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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Ópera

Se Wagner pudesse ver isso...

Aliás, Wagner, Puccini, Villa-Lobos ou Verdi, qualquer destes grandes compositores se surpreenderia com essa história de ópera no cinema.

Elaboradas para suntuosas casas de espetáculo do passado, reservadas a seletos grupos de ouvintes, as obras destes ilustres autores hoje podem ser vistas em cinemas pelo país.

Não apenas assistidas em eventos gravados e reproduzidos, mas ao vivo, direto do Teatro Metropolitan de Nova Iorque. Sem poupar tecnologia, com direito a imagens HD e som digital, além do conforto de salas bem projetadas e ambientadas.

Apesar de suas linguagens artísticas possuírem toques universais, sonharem em alcançar plateias pelo mundo, seus universos certamente eram muito mais restritos aos círculos sociais de sua época, às provincianas cidades (mesmo com sonhos metropolitanos) de mais de um século atrás.

Como será que estes senhores de outras épocas entenderiam tamanha distribuição simultânea de seus filhos. Eventos que ocorrem em 46 países, dá para imaginar a plateia total somada ao redor do planeta, sentada em suas confortáveis poltronas no mesmo momento, apreciando as pérolas destes outros mundos.

Consolo para quem não pode se deslocar por continentes para assistir uma obra-prima deste porte, nem tem acesso aos poucos locais disponíveis para apresentação em sua cidade, quando estes existem. Penso até na questão dos inúmeros fusos horários necessitados de conciliação...

Sem querer fazer propaganda, mas já fazendo, aqui em São Paulo teremos "O Ouro do Reno", no dia o9/10, na rede Cinemark. Primeira parte o ciclo épico "O Anel do Nibelungo", esta e outras programações podem ser encontradas no site MovieMobz.

Verdadeiro movimento de globalização da cultura clássica, a transmissão destes espetáculos me causa certa estranheza, em princípio. Algo da aura, do glamour existente, parece ser perdido nesta nova versão, nova apresentação do antigo produto.

Por outro lado, a ordem é essa mesma, reinventar. Os adventos digitais, os ventos das mudanças tecnológicas têm empurrado tudo e todos numa tempestade de inovações. Acertadas ou equivocadas, as iniciativas estão aí para experimentarmos.

Fica a dúvida do que fazer no momento dos aplausos. Ou então, como ficarão os entusiásticos pedidos de bis? Sem falar no cheiro de madeira dos teatros, as emanações do palco, dos músicos e cantores. Espero ao menos que a emoção da audição se preserve...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Cinema

Quem nunca sonhou ter uma sala de cinema em casa?

Tornar possível rever seus filmes favoritos, em condições ideais de apreciação. Tamanho da tela, ângulo das cadeiras, distância da projeção, assim como tantas outras características conseguidas apenas nas salas preparadas para tanto...

A estrutura e espaço necessários têm custos proibitivos. Nem mesmo a história dos home theaters, da indústria eletro-eletrônica, convence com suas qualidades. Apenas quebra um galho.

Outro dia mesmo, comentava com alguns amigos a respeito de quatro filmes: Matrix, Existenz, Cidade das Sombras e Décimo Terceiro Andar. Todos compartilhar idéias semelhantes em seu enredo. Seria bom poder vê-los adequadamente.

Matrix dispensa comentários. É o ícone em essência dos fãs contemporâneos de ficção científica e tecnologia da informação. Virou carne de vaca! Desconfio que muitos até dizem gostar, sem mesmo saber exatamente por quê...

Existenz é da linhagem cult. Do diretor David Cronenberg, traz uma surpreendente visão de realidades fictícias. Seu estilo estético é único. A ilusão da realidade chega a atingir a presença de Jude Law e Jennifer Jason Leigh. No Brasil, os distribuidores fizeram questão de bloqueá-lo, tornando impossível até seu aluguel.

Décimo Terceiro Andar é uma representação mais pobre, mas não menos profunda e recursiva. Seus tons verdes "lembram" a mesma matriz tonal de Matrix. Coincidência com o mundo eletrônico, ou "inspiração" comum?

Cidade das Sombras, com Kiefer Sutherland, chegou a esgotar as apresentações na TV. Até o SBT já não o exibe mais. Com surpreendente final, similar às semelhantes produções, é outra visão alternativa para completar a discussão de nosso "sono acordado".

Reassistir suas produções preferidas se tornou mais fácil. O site Movie Mobz promove a reunião de pessoas que desejam assistir ao mesmo filme, aloca uma sala de cinema, de uma rede associada de exibidores e realiza a sessão exclusiva para esse clube de interessados.

Mobilização e colaboração! Internet e cinema casados de maneira inovadora. Há quem esperava a chegada do filme on demand, inventaram uma espécie de sala de cinema delivery. Sempre é possível fazer bom uso de nossas tecnologias e motivações.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Jerry

Guinadas inesperadas na vida nos ajudam a melhorar.

"Jerry Maguire" é um filme basicão de Hollywood. Poderia ter ficado só nisso, mas consegue surpreender e nos trazer algo mais.

Admito ser suspeito para opinar, afinal já o assisti algumas vezes. Tantas que havia esquecido quanto tempo ele já tem (12 anos!). Em 1996, o mundo era tão diferente, são tantas os detalhes daquela época na história, mas isso é outro detalhe...

Ícone de um comportamento capitalista, a personagem principal se incomoda com seu papel no mundo, com sua abordagem na condução da vida de seus agenciados.

Tocado profundamente por alguns pequenos detalhes de seu cotidiano, ele subitamente se deixa levar pela angústia plantada e escreve um documento, quase uma declaração de libertação de seus vínculos viciosos profissionais.

Declaração feita, equilíbrio alterado. Apesar da acolhida de seus pares, a estrutura o rejeita, como representante do contrário de suas expectativas. Sem o emprego de sempre, sem seus estrelares clientes, a hora é de recomeçar.

Assim começa a saga da conquista de uma nova vida, de novos valores, de melhores rumos. Caminho incerto, trilhas desconhecidas, as esquinas são dobradas um após a outra. Uma transformação, a metamorfose da lagarta em borboleta.

Metamorfoses são complexas, difíceis. Deixar anos de comportamento por algo completamente novo exige energia e determinação. Firmeza em novos princípios ou entrega total às vozes do coração. Recompensa maior, o prazer de seguir melhor rumo é inigualável.

O apoio dos próximos a Jerry (Tom Cruise) foi importante. Sua companheira de trabalho Dorothy (Renée Zellweger), com seu utópico idealismo, e seu agenciado Rod (Cuba Gooding Jr.), com sua pura sinceridade, o acolheram e guiaram em seus passos no novo caminho.

Morrer em vida nos faz renascer. Renascemos para novas esperanças, para melhores expectativas. Desconstruímos nosso ser para, em bases mais sólidas, reconstruir nossas mais elevadas qualidades.

sábado, 22 de março de 2008

Ribalta

Tempo a mais muda nossa perspectiva.

Na esteira de um feriado um pouco televisivo, com um canal homenageando Chaplin, pude rever "Luzes da Ribalta", hoje à noite.

Pode ser a maior disponibilidade de horário, ou mais tempo de vida, mas o fato é que tal revisão revelou nuances nunca antes percebidas. As 'cores' do filme estavam bem diferentes. Deixou de ser mais um clássico em preto e branco.

Ter assistido 'Mounsieur Verdoux' também certamente colaborou. A nova face revelada, do célebre interprete do vagabundo, é intensamente humana, filosófica e questionadora.

Revelou-se um artista muito mais que um simples ator. Chaplin dirigiu, atuou, escreveu músicas, se entregou completamente à realização de suas obras.

Em contraposição ao "Mounsieur Verdoux', neste não há o cinismo, mas uma generosidade muito grande com a vida. Parece existir uma insistente necessidade de reafirmar a nossa existência. Uma necessidade agradável, suave e apaixonada.

O destino de um grande artista, fadado ao esquecimento, nos lembra algumas das inevitabilidades da vida. Recorda-nos também as diferentes posturas possíveis de aceitação. Já dizem há muito tempo os filósofos orientais: "Se algo tem solução, soluciona-se. Caso não tenha, então também já está solucionado".

É uma outra versão do "que não tem remédio, remediado está". Porém não é um versão derrotista, mas complacente com o ciclo dos mistérios da natureza. É um grande segredo estarmos adequados, ensaiados, bailando com o ritmo de nossos destinos. Se a vida lhe dá um limão, então faça uma limonada.

Os diálogos no decorrer da trama são reveladores e intrincados. Demonstram toda a sagacidade e inteligência de seu compositor. Compositor este que ousou cunhar a inesquecível música, construída aos poucos pela história e marcante para todo o mundo cinematográfico.

De todas as maravilhas apresentadas ao espectador, ouso pinçar a frase mais tocante da personagem, Sr. Calvero, a sua desiludida amiga e vizinha: "Tão certo quanto a inevitabilidade da morte é a certeza da inevitabilidade da vida"!

sexta-feira, 21 de março de 2008

Guilhotina

Inusitados são os caminhos de um rápido zapping televisivo.

Noite passada, procurando algum programa para assistir, acabei me deparando com um filme diferente. Estava no Telecine Cult, um filme preto e branco, com ares bem antigos.

Por algum motivo, o ator me chamou a atenção. Desconfiei de sua fisionomia, mas o tema, um tanto macabro, não combinava com ele: Charles Chaplin.

Após rápida confirmação no IMDB, pude apreciar um trabalho de quem imortalizou "O Vagabundo", Carlitos, na tentativa de realizar algo diferente de sua mais marcante personagem.

No filme "Monsieur Verdoux", ele interpreta um astuto e cínico assassino, que se casa com mulheres ricas, para depois eliminá-las, fazendo disto seu ganha pão.

Entre algum suspense e pensamentos sinistros, surgem diversos apêndices de questionamentos filosóficos, na mais diversas áreas: livre arbítrio, identidade, adequação social, bondade. O personagem age com acidez e cinismo ao desafiar as convenções sociais.

Chaplin, mesmo interpretando um vil ser humano, deixa escapar diversos momentos de ternura comportamental, através de gestos, sorrisos e pantomimas. É quase uma confissão de sua natureza, de seu eu mais intrínseco, sem conseguir ser controlado. Talvez sua personagem mais marcante o fosse assim, pois revelava muito de seu intérprete.

A história, filmada e transcorrida nos anos 40, me surpreendeu também por um outro detalhe, desta vez histórico. Durante seu decorrer, o personagem é julgado e pode ser condenado a guilhotina! A pergunta foi quase imediata: isso não é coisa da idade média?

E lá vou eu a pesquisar novamente... Não! É mais recente do que eu imaginava. A última decapitação na França ocorreu em 1977! Além disso, o país só aboliu a pena de morte em 1981. São fatos muito recentes para comportamentos tão bárbaros e antigos.

Matar alguém como forma de punição já é uma violência enorme. A decapitação, então, é algo inimaginável em nosso tempo, ficando distante como uma ficção. Ledo engano meu... E logo os franceses, com seus ares de sábios e iluminados.

Esta 'descoberta' foi um corte em minha percepção do amadurecimento de nosso mundo. Estava muito longe de aventar a possibilidade tão recente da aceitação deste tipo de legislação. Vou prestar mais atenção por onde zapeio. Ou talvez me aventure mais ainda...