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quarta-feira, 25 de março de 2009

Airbags

"Ao menino e ao borracho põe-lhe Deus a mão por baixo".

Antigo provérbio português, dito tantas vezes por minha avó, denota o esquecimento da natureza com os idosos. Uma verdadeira injustiça!

Crianças e bêbados realmente têm aquele jeito cai não cai. Seu sinuoso caminhar parece amparado por mãos etéreas, invisíveis a nossos incrédulos olhos.

Já os frágeis idosos, aqueles sem a firmeza de antigamente, quando despencam sofre sério risco. Grande parte dos acidentes domésticos com a população idosa ocorre em casa, nas quedas.

No Japão, país com significativa população longeva, não deixou para menos e providenciou uma "mãozinha" para eles. Uma companhia japonesa criou um airbag para tais situações.

Amarrado ao corpo através de uma espécie de colete, o dispositivo entra em ação ao sinal de uma queda inesperada. Algo como a reação dos airbags automotivos no momento de colisão. O equipamento pode ser visto em ação em um vídeo disponível na Web.

Protege principalmente a região lombar e cervical da coluna do acidentado, procurando preservar costas e cabeça no acidente, locais mais atingidos nestas situações e dos mais vitais. Pequeno detalhe é que só se pode cair para trás. Para frente não há proteção.

Também conheço idosos com os quais teríamos dificuldades de convencer para o uso. É difícil assumir a fraqueza, passar a receber o tratamento de uma criança, obedecer e se submeter. Preferirão dispensar a segurança e correr o risco.

De qualquer forma, já é alguma coisa. Melhor do que nada. À primeira vista, se mostra um colete discreto. Fico apenas imaginando se deve ser difícil se desvencilhar da traquitana, depois de acionamento. Além disso, a pessoa certamente não pode ter problemas cardíacos, pois o susto é grande.

Um aproveitamento inusitado do conhecimento adquirido em função da indústria automobilística. Aliás, muito de nossa tecnologia surge desse cruzamento de áreas do conhecimento. Mostra de quanto pesquisar algo, seja em que área for, pode render frutos promissores inesperados.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Wabi-Sabi

Como entender uma imperfeição perfeita?

Já se vão 100 anos e ainda compreendemos pouco o povo do sol nascente. O Kasato Maru transportou muito mais do que imigrantes. Carregou outras visões de mundo.

Das tantas diferenças culturais e lingüísticas, um conceito merecedor de destaque é o Wabi-Sabi. É uma abrangente visão de mundo, fortemente ligado à estética, ou com sua ausência.

Aplicado em diversas manifestação culturais, como o ikebana, o bonsai, a haiku, ele revela o detalhe da imperfeição, do desequilíbrio, na forma mais perfeita e natural.

Entender que a beleza do mundo está na sua diversidade, em sua imperfeição, em sua não-linearidade, é fácil. Desafio é tentar reproduzir essa característica, conscientemente, em nossas manifestações.

Conta uma lenda que o grande mestre da cerimônia do chá, Sen no Rikyu, quando ainda um jovem aprendiz, recebeu a missão de limpar um jardim. Completou-a com total perfeição, mas ao final espalhou algumas folhas de cerejeira no local. Conquistou assim o respeito e admiração de seu mestre.

Do nosso lado, ocidental, precisamos uma longa e demorada caminhada científica para elaborar a teoria do caos. No fundo, descreve a mesma percepção do universo. Só que o faz sem todo sentimento e sutileza orientais. Pensando bem, talvez tenha existido alguma "inspiração" de nossa parte...

Seja como for, quando aceitamos, vemos e compreendemos esse jeitão do mundo, aprendemos a apreciar sua beleza. E nos apaixonamos por ele! Inserir pequenos detalhes, em tão grandiosa obra, com tamanha relevância, deixam no ar a desconfiança de ação divina.

Nas conseqüências das pequenas imperfeições está sua maravilha, como ilustra acertadamente a teoria da evolução, iniciada por Charles Darwin. Cientes da complexidade do mundo, percebemos que o melhor é não intervir, mas se integrar aos ciclos naturais. Deixar a vida acontecer e entrar em harmonia com ela é, sem dúvida, a melhor opção.

Definitivamente, temos muito para aprender, além de karatê.