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sábado, 3 de janeiro de 2009

Obra

"Qual é a tua obra?"

Com inquietante pergunta, Mário Sério Cortella instiga nossa reflexão em diversas questão ligadas a gestão, liderança e ética.

Curtindo meus presentes literários de fim de ano, pude me deparar com o texto do professor. Sem grandes pretensões, comecei a leitura e fui cativado por seu estilo e linha de raciocínio.

Em seu livro, que leva como título a pergunta acima, ele propõe uma abordagem humana para tarefa de condução das empresas.

Poderia ser um simples material sobre negócios, como tantos outros nas prateleiras de livrarias, classificados assim e interessados em apresentar grandes fórmulas gerenciais, algo como uma "auto-ajuda empresarial".

Filósofo e educador, ele passa longe disso e aprofunda questões difíceis do cotidiano, de maneira objetiva e natural, bem própria dos grandes pensadores.

Discursa para a vida, mesmo a pessoal, provando que a dissociação do trabalho e do lar é uma invenção moderna e estranha. Como mote, a obra. Qual nossa razão de ser? Nossa razão social? Que legado construiremos? Como satisfaremos nossa ambição e desejo de criação?

Somos um único ser com várias faces, mas íntegro. Independentemente do momento em que somos observados, carregamos todos o nosso conjunto de valores, onde quer que formos. Refletimo-os em cada contexto de nosso cotidiano.

Grata surpresa descobrir que o melhor é deixado para o final (que não vou contar...). Depois de muitas páginas de excelente conteúdo, gratifica imensamente encontrar ideias mais interessantes ainda.

Incomoda o fato de ele desejar a crítica, o desagravo. Como discordar de tão sonante discurso? A crítica pela crítica de nada valeria, muito menos para aprimorá-lo. Também são poucas as dúvidas iniciais, devido ao seu estilo tão claro.

Fica a ânsia de praticar, imediatamente. De comunicar a todos. Experimentar e ver no que dá. Reforçar as práticas já existentes e condizentes com sua filosofia. Simples como deveria ser, ele desnuda as relações humanas deixando-as como deveriam ser: humanas.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Despertar

Questões éticas sempre adormecem dentro de nós.

Hoje reassisti ao filme "Tempo de Despertar", com Robert De Niro e Robin Williams. Muito além de uma tocante história, e de primorosa interpretação dos protagonistas, ele desperta várias das tais questões.

Baseado no livro homônimo, de Oliver Sacks, dramatiza um dos muitos casos relatados por este neurologista americano. Todos os seus livros jogam luzes sobre diversas reflexões humanas, através de suas descrições de patologias.

Assisti ao filme há muito tempo. Interessante perceber que, mesmo já o conhecendo em texto e película, ele continuar a emocionar e provocar.

Uma das primeiras questões é "como considerar alguém, ou algum caso, sem solução?". Quais são as últimas alternativas? Decretar inexistência de perspectiva é definitivo demais. Exige muito poder!

Na busca de soluções, qual o direito de um médico em experimentar algo em alguém? Deixemos de lado o questionamento da intenção, claramente voltada a ajudar. Como arriscar com uma vida? Quais os valores e os pesos considerados às opções?

O tratamento dado à família segue quais critérios? É complexo gerar esperança naqueles que amam o doente. A doença é cercada de muitas incertezas. Conceder esperança, uma sombra de certeza, indiscriminadamente, respeita os sentimentos destas pessoas?

Trazer uma pessoa, adormecida há 25 anos, é bom para quem? Imaginemos alguém vegetativo desde 1983. Como esta pessoa se recolocará no mundo? Seus vínculos, seu "chão", quase tudo conhecido estará completamente fora do lugar.

Praticamente é uma ressurreição! A grande diferença é que está não é para uma vida eterna. Se é revivido para ter certeza de morrer novamente. Depois de perdidas algumas décadas... Mas como optar? De que maneira podemos pesar tais escolhas?

Em poucas linhas, muitas dúvidas, escassas respostas. Interrogações orbitam nossa existência. Tememos estar adormecidos e desconhecer a realidade. Platão aos menos nos conforta. Afirma que quem nunca esteve acordado, jamais questionará se está dormindo.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Moreau

O comportamento ético de nossos cientistas é matéria de atenção primordial.

A proposta de nova linha de pesquisa, ou algum experimento inovador, em busca da evolução científica deve preservar nossos valores humanos.

Em 1896, H.G. Wells já fazia de sua ficção um alerta para os novos tempos do avanço da ciência. Mesmo sendo fruto de sua imaginação, provavelmente pautado em sua visão aguçada da sociedade, o livro "A Ilha do Dr. Moreau" sinaliza sua preocupação com a conduta de nossos gênios.

Na história, um médico acusado de tratamentos dolorosos a animais, realiza experiências de transformação de animais em seres humanos, através de cirurgia e hipnose. Acaba por criar criaturas monstruosas. Diversas foram as versões cinematográficas, vividas por nomes de Malon Brando a Val Kilmer, de Burt Lancaster a Michael York.

Maluca demais essa idéia, não? Só a nossa ficção para proporcionar tamanho devaneio. Mais ou menos... Há mais ou menos dois anos, cientistas britânicos começaram o processo para utilizar embriões bovinos com DNA humano em experiências. Nos últimos meses os estudos estão fornecendo resultados!

É isso mesmo. Depois de transgênicos, clonagem de algumas espécies, senão de humanos, chegamos ao ápice do total desrespeito a ética no meio científico. Acaso ainda é lecionada está matéria em cursos relacionados? Qual a formação humana recebida nas várias carreiras científicas?

Justificativas são elegidas aos montes. Mas justificativas, nos ensinam os grandes pensadores, nos servem para muito pouco. Qualquer uma delas procurar comprovar os meios pelos fins. Sabemos ser mais complexo...

Se maus tratos a animais são questionáveis, o que pensar de tal manipulação? Como estamos classificando a vida, humana e animal, em nossa escala de valores? Longe de qualquer dogmatismo, quais são as bases do pensamento promotor destas condutas.

Além de nossos sonhos, a ficção nos traz grande parte de nossos medos. Algo como um mecanismo inato de alerta, muito mais rápido do que qualquer elaboração racional de uma reação. Nosso feeling humano merece muito mais respeito e atenção.

Sabemos o final da história de Dr. Moreau. Desconhecemos o rumo que tais pesquisas podem tomar. Toda intervenção no ciclo da natureza tem trazido sistematicamente prejuízos para todos. Desejamos o mesmo fim do cientista fictício?

Lembremos o quanto nosso mundo é real e único!