segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Importância

Importante é ser feliz. Todos têm esse direito.

A convicção das pessoas sobre esta afirmação é tão grande que parecem esquecer o equilíbrio presente em nossa existência.

Vivemos alegrias, mas também estamos sujeitos a tristezas. Estamos perdendo a capacidade de lidar com as dificuldades, com as frustrações.

O ideal de tal direito adquirido à felicidade privou grande parte dos seres humanos da consciência de algo negativo. Quando este ocorre, se busca um culpado, natural ou sobrenatural, divino ou humano.

Crianças são educadas de uma forma 'poupadora'. São poupadas de frustrações, de insucessos. Crescerão e como poderão lidar com as agruras da vida adulta? Talvez com o comportamento mimado que encontramos entre muitos exigentes.

Meras obrigações cotidianas passam a ser encaradas como desprestigiosas. O próprio trabalho, essencial a sobrevivência de qualquer mortal, ganhou a condição de sina. É um sofrimento ter a obrigação de cumprir suas obrigações trabalhistas.

Curiosamente muitos dos reclamantes são os com melhores condições de trabalho. São os mesmo que não se incomodam de utilizar os serviços '24 horas' de grandes redes de supermercados. E o direito ao descanso, ao bem-estar, desses trabalhadores?

Extrapolando, como devemos encarar o trabalho doméstico, repassado a alguém com menor condição financeira? Há uma medida da dignidade de um trabalho a realizar? Algumas pessoas são mais importantes do que outras?

As desigualdades sociais permitem diferenças de salário da ordem de mais de dez vezes. Pensando do ponto de vista natural, há na natureza algum ser mais capaz, ou mais forte, ou mais inteligente, dez vezes do que outro de igual espécie? Como justificamos essas diferenças?

Se a felicidade é um direito de todos, qual a diferença de alguns?

domingo, 13 de janeiro de 2008

Poesia

Composição
(Evandro Souza)

Tenho poesia na veia.
Não sou poeta, apenas humano.
Como todo exemplar, anseia
respiro no mar insano.

Tenho sangue na veia.
Sou de carne, bem comum.
No mundo, em meio à teia,
confundem-me a qualquer um.

Tenho fome na veia.
Fome de vida e de saber.
Coisa de gente, linda ou feia,
em sua sina de viver.

Tenho dúvida na veia,
daquela de cortar a alma.
A ela ninguém nomeia,
e continua tirando a calma.

Tenho vento na veia.
Sopra forte, sem cessar.
Inebria-me, me desnorteia,
levando-me todo ar.

Tenho amor na veia.
É amor maior do mundo.
Por toda alma, serpenteia,
corre verdadeiro e profundo.

sábado, 12 de janeiro de 2008

1968

1968: o ano em que fizemos contato!

Em nossa cultura, já virou vício, mania, identificar ciclos e celebrá-los. Não podia ser diferente para uma espécie evoluída e baseada em identificação de padrões.

Há 40 anos o mundo experimentou um momento de virada. Muito se discute, e ainda se discutirá sobre a representatividade de 1968 para a nossa história.

Grande parte das idéias e conceitos atuais teve seu início naquele período. Temos um mundo mais humano e mais aberto, mais preocupado e plural, devido aos eventos e pessoas daqueles meses.

A lista é grande, sempre corremos o risco de esquecer algo: Tropicália, Charles de Gaulle, Fernando Gabeira, Primavera de Praga, Maio de 68, Marília Pera, Passeata dos Cem Mil, 2001, Uma Odisséia no Espaço, Zerbini, Maharishi Mahesh Yogi, Roda Viva, Robert Kennedy, Martha Vasconcellos, Leila Diniz, AI5, José Dirceu, Massacre de Tlateloco, Zé Celso, Guerra do Vietnã, Lula, Richard Nixon, Batalha da Maria Antônia...

O mundo certamente não é mais o mesmo. Toda transformação ocorrida deve ser um pouco reflexo de 68. Outras grandes transformações ocorreram, em outras décadas, mas não com a intensidade de antes, do ponto de vista humano.

Devemos nos perguntar se continuamos inquietos, se ainda sonhamos e desejamos a mudança. O mundo ainda não é o lugar ideal, sonhado por eles, ou sonha por nós. A inquietação deve ser contínua, sempre provocante, motor de nossa evolução.

Os sonhos, as utopias, os planos daquele passado não se concretizaram plenamente, mas mudaram significativa e permanentemente nossa visão de mundo.

Daqui a 40 anos, o que desejaremos lembrar?

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Caixinha

Quem nunca sacudiu uma caixinha de água de coco, que atire a primeira pedra!

Pois é, estamos tão acostumados com as embalagens de sucos "naturais", achocolatados (ou seriam "açúcarenlatados"?), iogurtes, que o ato falho é inevitável: ao pegarmos uma caixinha de água de coco, não resistimos em balançá-la, mesmo sem necessidade.

É uma boa mostra de como nosso comportamento pode ser condicionado. O condicionamento foi feito ao longo do tempo, com aquelas mensagens impressas nas caixas longa vida: "agite antes de beber".

Percebemos que depois de certo tempo, de tanta "agitação", nem lemos mais a mensagem e saímos agitando.

Menos mal quando o alvo de nosso ato mecânico é uma embalagem de alimentos. Muitas pessoas desenvolvem atos mecânicos em relacionamentos pessoais. Um bom dia automático, um como vai cotidiano, um saúde sem muito pensar.

Os desejos e cumprimentos robotizados seguem uma evolução tão vertiginosa que podem ser confundidos com retórica. Infelizmente, isoladas e retóricas as pessoas caminham para uma conexão social muito menor, bem diferente do pretendido com a tal educação "em caixinha".

Refletir sobre seus atos e sentimentos não faz mal a ninguém. É salutar o desenvolvimento de comportamentos bem educados e preocupados, mas de verdade. Seria bom refletirmos sempre sobre nossas mensagens sociais e ver se não precisamos ser mais verdadeiros.

Agitaremos mais a vida com uma atitude mais consciente, afinal as pessoas não estão embaladas para longa vida, nem disponíveis em prateleiras para consumo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Pedágio

Polêmicas podem até ser infrutíferas, mas no mínimo nos fazem refletir.

Ontem, em programa da rádio CBN, o jornalista Heródoto Barbeiro entrevistou a bacharel em direito, recém-formada, Márcia dos Santos Silva.

Em seu trabalho de conclusão de curso, ela discutiu a constitucionalidade da cobrança de pedágio em estradas públicas. Sua tese se apóia no direito a livre locomoção, promulgado na Constituição Federal, mais precisamente no artigo quinto.

O assunto é tema de muita discussão, merecendo até uma CPI, no Rio Grande do Sul, se bem que tais comissões andam desacreditadas em nosso país. Um artigo muito elucidador é o do advogado Márcio Blanc Mendes, o qual discute as visões jurídicas para abordar o tema, tanto a favor como contra.

A estudante afirma não pagar mais pedágios, ao menos na região onde mora. Mesmo com a abordagem da fiscalização, não foi autuada. Conheço ao menos uma pessoa que foi multada, por ter passado em um pedágio, em rodovia Paulista, sem pagar.

Ao conversar com algumas pessoas, se percebe que o incômodo da maioria não é com a cobrança de pedágio, mas com os valores praticados atualmente. Estaremos acostumados com algo indevido? Só nos manifestamos quando nosso bolso é sensibilizado?

Discute-se juridicamente a diferença entre tributo e tarifa. É vedado ao Estado impedir o trânsito das pessoas devido a uma taxa, mas não lhe é proibido contratar um serviço público, que deverá ser pago através de cobrança dos usuários.

Rodovias federais passarão a contar com o mesmo tipo de parceira público-privada implantada nos estados. As concorrências têm levado em conta as tarifas futuras apresentadas pelos pretendentes.

Provavelmente continuaremos pagando as tarifas para viajar nas estradas. Estamos recebendo o devido retorno em serviços?

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Superação

Cabe aos filhos superarem seus pais. Caberá mesmo?

Em uma entrevista na televisão, Luis Fernando Veríssimo mencionou o quão difícil era ter o pai que tinha, Érico Veríssimo. Por muito tempo viveu a sombra da obra de seu pai, afinal como fazer mais do que um grande mestre da literatura brasileira?

Mais do que desafiar nossos pais, queremos deixá-los orgulhosos de nós e para isso desejamos fazer mais. Há também um resquício do desafio adolescente, de se mostrar capaz.

A proximidade, por si só, já gera a comparação. Desde quando somos pequenos são comuns as frases como: "É a carinha do pai!", "Tem os olhos do meu marido." ou "As feições são da família do meu esposo". Começamos nossa história de herança pelos traços físicos, pela nossa genética.

Conta também a imagem de nosso herói, formado durante nosso amadurecimento. Há heróis da coragem, heróis da força, heróis do saber e os heróis do amor. Seja como for, algum traço, ou muitos, são modelos a nos guiar e inspirar, além de orgulho por ser seu filho.

Com o passar do tempo surge a necessidade de retribuir, de agradecer ao demonstrar o quanto somos sucesso de seu empenho. Há algum mecanismo inato nos entusiasmando quando atingimos nosso objetivo. É muito bom ouvir de nossos pais palavras de incentivo e reconhecimento.

Humanamente fazemos o mesmo com os ícones do passado. Espelhamo-nos em grandes nomes da história da humanidade para definir metas a alcançar. O problema será nos desanimarmos frente à grandiosidade dos antepassados. É essencial auto-estima e certa abertura para não se deixar levar por esse peso e prosseguir.

Acima de tudo, independentemente da superação ou não, de seguirmos como esperado ou não, devemos viver plenamente nossa relação com nossos pais. O amor em família é insubstituível!

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Nulidades

"De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer as injustiças,
de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar-se da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto.".

Em discurso no Senado Federal, no ano de 1914, o então senador Ruy Barbosa proferiu as palavras acima. É cruel constatar que, desde lá, ano após ano, poucas evidências são encontradas em nossa política para contrariá-lo.

Nos últimos meses, as discussões sobre impostos ilustram bem a situação da discussão política em nossa nação.

Nenhuma lei ou projeto é discutido com referência aos benefícios ou influências na vida das pessoas. A última preocupação parece ser o bem-estar dos 'comuns'. Toda discussão gira em torno de agradar a oposição ou combater o governo, como num jogo infantil de disputa de poder.

Ambos os lados sofrem de um encurtamento da visão. A distância mais longa que enxergam é o período da próxima eleição. São incapazes até de ouvir os ecos de outras ações negligentes com o "longo prazo". É sintomática a situação de "correr atrás do prejuízo".

Num mar de eufemismos, metáforas e colocações inadequadas, ficamos com a constatação da inépcia de nossos representantes em cuidar do bem comum. Os raros "Ruys Barbosa" certamente possuem o mesmo nó na garganta do primeiro.

Pena o célebre Ruy ter esgotado tão magnificamente a questão. Que mais podem os outros acrescentar?

A esperança é serem estes fatos reflexos de uma sociedade jovem e imatura no exercício da cidadania. As mudanças demoram e ocorrem gradativamente. Só o tempo mostrará se as luzes cintilantes dos pequenos sinais de amadurecimento iluminarão os caminhos de nosso país.

Ruy Barbosa não as viu florescerem.