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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Cartas

De um jeito, ou de outro, nos escrevemos.

O advento do e-mail transformou nossa comunicação escrita, a agilizou e, de certa maneira, até a banalizou. Descuido maior, menor extensão, vemos a mutação da troca de textos.

Machados de Assis trocava correspondência com sua amada. Em estudos sobre suas bem traçadas linhas, revelações da alma do mestre da literatura.

Lembro, com carinho, do "evento" da chegada de cartas, vindas de Portugal, na casa da minha avó. Momento especial, notícias de além-mar, saudades lembradas.

Ela buscava os óculos, sentava confortavelmente na sala, abria o envelope e lia. Às vezes em voz alta. Noutras em alta emoção. A vida, dos familiares que lá ficaram, a passar em frente a seus olhos, por letras enfileiradas.

Com as novas tecnologias, ficamos com a impressão de sua extinção. O mundo digital já é tão popular, não? Ledo engano...

Ignorando as malas diretas postais, um verdadeiro spam de celulose e tinta, ainda muitas pessoas se utilizam do serviço dos correios para se comunicar. Vale até matar saudades e exercitar a coordenação em escrever a mão!

De qualquer forma, uma coisa não mudou. Para fazê-lo, é preciso saber ler e escrever. Além de ter condições para tanto. Capacidade e acuidade visual, tão cotidianas que nos passam despercebidas em nossa rotina. Só damos falta quando nos falta.

Em São Paulo, no Poupa-Tempo, há um serviço para ajudar as pessoas com dificuldades. O "Escreve Cartas" conta com diversos voluntários, dedicados a atender as pessoas, escutá-las e transcrever suas palavras para o papel.

Bem ao estilo da Dora, do filme "Central do Brasil", se dispõe a serem olhos e mãos de quem não pode, ou não sabe, ler e escrever. No seu caso, não ganham nada além da gratidão e da satisfação de ajudar.

Doação de serviço, de tempo e de vida. Disposição de simplicidade e essencialidade. Corações do tamanho da metrópole que habitam! Mais do que cartas, correspondências inestimáveis a quem necessita, escrevem um chamado a colaboração comunitária.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Filantropia

Filantropia ganhará novos contornos, em breve.

Bill Gates, após sua aposentadoria no mundo do software, se dedicará a ela. Comandará a fundação, batizada com o "despretensioso" nome Fundação Bill and Melissa Gates.

Nascida em berço de ouro, com parte da fortuna do legendário comandante da Microsoft, ainda recebeu a bilionária contribuição de Warren Buffet: US$ 30 bilhões!

Interessante notar que uma instituição filantrópica, assim como uma empresa de software, tem como objetivo a construção de programas. Os dela, sociais, os da empresa, de software...

A julgar pela trajetória de Bill no mundo dos negócios, é possível vermos a repetição de fórmulas de sucesso utilizadas no mundo das empresas digitais. Como empresário ele alçou seus programas ao topo da cadeia alimentar daquela indústria.

Sendo assim, a fundação pouco criará de inovação. Adotará programas já existentes, com potencial, mas sem muitos recursos para desenvolvimento. Providenciará uma remodelagem e relançará com pompa e circunstância.

Instituições candidatas a participar de seus programas deverão se comprometer com contratos de exclusividade. Apesar de toda a discussão ética gerada, o procedimento garantirá a presença da fundação na maioria das áreas de atuação.

Às vezes (ou para ser mais sincero, constantemente) os programas apresentarão erros que o impedirão de prosseguir naquele momento. Os usuários podem começar tudo de novo ou aguardar uma nova versão, com a correção necessária para seu bom funcionamento.

Em pouco tempo, mais de 95% dos programas sociais serão fornecidos pela fundação Gates. Mesmo outras importantes representantes da área ficarão com representatividade tão reduzida que acabarão com sua continuidade ameaçada.

É claro que tudo isso é apenas uma hipótese. A beleza do ser humano está em conseguir continuamente se aprimorar e superar. Que todos estes pequenos detalhes e maus hábitos adquiridos sejam esquecidos. Desejo realmente que a fortuna empregada possa concretamente modificar a vida de muitas pessoas necessitadas!

P.S.: Bill, desculpe, não resisti fazer essa brincadeira. Sinceramente, boa sorte!

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Dentista

Dentistas causam medo em muitas pessoas.

Conheço pessoas que correm facilmente de uma consulta. Basta uma pequena desculpa... Trauma de infância? Reação ao insistente barulho do motorzinho? Alergia ao aroma característico?

Triste constatar que muitos brasileiros deixam de ir ao profissional da boca por falta de recursos financeiros. Há poucos anos, li alguns dados que apontavam a inacessibilidade ao tratamento privado para mais de 95% da população!

E pensar que temos centenas de milhares de dentistas formados. Houve muita melhora nas condições nos últimos anos, mas cerca de 7 anos atrás, 40% dos brasileiros, com até 6 salários mínimos mensais, chegavam aos 60 anos desdentados.

É uma questão estética e de saúde. A estética, liga a imagem, remete também a saúde social. Sabemos da influência de nossa apresentação em nossos vínculos sociais. Possuir acesso a tratamento dentário é garantir acesso à saúde.

Movido pelo altruísmo, e certo senso de retribuição, o odontologista de estrelas, Fábio Bibancos, criou o movimento Turma do Bem. Com a missão de mudar a percepção da sociedade na questão da saúde bucal e da classe odontológica com relação ao impacto socioambiental na sua atividade, convoca profissionais de todo país a serem voluntários.

Os dentistas voluntários inscritos adotam jovens de 11 a 18 anos e se comprometem com o tratamento dentário do apadrinhado por todo este período de idade. É apenas uma das facetas de atuação da organização.

Testemunhamos uma versão brasileira do Trem do Sorriso, entidade internacional que percorre países, em um trem, provendo tratamento facial para pessoas carentes. Tal movimento vai além da preocupação com os dentes, mas procura a solução do mesmo problema: garantir condições sociais igualitárias às crianças pobres do mundo.

Sociedade movimentada, resultados apresentados. Em tempos de poderes públicos morosos, outro poder, também público e legítimo, se compromete com o desenvolvimento do bem comum. A perpetuação de qualquer dos poderes instituídos depende diretamente da capacidade de sorrir das pessoas.