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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Urbenauta

"Sua" vida é andar por esse país...

A música não era assim, mas se tivessem conhecido o Urbenauta bem que poderia ganhar uns versos ligeiramente diferentes.

Nem acredito que ele deseje um dia descansar. É feliz por continuar a navegar nas urbis de nosso imenso Brasil, descobrindo os lugares mais inusitados bem ali do lado.

Astronautas viajam pelo espaço. Argonautas singram os mares na nave Argo. Um viajante pelas cidades, consequentemente, é um Urbenauta.

Cidades como São Paulo são propícias para o surgimento de tal espécie. Com suas colossais dimensões, boa parte da população certamente desconhece boa parte da cidade onde mora.

De um canto ao outro é uma coleção de cenários, culturas e rostos completamente distintos. Mosaico multicolorido, expressão mais do que humana em sua extrema concentração. Sou suspeito para continuar descrevendo minha cidade...

Ontem, eu assistia um programa na TV Rá Tim Bum, que tenho um quadro chamado "Expedições do Urbenauta", ou algo assim. Naquele episódio ele ia procurar o último ponto extremo dos limites da cidade, na região Leste.

Os outros três extremos já haviam sido visitados. No caminho deste dia, encontrou diversas pessoas, em áreas pobres de uma cidade tão rica. Um destes habitantes, um senhor de alguma idade, conhece a cidade apenas até o bairro da Penha!

Não faz ideia como são as ruas da metrópole depois de lá. Jamais foi ao centro, ou nem mesmo próximo a ele. Se levarmos em conta que a maior parte dos pontos turísticos, parques, principais prédios públicos estão "do lado de lá", ele praticamente não conhece nada do grande lugar onde mora.

Exclusão provocada pela imensidade, geográfica e econômica. Cidadãos de uma nova versão de cidadania. Enigma para as políticas públicas e sociais, num novo tempo, de infindáveis mares de eleitores, distribuídos num adensamento sem precedentes.

O Urbenauta tem muito ainda a explorar. Viu além para além do simulacro, do desenho do mapa. Pode observar o cantinho mais distante do gigante paulistano. Aos poucos, por imagens e visitas, monta o quebra-cabeças dessa "Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba".

domingo, 22 de março de 2009

Hinos

"Salve lindo pendão da esperança..." [1]

Sabe aquele hino? Pois é... poucos ainda sabem. Os hinos vão caindo no esquecimento, pelo menos os cívicos. Patrióticos, desportivos ou religiosos, os hinos são uma antiga tradição, muito bacana de evocar.

Quem nunca viu os olhos marejados de um torcedor, em final de campeonato, cantando o hino do seu clube, em comemoração de mais uma conquista.

Nós e nossos símbolos... Eles estão por aí para nos unir, irmanar, em causa ou interesse comum. Resumem anseios, desejos ou sentimentos exaltados em suas letras.

No meu tempo (lá vem o tiozinho falando de novo) cantávamos o Hino Nacional Brasileiro todos os dias, antes do início das aulas, logo pela manhã.

Mais do que cantá-lo, estudávamos sua letra e música em aulas de educação artística. Dele e de outros: Hino da Independência, Hino à Bandeira e o Hino da Proclamação da República. Na época nem sempre curtia, achava até maçante, mas nunca mais esqueci. Hoje valorizo bastante tê-los conhecido.

Comentando sobre o assunto no trabalho, um colega "nativo" de outra cidade lembrou também cantar o hino de seu município todos os dias. É hoje um dos poucos em seu convívio a conhecê-lo, com direito a nome de compositor e letrista!

Cheguei a lembrar que conhecia o hino da cidade de meu pai. Um compacto de vinil mora em nossa casa há décadas, com letra e música bastante ouvida. Aproveitei até para contribuir com a Wikipedia, disponibilizando a informação guardada há 40 anos na família.

Fiquei surpreso ao procurar o hino da cidade de São Paulo e descobrir que ele não existe. E olha que a prefeitura decretou lei que torna obrigatória sua execução antes de cerimônias oficiais (?!). Um concurso criado em 2007 pretende elegê-lo. Tá demorando, não?

Pessoas conhecem de cor hinos religiosos e desportivos. Cantam-os sem vergonha e com orgulho. Se cidadãos desconhecem hinos de seu país, estado ou município, ou não se sentem à vontade de proclamá-los, ou nem sequer fizeram um, deve estar faltando motivos para se orgulhar e celebrar. Triste situação.

terça-feira, 10 de junho de 2008

citIX

"Posso contar a história de Olinda, moço?".

Qualquer pessoa que já visitou Olinda, em Pernambuco, certamente ouviu este chamado de um guia mirim, comum nas ruas da cidade.

Guias em viagens turísticas sempre são uma boa pedida, mesmo com qualidade questionável. Sempre é uma visão de alguém do local. Basta estarmos cientes desta situação.

Conhecer a história, as dicas de lugares, onde devemos e podemos ir, é tarefa árdua para uma única viagem de turismo. Algumas pessoas defendem que em um passeio conseguimos apenas visitar, não conhecer a localidade.

Muitos habitantes de São Paulo, se não a maioria, conhecem apenas uma pequena parte de sua enorme cidade. Que tal se cada habitante contribuísse com seu conhecimento sobre sua metrópole, disponibilizando para quem desejasse visitá-la, ou mesmo para conterrâneos desconhecedores de outros recantos de sua terra?

No site citIX (de City Information Exchange) isso já é realidade. Lá você pode localizar, marcar e compartilhar informações sobre eventos, lugares, instituições, segurança e serviços públicos. Toda contribuição, como se espera, é bem-vinda. Aquilo que se conhece no cotidiano, mais próximo de nossa rotina é o insumo para o trabalho.

Quem desejar, pode depois pesquisar livremente. Vai para alguma cidade desconhecida? Veja se há dicas de bons programas. Será que em seu bairro existe algo que você não conheça? Verifique e se surpreenda. Quem sabe?

É uma iniciativa integradora, comunitária e aproveitando o melhor da tecnologia. Verdadeiro espírito da Web 2.0! Considero-a muito melhor do que seu primo, o site Wikicrimes. Ele serve para pontuar e relatar eventos de violência pelas cidades. Triste conseqüência do desequilíbrio metropolitano moderno.

Nem tudo são flores! É nossa responsabilidade cultivá-las e lhes dar mais atenção. Mais interessante do que mapear e evitar a violência é promover a colaboração das pessoas. A humanização de nossos habitats ó caminho insubstituível para a transformação do espaço público.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Pateta

Irracionalidade nos habita a espreita do momento para se manifestar.

Transitar pelas ruas de São Paulo, com um automóvel, perdeu há muito tempo o sentido de transitar. Não há mais horário calmo. Raros são os momentos de tranqüilidade ou previsibilidade.

Sou usuário antigo do sistema de transporte público. Facilidade para quem sempre morou ao lado de uma estação do Metrô. Para os demais desafortunados, habitantes dessa megalópole, resta muitas vezes utilizar um veículo próprio.

É sofrível. Coisa mínima a se mencionar. Em poucas vezes, de rara necessidade, vivenciei o caos dos horários de pico, dentro de um carro. Como é possível suportar? Percebo que as pessoas vão se martirizando e acostumam. Acham normal desperdiçar muitas horas de suas vidas apenas em locomoção.

Fenômeno mundial, o caos do trânsito provoca as mais diversas reações nas pessoas. O comportamento alterado, ou a relação humana com esse desafio, já ganhou definição: road rage. Um das causas é a tensão entre a expectativa de velocidade do motorista e os índices obtidos com as condições oferecidas.

Lembro muito de um episódio do desenho do Pateta... Um cidadão pacato e "normal" assume papel transtornado ao assumir o volante para seu cotidiano em meio ao trânsito. Alterego de muitos ditos humanos, rimos de suas peripécias para não chorar.

Alguns xingamentos aqui, outras aceleradas ali, e a tensão se avoluma. Qualquer indivíduo está exposto e sujeito. Seja por puro envolvimento, ou por total angústia pela falta de poder frente ao problema, a intolerância e o destempero nos tomam completamente.

E assim seguimos em nossa raiva rodoviária. O estudo da road rage conta até com questionário de avaliação, para identificação do estado de cada pessoa. Na opinião de algumas pessoas, a questão atingiu importância de saúde pública.

Já se vão mais de 50 anos, que Disney parodiou tão magnificamente a situação. Premonição, vidência ou análise? Os inúmeros patetas que se cuidem, senão acabam imobilizados em seus automóveis.