se esse fosse a maneira mais adequada. Recuperar a forma enquanto outro ano novo não vem.

Preocupação estética ou de saúde? Às vezes o papo começa pelos princípios medicinais, mas, tendo em vista algumas formas de abordagem, o foco é estético mesmo. Compor um visual dentro dos padrões vendidos pela mídia moderna.

Somos humanos e, vez ou outra, caímos nas tentações de nos preocupar com as efemeridades da vida. Ocorre que para alguns o assunto está mais para obsessão. Ininterrupto alerta por gramas, centímetros e outras medidas.

Medidas como o IMC. Só que ele não pode ser generalizado. Diferenças de idade, de composição corporal ou compleição física podem distorcer os resultados e classificar inadequadamente uma pessoa. Se ela padecer da neurose do peso, isso pode ser terrível! :)

Engraçadas também as respostas à auto-imagem. Há aquelas pessoas em forma, mas constantemente veem no espelho alguém com dimensões maiores. Por outro lado, alguns bem dimensionados, não veem problema algum com seus reflexos, mesmo quando lhes afeta a saúde.

Nossos organismos são complexos o suficiente para cada pessoa responder de maneira diferente a alguma mudança de hábitos alimentares ou atividade física. Joguem fora qualquer fórmula mágica. Mágica é coisa para feiticeiro ou ilusionista. Serão de pouca valia no caso.

Melhor mesmo, quando realmente necessário, acompanhamento médico. Acima de tudo, é indispensável a aceitação pessoal. Mais do que uma questão social ou metabólica, tem um peso considerável a quantidade de amor-próprio.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Vacina

Só uma picadinha não dói.

Isso quando não é conosco! Em tempos pós-natais, uma rotina marcante é o acompanhamento da vacinação da criança.

De suma importância, é inevitável o cumprimento do calendário. Um imenso rol de nomes e seqüências! Coleção de carimbos, numa sopa de letrinhas.

Quando eu era pequeno havia a Tríplice. Depois virou a Tetra. Minha filha recebeu a Penta. Eles devem acompanhar os títulos da Seleção Brasileira... :)

Apesar das mazelas de nosso país, se há um serviço, além dos Correios, que funciona muito bem é a vacinação em postos públicos.

Responsáveis pela erradicação de diversas doenças e pela eficiente proteção da população contra tantas outras, são um bem merecedor de zelo e utilização. Se não fossem eles, e suas gotinhas, ainda conviveríamos com a poliomielite e a coqueluche.

Infelizmente, há algumas vacinas não disponíveis. Nestes casos, só mesmo pagando em clínicas particulares de vacinação, se a pessoa tiver condições. Então vem a dúvida de sua necessidade, das tais extras. Mas qual pai, por qualquer dúvida que seja, se tiver condições financeiras, irá negligenciar um cuidado a mais?

De um jeito ou de outro, público ou particular, o choro é certeza. E vai piorando, pois vão aprendendo a rotina, o significado do lugar e o papel da responsável pela aplicação. Nem a gotinha se salva!

Também não é para menos. Descobri surpreso que as injeções atualmente são aplicadas na coxa, bem em cima da perninha e não mais no bumbum. A informação é que o acompanhamento estatístico mostrou ser uma via de administração mais eficiente. Vai saber...

A persistência em cumprir a tabela é apoiada na confiança da necessidade. É para o seu bem! Até agora tive a sorte de minha filha não apresentar nenhum sintoma adverso. De mais a mais, no futuro, como quase todos nós, ela nem vai lembrar como foi.

sábado, 18 de outubro de 2008

Benefício

Googlar faz bem para o cérebro?

Controverso? Talvez... A começar pela divulgação da notícia, na semana passada. Pesquisa referente a realizar buscas na Internet, acabou associada ao ícone da área no momento.

De qualquer forma, a idéia é que vasculhar a grande rede, em busca de informações, proporciona atividade cerebral saudável, importante para pessoas na terceira idade.

Segundo o estudo, a atividade é até maior do que na leitura, fruto de uma utilização de mais áreas cognitivas, com maior estímulo e intensidade.

Um bom assunto para exposição da neurocientista Suzana Herculano-Houzel, do "O Cérebro Nosso de Cada Dia", livro e site homônimos, sobre os mecanismos de nossos computador biológico pessoal e as formas de sua boa manutenção, batizadas por ela de neuróbica.

Em princípio, lembro da "síndrome da calculadora". Na época do colégio, o pequeno e inofensivo equipamento era excomungado das atividades estudantis, com o pretexto de poder causar problemas no desenvolvimento. Não aprenderíamos a fazer contas...

O problema estava na calculadora? Ou na sua insensata e indiscriminada utilização? Adquirida comprovadamente a habilidade e o pleno entendimento, o bichinho bisavô do computador, apenas facilitaria e agilizaria o trabalho.

Buscar informações na Web segue o mesmo princípio. O acesso inadvertido, a qualquer tipo de informação, em qualquer fonte desconhecida, pode ser fruto de inconvenientes e desinformação. Conscientes das condições e apoiados em referências confiáveis, renderá frutos valiosos.

Quanto a exercitar a condição neurológica, tenho certas dúvidas. A agilidade compreensão e consolidação de diversas fontes certamente são exigidas. Já a memória, principalmente de longo prazo parece um tanto comprometida.

Fico com a sensação de que transferimo-la para as redes digitais. Para que lse embrar de algo, se basta uma pesquisa rápida para encontrarmos? E vai ficando mais difícil lembrar o nome do fulano que fez tal filme, o lugar onde compramos tal tipo de artigo, o melhor caminho para tal endereço...

Quem sabe seja a tendência natural de procurar concentração nas melhores habilidades, as mais importantes, relegando as mais rotineiras, automáticas ou repetitivas aos nossos instrumentos criados. Incomoda saber que não dominamos, nem possuímos, totalmente esse grande instrumento digital.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Umbilical

Decisões por um fio são angustiantes.

Fio condutor da vida, conexão primordial de nossa existência, o cordão umbilical é fonte de importante reflexão. Em verdade, mais precisamente o seu congelamento é tema de preocupação com a chegada de um filho.

Marca indelével da natureza humana, vem se mostrando fonte de alternativas para terapias de saúde. Ao menos é a informação propagada pelos bancos privados de armazenamento.

Ao buscar conhecer o local para um possível parto, os pais são apresentados a essa alternativa moderna. Questionável abordagem, a ANVISA e o Ministério da Saúde põem atualmente em questão a ética e a forma de tal propaganda.

Das miríades prometidas, com linguagem pouco acessível, a busca em diversas fontes corrobora apenas a utilidade em tratamentos para leucemia e doenças relativas ao sangue.

Dúvidas surgem aos montes... Congelar ou não? Garantia futura ou não? E se não o fizer? A tecnologia evoluirá? Outras tecnologias surgiram? Teremos condições de arcar com a manutenção?

Outro ponto relevante é a existência dos bancos públicos de armazenamento (BSCUP). A concepção é a mesma dos bancos de sangue: repositórios de material disponível para toda a população, com diretrizes para o bem público. Ponto muito bem esta questão Nelson Hamerschlak, no artigo "Cordão umbilical: congelar para quem?".

Entre as diversas limitações, há a limitação financeira. O procedimento está longe de ser barato. Mas, para a vida de um filho, dinheiro não é problema, certo? Pois eis o apelo... Mal comparando, é o mesmo tipo de sinuca vivida em momentos de morte, ao procurar conceder um funeral digno a um parente.

Há pelo menos uma questão ética também. Congelar com exclusividade para um indivíduo, com viabilidades limitadas de utilização, ou doar para instituições públicas, com perspectivas de melhor aproveitamento?

Nas questões de relação com a vida, é bom ter cautela para não acabar olhando apenas para o próprio umbigo. Dilema imposto pela colocação de alternativas de vida de um filho por um fio.

quarta-feira, 26 de março de 2008

MSF

Onde estão as fronteiras de nossa solidariedade?

É bem comum ouvirmos alguém dizer que faz tudo pela sua família, ou por seus amigos. Ajudar o conhecido, o mais próximo, é o fardo mais leve a carregar.

Difícil e louvável é socorrer os totalmente esquecidos, completamente desconhecidos, nos recantos mais pobres e distantes do mundo.

Os Médicos Sem Fronteiras, organização não governamental ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, em 1999, é dedicada ao atendimento médico e social de populações em região de conflito e pobreza. Com mais de 30 anos, 22 mil profissionais, atuantes em 70 países, já construiu um legado respeitável, mas apenas começou.

A mazela de nosso mundo é muito grande. Profissionais dedicados como estes médicos e jornalistas são pessoas com o verdadeiro espírito da doação. Preocupação concreta com a vida, muitas vezes negligenciando a própria, pondo-a em risco para auxiliar o outro.

Desprendimento é certamente essencial. Solidariedade e fraternidade sentimentos incutidos profundamente em suas almas. São pessoas legitimamente vocacionadas e imbuídas de um ideal humanitário sem igual.

O poder governamental está imóvel em muitos lugares do mundo. Outra vez a sociedade humana se movimenta para acudir suas necessidades mais básicas, independentemente de iniciativas oficiais. Longe de serem assistencialistas, eles procuram garantir condições mínimas de dignidade de vida, enquanto soluções mais estruturais não chegam.

Justificativas mil podemos encontrar para não estarmos alistados nos fronts do grupo. Trabalhamos muito, mal damos conta de nossas vidas, temos família para cuidar e todos outros motivos muito justos. Podemos, no mínimo, estender nossas fronteiras com apoio financeiro. Que tal a idéia?

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

DNA

Receitas servem apenas para preparos culinários?

A ciência acredita há muito tempo em um potencial muito maior para receitas, pelo menos no âmbito da estrutura molecular da vida.

Após a identificação do DNA, nos anos 50, um vasto número de aplicações foram vislumbradas e a busca por uma melhor compreensão desta estrutura começou.

Além de um prêmio Nobel, as novas idéias referentes ao assunto levantaram novas questões. Resumimo-nos a um bem definido rol de características? Somos resultado apenas de uma complexa combinação de proteínas?

Em 1991, foi dada a largada para um grande passo no caminho do desvendar de mais este grande mistério, com o lançamento do Projeto Genoma Humano. O trabalho de uma década levou ao mapeamento completo de nosso genoma, com importante colaboração brasileira.

Muitos resultados práticos foram obtidos, desde análises comparativas para identificação de paternidade até o levantamento da evolução de nossa espécie. Sabemos atualmente que dois seres humanos diferem em apenas 0,1% genomicamente.

Diferenças tão pequenas, em combinações de apenas 4 proteínas, são capazes de gerar a maravilhosa diversidade da espécie humana.

Uma grande promessa da teoria dos genes é a terapia genômica. Através da análise de nossa DNA seria possível definir terapias preventivas para determinadas doenças, remédios mais específicos e efetivos para cada pessoa.

James Watson e Craig Venter já tiveram seus códigos genéticos seqüenciados e publicados no ano passado. O trabalho sobre os dados dos dois cientistas é o embrião da nova empreitada codificadora.

A iniciativa mais recente é o Projeto 1000 Genomas que pretende seqüenciar o genoma de 1000 indivíduos, ao redor do planeta, até o ano de 2011. Através de suas diferenças, os tais 0,1%, talvez seja possível compreender melhor seus efeitos na manifestação de doenças e fenótipos.

Continuamos na busca de nosso auto-entendimento. Procurar compreender nossa receita talvez seja um pouco mecanicista demais. Somos mais do que uma mistura química. Somos suficientemente complexos para a busca ser longa e a receita mais ainda...