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sábado, 31 de janeiro de 2009

Papinha

Dá um trabalho, mas é bom demais!

Falando em aprendizado, de períodos bem pós-natais, uma hora chegam as papinhas. Pois é, não conseguimos viver eternamente de leite.

Em algum momento, temos que provar outros alimentos. Novos sabores, novas texturas, uma viagem rumo ao desconhecido. Imagino como seria no passado remoto...

Começa com as papinhas mais simples, com poucos elementos, para identificar se algum deles pode gerar um piriri. É melhor não arriscar.

Continua com elementos cozidos, beeeemmmm cozidos, para passar pela peneira e não restar nada sólido. Alguém imaginaria que fosse possível passar um pedaço de carne pelos furinhos da peneira? Haja cozimento...

Pouco tempo depois, as papinhas passam a ser apenas amassadas. Às vezes até ganham alguns fiapos, como de carne de frango ou verduras, ou umas pelotinhas maiores de batata ou cará.

Seja como for, em qualquer das fases, tudo tem de sempre ser fresquinho, feito no dia, senão na hora antecedente ao evento. Legumes e verduras frescas também. Sal quase nada e um pouquinho de azeite para incrementar. Descascar, cozer, amassar, descascar, cozer, amassar...

Aliás, põe evento nisso... Senta no cadeirão, ou em cima da mesa. Põe babador. Conquista a atenção. Vigia as mãozinhas. E vai, pacientemente, colherzinha por colherzinha, esperando a boquinha se abrir e degustar a bela refeição.

Esqueça de ter pressa. Ponha de lado nossa relação com nossa alimentação diária, ou com a tal história dos fast-foods. É um legítimo exemplar da onda slow food. Apreciar cada micro engolida, cada suspirar e cada tomada de fôlego, por menor que seja a quantidade.

Isso se ficarmos apenas no "céu de brigadeiro". De vez em quando, uma tossidinha, ou uma vontade de brincar, e lá vem uma chuva de gotículas alimentares. Babador nessa hora pouco adianta. Difícil conter sorrisos, ainda que necessário.

Pode demorar uma hora inteira, mesmo que seja apenas uma tacinha dessas de sobremesa. Tudo é aprendizado. Para um, a nova experiência de fonte de vida. Para outro, a contemplação da simplicidade e fragilidade da nova existência, carente de dedicação e atenção total.

Só aí percebemos como andamos distorcendo a noção de tempo. Nesta hora da papinha (hora mesmo) vivemos a eternidade. A troca de olhares e colheradas. Sorrisos, gracinhas e muita conversa. Pode dar o maior trabalho, do preparo à refeição, mas é inesgotável troca de carinho e amor filial.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Jejuar

Dureza essa história de jejuar.

Há algum tempo, descobrimos a necessidade de nos alimentarmos constantemente, em intervalos de cerca de três horas, em pequenas porções entre as refeições.

Depois que se ganha esse hábito, fica muito difícil fazer um jejum, posso garantir. O corpo clama por um pouquinho de alimento, estranhando a interrupção de algo tão rotineiro.

Porém não há outra maneira, quando precisamos fazer um hemograma. Pelo menos nenhum médico me contou. A suspensão da alimentação para observar as condições metabólicas é imprescindível.

Desde que comecei a fazer exames de acompanhamento anual, pelo menos um dia no ano acabo jejuando. É a época da revisão dos 30.000 km, 31.000, 32.000... Marco a consulta com o clínico geral e já vou em jejum. Saindo de lá, já passo no laboratório para a coleta de sangue.

Esse ano não foi tão fácil... Chego todo pimpão na recepção do laboratório e tenho uma surpresa. Um dos exames tem preparação específica, além da suspensão da alimentação. Já que a coleta será necessária em outro dia, aceita a sugestão de fazer todos os exames. Lá se foi meu esforço...

Esforço e tanto... Depois de jantar, bem cedo para os padrões cotidianos, resta escovar o dente e tentar esquecer. Parece que a simples necessidade já faz diferença e causa ansiedade. Para dormir ainda é muito cedo. Melhor procurar outras atividades para distrair.

Na hora de deitar a barriga chega a roncar. Reclamação natural do monstrinho que dificilmente entende a greve de abastecimento. Ao menos dormir para mim não é problema. No outro dia, é só acordar e ir direto para o laboratório.

Curioso no primeiro dia é que, entre consultas e deslocamentos, acabei passando mais um tempinho ainda sem comer. Quando percebi, já tinha passado a vontade de comer. Aliás, nem havia lembrado direito. Dava até uma sensação gratificante de auto-controle! Provavelmente reside aí o risco de alguns distúrbios alimentares.

Mesmo sem pensar em distúrbios, lembro do costume de jejuar em algumas culturas e religiões. Por penitência, compadecimento ou auto-conhecimento, praticam o ato em determinadas épocas ou períodos. Admirável controle voluntário.

Inegavelmente delicioso, depois dos exames realizados, é tomar um lauto café-da-manhã. Escolher um lugar bem gostoso, com os quitutes de preferência, no tipo e no sabor, e saciar a vontade de um pouquinho de mastigação e deglutição. Isso nos faz entender o verdadeiro sentido da palavra desjejum.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Alimentação

Alimentação saudável e crianças nem sempre combinam.

Ceder às tentações do fast-food, ou qualquer outro subproduto de carboidratos e muito açúcar, sempre fica mais fácil. Legumes, verduras e outros componentes de uma dieta variada soam um tanto sem graça.

Raras as crianças sem muitos "não quero", para as tais insossas participantes das refeições. Seja pela textura, ou pela cor, ou pelo sabor, há normalmente uma carinha feia decorrente.

Sábios pais, zelosos pelo bom desenvolvimento de sua prole, procuram incessantemente alternativas para o convencimento. Imposição só criará traumas e revolta. Alguns de nós aprenderam mesmo assim...

Lembro de criança, às vésperas da Páscoa, a chegada na casa da minha avó. Portuguesa com certeza, ela já dispunha diversos baldes com o bacalhau a dessalgar. Eu não podia nem com o cheiro!

Eram dias de batata, arroz e azeite, porque o resto eu não comia: bolinho de bacalhau, salada de bacalhau, bacalhau cozido. Um festival lusitano de iguarias oriundas dos mares gelados do norte planetário. Devo confessar que nunca tinha experimentando até aquele momento, nem lembro o por quê daquela implicância.

Já adulto, em um belo dia de trabalho, depois de algumas horas exaustivas, morrendo de fome, acabei em um almoço em que o único prato era... bacalhau! Sem outra solução, mesmo a contragosto, comi a lauta refeição. Para minha surpresa, eu me refestelei!

Foi na marra e hoje adoro. Coitada da minha avó. Não lhe dei o prazer de experimentar sua doce especialidade preparada com carinho. Hoje só posso ficar no remorso, com ela espiando do céu. Se soubessem teria mudado de paladar antes.

Certos artifícios podem colaborar na apresentação de alimentos aos pequenos. Um blog com boas dicas é o "Comer é um barato", linkado logo aí do lado. Outro lugar muito legal é um blog que conheci hoje, de uma japonesa sediada nos Estados Unidos.

Ela produz Bentôs (uma espécie de marmita nipônica) artísticos, com imagens de animes famosos, como o Picachu ilustrando este post. Verdadeira artista, seu trabalho é impressionante, pelo cuidado e detalhismo. Há até uma galeria no Flickr com vários deles.

Impossível deixar de admirar. Colorido e saboroso conquista certamente olhares e paladares. Problema mesmo é que, do jeito que são as crianças, periga com tanto realismo se recusarem a comer seus personagens favoritos. Ah, crianças...