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sexta-feira, 3 de abril de 2009

Testamento

Bens digitais aumentam constantemente.

Consequência da ubiquidade dos mais diversos serviços digitais existentes. Fotos, mensagens, bancos, música, negócios, qualquer item do cotidiano caminha para receber uma versão feita de bits.

Compramos pela Internet, utilizamos cartões ou transações eletrônicas, nos identificamos em serviços públicos, prestamos contas de impostos, requisitamos direitos.

Todo e qualquer um destes exemplos vêm acompanhados de uma senha, uma chave para garantia de segurança, fora quando ainda não contamos com algum outro acessório, como tokens ou cartões numéricos.

Mesmo as mais corriqueiras propriedades digitais são cercadas de proteção. Blogs, twitters, álbuns de fotos. Sem a correta identificação, tudo ficará perdido no limbo do mundo digital.

No caso de uma fatalidade, como ficariam todos os inestimáveis bens virtuais de uma pessoa. Seriam necessários processos judiciais, autorizações legais, para a família ou amigos reaverem os pertences de quem se foi.

Preocupados com esse problema, e interessados em oferecer uma solução, uma empresa promete estrear este mês um serviço de testamento digital. A Legacy Locker oferece serviço para guarda e manutenção de informações digitais sigilosas.

Em caso de falecimento do proprietário, pessoas podem ser informadas sobre cada um destes bens confiados à proteção da empresa. Nem precisa ser tudo para uma única pessoa. As propriedades podem ter destinatários distintos e únicos.

O tal testamento digital nem é tão caro. Sai por US$ 29,99 por mês ou US$ 299,99 por todo a vida. Só não entendi muito bem como os herdeiros serão avisados. Vi apenas um botão na página principal para informar eventuais "passagens".

Pode ser que tudo fique esquecido mesmo assim... De repente é o velho apego, provocando mais uma desnecessária preocupação. Ou talvez não. Num mundo cada vez mais digitalizado, serão resgatadas posses relevantes. No mínimo, será reavido um legado cheio de lembranças com a mais alta tecnologia.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Póstumas

"Foi assim que cheguei aqui... Como quem se retira do espetáculo".

Em tempos de vida digital e Internet, Brás Cubas, personagem de Machado de Assis, poderia ter uma outra versão de suas memórias para nos contar. Ao menos no formato e sem se retirar...

Conexão acessível, hospedagem gratuita, serviços perenes, essas são as benesses do mundo conectado. Praticamente inexistem limites para a criação e existência de páginas pessoais na grande rede.

Semana passada, entre um papo e outro, um colega de trabalho mencionou a formação de uma banda. Coisa de amigos, com vontade de fazer um som e alguma empatia harmônica.

Isso me fez lembrar da banda que meu irmão formou, no começo do milênio e que, mesmo por um breve espaço temporal, existiu com shows, divulgação e CD.

Era época de muitas vontades, novos ares com a chegada de novos tempos. Juventude e tecnologia extremamente associadas. Nesse período surgiram CPM22, Hateen e Geeks, a tal banda de mio fratello. Por sinal, bandas um tanto irmãs, a compartilhar ideias e componentes, quando necessário.

Vasculhei a gaveta de CDs e, mesmo depois de uma mudança, lá estava o antigo disquinho, gravado há tanto tempo. Levei para meu colega conhecer. Naquele dia, ao chegar ao trabalho, pensei em vasculhar também no mundo virtual, pois a banda tinha site e grande movimento.

O domínio já não pertence a ninguém relacionado ao grupo, pelo menos desconheço o atual proprietário. Porém, diversas referências permanecem lá, imutáveis, como uma página noticiando novas bandas do cenário punk rock nacional.

Caramba! Faz oito anos que nenhum som sai dos instrumentos daquele pessoal. Nem mesmo herdeiros foram deixados... Só que a notícia persiste, encravada nos bits da onipresente teia digital. Algo como um monolito da história de tantos anos atrás.

Fico imaginando o número de sites perdidos neste oceano de informação. Já ouvi falar de portais que coletam páginas póstumas, de pessoas falecidas, mas com páginas ainda ativas. É quase uma viagem no tempo, percorrendo a vida cristalizada, como se um meteoro atingisse o planeta e congelasse todo mundo.

Podemos até falar com o futuro... Em blogs é possível programar a publicação dos posts. Recurso que uso recorrentemente, principalmente quando as ideias brotam aos borbotões. Acaso eu não estivesse mais aqui nesse futuro próximo, ainda assim continuaria a discursar aos quatro ventos digitais por algum tempo.

Qual será o final desta odisseia? Páginas e mais páginas boiando à deriva nas ondas? Recursos infindáveis consumidos para manter ativa parte da história? Quem sabe, algum dia arqueologia será feita através de pesquisas no Google. Deixando fragmentos de bits, um novo Brás Cubas contará suas memórias com muita tecnologia.